Narrow streets of cobblestone || Kakuzu & Ikki
Ele sentia os olhos alheios pregados em seus ombros e aquilo o irritava. Oras, porque tanto rodeio? Se queria uma conversa, bastasse começar com as ladainhas de sempre, as babaquices que qualquer homem do porte de Kakuzu dizia antes que Ikki desejasse quebrar-lhe os dentes. Ele não ouviria, de uma forma ou de outra. Perder seu precioso tempo abrindo os ouvidos para tão pouco não era algo do feitio do Amamiya, claramente pouco receptivo a conversas, sermões ou ameaças sem que no fim não desse o troco com os próprios punhos. E tudo o que o outro vinha fazendo era certamente o que esperava de um idiota qualquer. Contudo, sua posição mudou ao ouvir o nome da bendita que finalmente o fez ligar os pontos. Então, no fim das contas, aquele era o interesse particular da policial Hochi? Uma mulher tão durona cedendo aos encantos baratos de um marginal com pinta de galã? Não que ele estivesse igualmente fora deste padrão. Sempre esteve tão obvio que não se tratava de um bom moço que nunca mais se deu ao trabalho nem mesmo de ocultar seu lado negro para as mulheres com quem se metia. O que igualmente deve ter chegado aos ouvidos de Tenten após a bendita multa não paga que lhe tirara seu carro e agora o fazia retornar para a casa a pé. Mas o engraçado na situação nem era estar sendo confrontado por um homem inseguro em perder seu posto de amante genial para ele. Não seria o primeiro e não nutria bem um sentimento fixo com a morena colocada no assunto tão de repente – ainda que inicialmente não existisse assunto algum se não farpas trocadas através de palavras cada vez mais rudes ou indiferentes, em seu caso, sempre carregadas de uma dose extra e pesada de sarcasmo. Não sabia por que, entre tantos homens com quem Tenten trabalhava diariamente, logo o japonês que mal a via seria motivo de richa maior. A importância que parecia ter para ela, por sua vez, o deixava tremendamente orgulhoso. E com isso era claro que não poderia deixar de rir, com sua voz rouca e com gosto.
- Quer dizer então que veio perder meu tempo simplesmente porque é um babaca inseguro? Convenhamos, podemos ser melhor que isso, não acha? – Debochou, cessando seus passos e virando-se para Kakuzu, soltando a fumaça do cigarro após uma última tragada antes de atirá-lo no chão, usando a ponta do tênis surrado para apagar o tabaco. – Não me culpe por não confiar no próprio taco. Sei que sou um partidão, mas não me meto com o que eu sei que é chave de cadeia pra mim. E aquela mulher, definitivamente, é uma boa amiga, mas odiaria a ideia de parar atrás das grades. – Repetiu o tom de voz particularmente cínico,dando um passo a frente e ignorando a diferença de altura com Kakuzu, que no fim das contas não era tanta. Afundou as mãos nos bolsos do jeans, fazendo questão de em instante nenhum desviar os olhos variantes de dourado à um azul esverdeado diante da luz fraca que vinha em seu rosto dos poucos postes de luz que ainda funcionavam. Não era do tipo que recuava, certo? – Pelo visto, não preciso de muito esforço pra me fazer superior a você que precisa vir até aqui bancar o durão e me ameaçar simplesmente porque não sabe dar conta da sua garota. Mulher indomável. Como pretende seguir com alguma coisa se nem sabe como lidar com ela? Chega a ser engraçado imaginar que sou seu problema quando na verdade nem metido nisso estou. Se enxerga. Se você não consegue dar conta de uma policial como aquela, parte pra outra. Tenten é demais pra quem não se garante.
A raiva de Kakuzu só se mostrou num arquear de sobrancelhas, mas a expressão lhe era tão comum que parecia mais sua feição neutra. Apesar disso, seus olhos brilharam por meio segundo de um jeito diferente, antes de ficarem frios novamente.
- Não se trata de mim ou de não “confiar no meu taco”, como você quer botar isso. Se trata apenas do fato de que não vou com a sua cara e não quero você por perto. Não preciso de um marginalzinho de quinta se metendo onde não é chamado.
Talvez o que lhe irritasse mais em Ikki era que eram parecidos, na medida do possível. Nenhum era flor que se cheire, algo que qualquer um no mundo poderia perceber de longe. E nenhum dos dois iria recuar, estava mais que claro.
E isso era perigoso, para ambos.
- Meu assunto com Tenten não é problema seu. - Não quebrara o contato visual em momento algum. - Se acha que jogar alguns deboches e insinuar certas coisas vão te fazer parecer superior, eu sinto muito por você. Vá em frente. Não vai fazer diferença na minha vida, mas talvez faça na sua. Não brinque com quem você não conhece direito. Quem brinca com fogo acaba se queimando, nunca ouviu dizerem?
E já tinha matado gente por muito menos. Problema de controle de raiva, era o que lhe disseram uma vez. Embora não tivesse episódios tão violentos quanto quando era mais novo, agora isso se manifestava em vinganças. Não podia mais arriscar ser pego por espancar alguém até a morte. Seria idiota. E Kakuzu era mais inteligente do que isso. Mas caberia a Ikki definir o quão longe ele teria que ir.
- É só isso que eu tenho a dizer. Adoraria pensar que você é inteligente o suficiente para saber ouvir meu aviso, mas sei que não vai. É muito novo e inexperiente ainda para ter aprendido com a vida e receio que isso acabe sendo sua ruína. Mas não tem problema. Eu tenho várias maneiras de cuidar de gente que não sabe escutar.















