Pela primeira vez em muito tempo, pensei em mim. Estava voltando pra casa, em um ĂŽnibus lotado, mas tinha conseguido um lugarzinho na janela. Encostei minha cabeça no vidro, coloquei meu fone e selecionei minha playlist favorita. Nem sei quanto tempo se passo, mas em um farol qualquer eu olhei pro cĂ©u. VocĂȘ sabe, nĂŁo entendo nada de astrologia, mas algo parecia diferente. A lua estava linda, as estrelas pareciam brilhar mais intensamente. Aquilo mexeu comigo. EntĂŁo comecei a pensar em mim. Em tudo o que tinha acontecido para chegar naquele exato momento. Em quem eu queria ser hĂĄ dez anos e quem sou hoje. SerĂĄ que amanhĂŁ eu vou ter orgulho de quem fui hoje? SerĂĄ que a lua tĂĄ mais bonita ou eu que parei de dar atenção para ela? Qual foi a Ășltima vez olhei pro cĂ©u querendo apreciar e nĂŁo pra reclamar que tĂĄ muito sol ou chovendo demais? Quando percebi jĂĄ estava fazendo planos para o dia seguinte, para os anos seguintes. O ĂŽnibus andou no meio de tantos questionamentos e por alguns minutos eu perdi a lua de vista, mas sabia que ela estava ali iluminando a noite de alguĂ©m. E isso bastava. NĂŁo precisava vĂȘ-la, tinha a sua lembrança comigo e Ă© isso que irei carregar pelos prĂłximos dias quando quiser pensar em algo belo. EntĂŁo, cheguei a uma conclusĂŁo: todo final Ă© um recomeço. E eu nĂŁo tinha me permitido recomeçar. Estava tĂŁo presa e pensando tanto em vocĂȘ, que esqueci qual era a minha parte nisso tudo. VocĂȘ vai ser sempre a minha lua nessa noite tĂŁo linda. VocĂȘ vai ser sempre a lembrança que irei carregar, vocĂȘ sempre serĂĄ a felicidade de ter acontecido. Mas hoje, quando comecei a pensar em mim percebi que isso Ă© mais importante. A gente nĂŁo vive de lembranças. A gente nĂŁo fica sĂł lembrando da lua. A gente acompanha seu ciclo e cada dia tem uma sensação ao vĂȘ-la. Eu preciso disso.Â