Se Vanessa dissesse estar cem por cento confortável em conversar sobre garotas no tinder do seu ex-namorado, seria uma mentira deslavada. Era possessiva, sempre fora. Por mais que tivessem chegado ao acordo de que combinavam mais como amigos do que como um casal propriamente dito, suspeitava que a faísquinha que um dia incendiara seu coração em relação a Miles jamais se extinguiria por completo. Por isso, forçava um sorriso divertido enquanto o ouvia discursar a experiência, e precisou de ainda mais tenacidade para esconder o suspiro de alívio ao ouvir seu desfecho. Isso é, até processar a última frase. “Há.” O sorriso sem graça e até um pouco confuso se deu graças ao fato de que, para Vanessa, Miles era completamente hétero. Chamasse de ingenuidade ou síndrome de mãe inconformada, sempre interpretava os comentários como piada; todas as dicas estavam bem à sua frente, mas a Blackburn negava-se a enxergá-las. “Patrick Dempsey é um gato, mas eu ainda prefiro o Daniel Craig. Homens mais velhos são…” Nesse momento, a mente vagou sobre o corpo de um certo professor de biologia, involuntariamente fazendo-na esboçar um sorriso. “É, são legais. Mas 50 ainda dá pra o gasto, acho, não são como as mulheres que começam a despencar depois dos 40. Quando eu tiver 40, vou aplicar tanto botox que não vai ter ruga de expressão no meu rosto nem se eu estiver fazendo cara feia.” Disse, então juntou as sobrancelhas para ilustrar a fala. Segundos depois, permitiu-se rir verdadeiramente, assumindo a brincadeira. “E por favor, Miles, tinder? Really? You don’t need this, baby.” O tom era doce, sincero. Miles conseguiria qualquer garota sem precisar trocar nem duas palavras. Pensando naquele lado, um aplicativo que se baseava em fotos e romances rápidos talvez fosse algo bastante proveitoso para ele. “Eu não quero nem imaginar o tanto de meninas que te deram super like. Ou melhor, quero sim, passa pra cá.” Estendendo a mão na direção dele, esperou que a entregasse o celular. “Vai ser divertido corrigir os erros ortográficos dos seus matches.”
Poderia parecer estranho conversar com a ex-namorada sobre aquilo. Contudo, no momento em que terminaram e juraram que nada iria mudar, Milles tinha em mente que em algum momento, acabaria tendo que falar sobre tal assunto. Para não mencionar que, acima de tudo, Vanessa era sua melhor amiga, aquela que lhe conhecia desde a infância. Obviamente, não iria tratá-la diferente apenas porque agora havia perdido o título de namorado. Já a tinha privado de muitos detalhes, seja sobre quem verdadeiramente era ou sobre alguns atos passados. Doía-lhe um pouco olhá-la, sim, sabendo das escolhas que fizera no passado e que até hoje se fazia presente em sua vida. Às vezes pegava-se pensando... se Zachary nunca tivesse passado em sua frente, se o desejo, se o sentimento não tivesse sido tão profundo, ainda estaria preso na ilusão de que amor, no sentido romântico, era aquilo que sentia pela menina à sua frente? As respostas para isso nunca teria, mas de uma coisa sabia: mentir para ela, de agora em diante, não iria acontecer. Começaria a despejar toda a sinceridade aos poucos e então chegaria no detalhe final que, talvez, despedaçasse para sempre o elo de amizade que os unia. Mas a mentira lhe consumia por dentro. Nunca poderia ser realmente feliz se persistisse nisso. “Daniel Craig... esse também poderia estar como uma exceção, mas não. Acho que o Pierse Brosnan é muito melhor, se estamos entrando agora no assunto 007.“ ele declarou. “Mas se é apenas de mais velhos... bem, de todos, o George Clooney é o que mais me espanta no quesito envelhecer com qualidade. Aquele homem parece ser como vinho: quanto mais velho, melhor.” Milles disparou, soltando um pequeno suspiro antes de morder o canto direito do lábio. Ele não hesitou em passar o celular para a menina depois de abrir na página das conversas. “Nós dois sabemos que você será como a Meryl Streep. Sexy e linda em qualquer idade.” defendeu-lhe, balançando a mão para desdenhar. “E eu posso não precisar de um aplicativo... mas é divertido ver os perfis malucos, é divertido trocar mensagens e fotos... a não ser que no fim sejam falsas! Aí é uma tremenda covardia!”