eu tenho vivido na escuridão por tanto tempo...
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eu tenho vivido na escuridão por tanto tempo...
louvo à noite
louvo até que ela se torne contra mim
até que ela ressuscite minhas outras noites
hoje me sinto doente, escarificado
jurei não mais sentir-me assim
nunca mais...
mas tenho vivido no limite
minha pele vai ficando na carne
já faz tempo que estou assim
eu quero tudo só pra mim
meus demônios não me deixarão sozinho
se aproveitarão do fato de que estou ferido
será se eu sobrevivo até o amanhecer?
quero me esquecer daquilo que me mata
mas quero guardar o que preciso
não me deixe morrer sozinho...
fica comigo...
mais uma vez...
Nenhum objeto está numa relação constante com o prazer […]. Entretanto, para o escritor, esse objeto existe; não é a linguagem, é a língua, a língua materna. O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe: para o glorificar, para o embelezar ou para o despedaçar, para o levar ao limite daquilo que, do corpo, pode ser reconhecido.
“O prazer do texto”, Roland Barthes
são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me a um campo de minas sou eu agarrando-me aos poucos que me disseram alguma coisa eu tentando não cair, não sabendo como vim parar a esta copa sou eu com a morte nos olhos que trago dentro dos meus olhos eu, fidelíssimo traidor, não entendendo porque me achei só eu a fugir de encontrar-me e sempre na exaustão de me encontrar eu em cada vivo, em cada morto, em cada esquina da cidade sou eu não conseguindo adormecer e, adormecendo, não dormindo sou eu sem saber fugir a uma luxúria que jamais me faz feliz eu a habitar um corpo doloroso, como semáforo amarelo eu vendo outra coisa em cada coisa e em tudo palavras de papel eu carregando o peso do passado sobre um futuro inexorável eu mais mortal que os mortais e defrontando a imortalidade sou eu com a cara e a alma à venda nos escaparates insensíveis eu pedindo esmola a quem despreza o que lhe posso dar sou eu rindo-me de mim para evitar chorar por tudo o mais sou eu irremediavelmente sozinho para toda a eternidade sou eu sem música de fundo, vendo-me num espelho desbotado sou eu a fumar como se me defumasse para me poder comer sou eu silenciando um grito por minuto e escrevendo no mel eu vestindo toda esta nudez, só para só amar a verdade do amor e se isto é difícil de entender, dizendo-te outra coisa não seria eu.
“sou eu”, miguel martins
será se ainda tenho vc?
uh uh
será que não dá mais pra ver?
uh uh
será que a sua visão nublou?
o mesmo que te conheceu
sou eu que hoje aqui estou
o que por fora você vê
do lado de dentro nunca mudou
uh uh
eu me pergunto se você
me ama do jeito que eu sou
se bem antes de me conhecer
os meus defeitos compreender
com os meus demônios conviver
(será se eu ainda tenho você?)
slavoj žižek e alain badiou.
um testemunho entre metáforas e acordes.
confesso que escrevo esse testemunho sob pena de não me reconhecer nele mais. enquanto as memórias pupilam transversalmente pelo ar, ajo como a sonhadora encapsulando neblinas que perdem o rosto durante a coleta, virando uma alma sem pele ou um resto de placenta. se sou a neblina que se escreve, escrevo para não ter rosto - só umidade.
meu relato é de 2020, o ano apocalíptico.
travei guerras comigo enquanto, trancado no quarto, questionava a pressão do tempo sobre meu corpo pregado na cadeira. isolei-me por inteiro. queria dividir conflitos reais com outros corpos, mas só tive o impacto das horas sobre em uma abstração sem fim... confusões mentais. tenho facilidade em expressar recuos em relação à vida e talvez fosse essa minha maior arma contra as políticas de distanciamento. sei me retrair até virar do avesso e alcançar graus negativos de interiorização vegetativa.
quis fazer do isolamento meu laboratório em que eu experimentava os sabores mais neutros tentando extrair sabor. fiz planners, me compactei, criei bibliografias para o amanhã, colidi com fantasmas e descobri que os poderes mais angustiantes são aqueles vinculados ao amor - aqueles que estão próximos são as figuras que mais nos afetam e dissimulam nosso estar totalmente no mundo. às vezes a vida é frígida e os convívios são tóxicos.
refleti sobre o que disse sloterdijk sobre os esquemas esféricos - os nascidos precisam de bolhas para intimizar-se no mundo e estar dentro dele. assim como jp (juliano pessanha) me sinto um desses que, por estar jogado no mundo, sente-se estranho, não-acolhido, desabitado, um nascido para fora da bolha. meus mediadores falharam em algum momento e minha identidade foi abolida. vivi num vir a ser patológico que não sabia mais estar diante outros sujeitos. me agarrei em suplências, as únicas formas que suportavam simbolicamente minha estadia - a música e o cinema. virei um mergulhador que adentrava mundos e empossava metáforas que só os alto-falantes e as alegorias possibilitavam.
mas meu 2020 não fala apenas sobre abismos e negatividades.
o motivo pelo qual escrevo esse testemunho é porque não apenas descobri trincheiras e galhos no meio da estrada, mas também porque estrada me mostrou postos onde eu pude ser encontrado.
lembro-me de como a contingência do real me empurrou para afetos que haviam desaparecido do meu cardápio. busquei rapidamente acessar memórias de dias agitados que me lembravam que a vida podia ser suportável na companhia de seres de corpo e alma. troquei o medo pelo desamparo só para poder me jogar na cama elástica das criaturas que me amavam.
com elas me descobri frágil novamente, mesmo que isso me fizesse forte.
