Mozart Fernandes
@mozartfernandes
Esperando o sinal fechar, pra atravessar uma rua de São Paulo essa semana, vejo um homem abaixado, se contorcendo na calçada, pra fotografar com um celular um pedaço de muro. Chegando do outro lado, vejo que era uma das mulheres de Mozart Fernandes que ele fotografava. Uma das mulheres da série "Foda-me com Amor", que estão espalhadas pelas ruas da cidade. Emocionou ver a cena. Mozart é meu amigo e fez a arte da capa e encarte do meu primeiro disco solo, o "Eu Menti Pra Você". Mas não foi por isso. Emocionou porque estou me acostumando a ver as imagens dele de várias formas diferentes. Tinha uma lindíssima, que ele pintou na minha ex casa, direto na parede e que, não tendo coragem de passar tinta branca por cima na hora de entregar o imóvel, simplesmente larguei ela lá. A proprietária ligou depois aterrorizada, pois, além da mulher ter peitos e expressões fortes, tinha escrito embaixo o tal "Foda-me...". Ela não sabia o que argumentar, já que era só passar tinta branca por cima. Ou ela não queria? Ela sabia que eu tinha deixado o dinheiro pra pintura da casa. O que ela não sabia era como lidar com aquela imagem, nem o que ela causava de sensações. O que o homem que fotografava fazia era gravar aquela imagem linda que estava na rua e levar, de algum jeito, pra algum espaço interno. Seja essa espaço o universo virtual dentro do seu celular e dali não saia, ou, sei lá, talvez ele imprima e pendure numa parede. De tantas formas diferentes as mulheres de Mozart se apresentam. Se fosse música era como baião e samba e bolero e rock and roll. Os pincéis dele são pianistas, bateristas, programadores, timbaleiros e bandoneonistas.Não só com os espaços físicos, mas com isso de cores ele também não fecha contrato. Tem um monte de mulher azulada, com olho cor de rosa, outras queimando feito fogo, nas cores e poses. Isso faz bem pros olhos e pra alma, ver, tanto num painel gigante numa parede de casa, sua ou dos outros, como ver na rua, colado num muro, ou numa caixa de luz ou lixeira, sendo que, os das ruas, antes foi pintado em jornal, pra depois, na jornada on the streets, ser colado pelo próprio Mozart.É, ele pinta em tela média e tela grande, em camisetas, xícaras, pinguins de porcelana e paredes. Cola jornais em muros, desenha numa mesa, cria e trabalha em pé no seu atelier, trabalha na frente do computador na Vértices Casa (loja/espaço de exposições, regado por música, tocado por ele e sua mulher, a cenógrafa Mônica Rodrigues Fernandes).Não tem nada que aprisione a arte de Mozart. Ele é designer também e exerce com maestria, sem trazer o comércio pra suas telas. Já o comérico ganha bastante com sua linguagem desprendida levada até ele rs. Mozart Fernandes...arte indoor das ruas, street art das calçadas ou das salas e quartos...não tem categoria que abarque tanta categoria.Karina Buhr