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@minuciosidades
Não sou mulher de rosas. Já disse de saída, no primeiro encontro, nem recordo a razão. Mas disse, naquele meu velho estilo metralhador de moços com olhos de promessa. Sei que disse, com meus reflexos ariscos de cão sem dono sempre buscando receosa a moeda de troca para qualquer elogio, a vigésima quarta intenção por trás de um rosto abandonado. Eu não queria ser mais uma na sua cama, por isso disse não gostar de rosas, tampouco das vermelhas, pra me afastar da obviedade do amor. Não sabia como, mas queria que você me notasse diferente de todas as outras.
Gabito Nunes. (via diminuido )
Oi, alguém. Quem ainda vive por ai?
Florian Hetz
Karl Glusman & Aomi Muyock, “Love” (Gaspar Noé, 2015).
Eli by Ricky Cohete
O que eu tenho? Nada. No momento, só uma vontade enorme de sumir. Fugir para um lugar onde ninguém mais esteja. Um lugar onde eu possa, primeiramente, me reencontrar.
Proseastes. (via casulopoetico)
E eu pergunto: sofreu muito nesse período? Foi a dor do aprendizado. Chorou muito? Foi a limpeza da alma. Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las. Acreditou que tudo estava perdido? Era o início da tua melhora.
Carlos Drummond Andrade (via trilhou)
Eu tinha alguns motivos pra desistir. Na verdade alguns muitos motivos, melhor dizendo. Mas olha, nos encontramos numa dessas festas de gente sem razão nenhuma na vida, que enche a cara e beija duas mil bocas em uma única noite. Eu era neurótica e sozinha, não era pra estar ali. Ele era bonito e divertido, embora eu também não concordasse com a presença dele naquele lugar, exatamente por essas virtudes aparentes. Mas lá estava ele, vestido com uma camisa cinza, calça Jeans, tênis e acompanhado com alguma bebida em mãos, casual, eu diria. Eu o achava atraente, acho que ele via alguma graça em mim também, não sei ao certo… A questão é que estávamos sozinhos em alguns termos, embora procurássemos por qualquer coisa naquele local, exceto por nós dois. Com quantos olhares se escreve uma história? Com nós dois foi dessa maneira, eu gostei de você e pimba! Você gostou de mim também, eu permito que confesse, pimba! Estávamos em um canto qualquer da festa trocando saliva — Então, perdoe-me o termo um tanto grosseiro, esqueci de citar que além de sozinha e neurótica, eu era grosseira. Que poço de virtudes eu era/sou. — Mas é isto, estávamos nus beijando. Isso, nus. Mas com roupas. Nus de alma, de sentimentos e de afagos. Não era pra ser algo incrível, uma festa, duas bocas, duas línguas e um beijo. E cara, que beijo! Olhei de novo pra ele, os dentes eram bonitos, combinavam com o sorriso e como a maneira que os olhos fechavam quando isso acontecia, era bonitinho. Quem se importa? Eu gostei do beijo. Puta que pariu, o beijo! Mas aí tinha o sorriso, eu estava louca. Um cara numa festa, só isso. Quantos caras numa festa qualquer já tinham havido? Muitos. Ele pediu meu número, droga, droga. Só trocamos um pouco de saliva, cara. Um sorrisinho bonito, um beijo maravilhoso, o papo era legal, assim não dá! Olha, meu número é esse aí. Mas é aquilo, ele ia encontrar alguém com um papo melhor que o meu, com a bunda maior e mais dura, não ia me ligar, esquece. “Bom dia, linda!” era ele. Meu Deus, que tipo de psicopata iria se interessar por mim? Aquilo deveria ser uma grande piada de mal gosto, alguma aposta com os amigos, não era uma ideia válida. Não importa, bom dia pra você também. Olha, ele não gostava dos Los Hermanos, ponto negativo. Mas curtia Caetano e Nando Reis, já é um pouco de cultura. O papo continuava legal. Durante um mês os dias procederam assim, de “linda” pra “meu bem”, de “meu bem” pra “bem”, “benzinho”. Mas cara, eu era neurótica e sozinha! Que tipo de garota neurótica e sozinha se deixa ser apelidada assim? Foi quando eu vi que nem pra neurótica e sozinha eu levava vocação. Mas aí nos encontrávamos com mais frequência. O beijo era cada vez melhor, o papo cada vez melhor, começamos a fazer falta na rotina do outro quando havia algum imprevisto. Estávamos sentindo saudade. Isso mesmo, que grande merda. Saudade. Eu parava de assistir meu programa favorito pra conversar com ele, eu gostava quando ele deixava escapar que eu era uma boa companhia, ótimo, ele era também. Nos encontrávamos mais, ele me contava das meninas e eu contava a ele dos caras, relacionamentos que não davam certo nunca, a gente se divertia até começar a sentir ciúme. Foi aí que tudo foi por água a baixo, a gente começou a ser a gente. Eu gostava dele, mas não sabia como dizer. Droga, uma troca de saliva. Ele disse que gostava de mim. Eu era especial e fazia falta no dia-dia dele. Ele também fazia falta no meu. Cara, foi quando eu, a neurótica, grosseira e sozinha quis ser plural. Existe coisa mais clichê que isso? Essa coisa de casalzinho apaixonado sempre foi muito brega e cheio de frufru pra mim. Mas eu queria ser daquele jeito, eu quis ser brega se fosse perto daquele beijo maravilhoso. Eu tinha motivos pra dizer não, pra dar as costas, bye bye, eu desisto! Mas não, alguém tinha me encontrado, encontrado minha neurose, minha solidão e feito disso algo muito leve pra passar despercebido dessa maneira. A gente se tornou a gente, em meio a uma troca de salivas. A gente se tornou a gente em meio a crises neuróticas. A gente se tornou a gente quando a minha solidão puxou a dele pra dançar.
Raquel Rocha, O amor, suas neuroses e trocas de saliva. (via minuciosidades)
Lembrete
Reparou no quanto somos descartáveis? Talvez seja a maneira mais simples de aprender que tudo passa… Mesmo que para os outros passe primeiro.
C.