às vezes penso no peso que cedi quando me permiti conciliar utopias revolucionárias com o pessimismo melancólico que sempre carreguei na mala. aliás, nem a claustrofobia me impediu de radicalizar pensamentos que antes não soavam bem da boca pra fora e da boca pra dentro só implodiam meus órgãos.
muita gente morreu. muita gente morreu no brasil. mais de 180 mil. mais de 180 mil vezes morri. fiquei 180 mil vezes mais retraído. não consegui medir o quanto perdi nesse tempo. mas não posso dizer que não pude sentir o cheiro de tanta misericórdia e compaixão. seria injusto com tantos. eu seria falso. só que a morte fez a festa. (mano... os caras abriram cemitérios e tinha gente sorrindo. não entendo.)
agradeço as músicas, os gestos, os convites, as companhias, as mensagens, os sermões, os conflitos, as perguntas e tudo aquilo que fazia receber o aviso invertido de mim mesmo dizendo: “eu ainda estou vivo”.
pois a vida é receber essas mensagens que vem do avesso nos nossos duetos com o outro.
mas não fiz só duetos.
fiz trios, e quartetos, e polissemias.
o nascido pra fora do mundo, encontrou bolhas onde pudesse renascer.
me refiro às intimidades nas quais fui gerado em abraços virtuais e virtuosos. ali quando aquele homem sem braços foi reerguido do estar-fora.
descobri que as melhores companhias são aquelas em que podemos perder aqui pra encontrar no mesmo lugar na hora da volta. eu disse: me ouça. e eles disseram: chegue mais perto. eu cheguei. eles me olharam, chegaram mais perto ainda, e eu fechei os olhos. fechei os olhos como quem ia perdendo a luminosidade momentaneamente, e cada vez mais. meu corpo reaquecia naquelas paredes melodramáticas e espumadas.
eu que já tinha perdido a vontade de falar, nem disse mais nada.
nasci pra dentro.
falar da perda do objeto no caso da melancolia é um exemplo de equívoco de legalidade esférica: o melancólico não é alguém que "perdeu um objeto", mas alguém de quem foi arrancado cedo demais o não-objeto complementador.
juliano garcia pessanha (2018)
quem nasce para fora fica detido em uma chegada permanente. fica refém no aí de uma inicialidade sem fim. quem nasce para fora anota a própria irrupção enigmática no mundo. não consegue esquecer-se do evento de estar sempre chegando num lugar para o qual não adentra! suspenso numa retração de quebrar o fôlego, diz apenas de uma movimentação extática, mas não sabe contar de uma localização inclusiva. sem pai ou mãe para se originar ou para começar a costurar um dentro, assiste à própria eclosão no clarão inquietante do aberto.
juliano garcia pessanha (2018)
seres humanos são migrantes que, por chegarem prematuramente do interior materno, dependem de seres que emprestem seu próprio corpo para que esses, como pequenas arcas e escudos íntimos, controlem inclusive o quantum, o volume de mundo que pode entrar no interior da célula da intimidade.
juliano garcia pessanha (2018)
Oh! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias de minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Meus oito anos. Casimiro de Abreu, 1859.
quando pedimos para conhecer o outro, ou pedimos para que o outro diga, final ou definitivamente, quem é, é importante não esperar nunca uma resposta satisfatória. quando não buscamos a satisfação e deixamos que a pergunta permaneça aberta e perdure, deixamos o outro viver, pois a vida pode ser entendida exatamente como aquilo que excede qualquer relato que dela possamos dar.
- judith butler, relatar a si mesmo.
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo
seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece
nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também...
(Metade | Oswaldo Montenegro)
cessa o teu canto!
cessa, que, enquanto
o ouvi, ouvia
uma outra voz
como que vindo
nos interstícios
do brando encanto
com que o teu canto
vinha até nós
ouvi-te e ouvi-a
no mesmo tempo
e diferentes
juntas cantar
e a melodia
que não havia
se agora a lembro
faz-me chorar.
fernando pessoa, obra poética.
es-quadros
[relendo "esquadros", da adriana calcanhoto]
um mundo renderizado com cores.
do infinito dos pixels à paleta de almodóvar. entre filtros distorcidos e paisagens brutas.
é o som dos amplificadores que invadem o silêncio de toda escuridão, sem avisar, sem pedir permissão, irrompe com um canto desnaturado o canto particular dos pensamentos. toca a pele. "meu corpo, minha lei" – simboliza-me!
encapsulada nas fantasias. o objeto pulsa do outro lado. pulsa a pulsão. vem de dentro. pressão. do outro lado ele está, pronto pra ser devorado, interiorizado. é amor, é satisfação, é desejo. é sublime. puls-ação. pulsa do outro lado da tela.
ele está nesse enquadramento, pois a estética da vida tem sua geometria. tudo está em quadrado.
o quadrado da janela.
o quadrado da janela do carro.
o quadrado da janela do quarto.
o quadrado da janela do retrato.
o quadrado da janela do "contato"
o quadrado da janela do espetáculo.
tudo que existe cabe num quadrado. as faces, os memes, as party's e as raves. cabe até a "dor". o amor e o sofrer são só duas abas distintas do navegador. uma foto. um vapor. um reflexo no espelho.
o real não cabe. a angústia não cabe. a fome não cabe. a saudade não cabe. a pobreza não cabe. a vida é um esquadro e o mundo é estético/estático.
controle remoto.
"você está sempre no jardim, sofrendo, suando sangue [...] nem jesus esteve sempre no jardim, de joelhos; ele também esteve no monte, no mercado, no templo. você não. você sempre está no jardim".
in: First Reformed (2017)
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
[A lucidez perigosa - Clarice Lispector]