“Papai.” Johanna apenas tinha absorvido todas as palavras do pai até o momento em que ele mencionou Jason. “É isto que pensas? Que eu sou um fracasso? Jason é realmente melhor do que sua filha? Ou só do que seu filho? Me diga, papai…Eu finalmente lhe causei o famigerado sentimento de desapontamento?” Johanna tinha mágoa na fala, sempre se esforçara para ser a menina dos olhos do pai, sempre desviou de todos os obstáculos para se tornar melhor para ele e ainda sim é claro que filho prodigo sempre seria melhor. Johanna não sentia ódio de Jason ou sequer raiva, não se importava, porém ver o pai falando aquilo lhe atingira de uma maneira absurdamente anormal. Ela era um fracasso. Um experimento mal sucedido. “Não. Não é. Você sabe disso.” Uma pontada de ciúmes foi transparecida na fala da Crane. Hanna arquejou ao sentir os dedos do pai serem apertados. Sabia que se falasse o ar lhe escaparia mais rápido, então apena o observou discursar sobre como caçaria os filhos do palhaço caso quisesse. As lágrimas de Johanna começaram a serem mais constantes enquanto a menina sentia o corpo tremer em um soluço. “Não. Tomo-lhe como um criador. Um Deus. Alguém que pode acabar com o mero pensamento de minha existência com palavras…Eu te coloquei em um pedestal alto demais, papa? É difícil ver sua criança de um local tão elevado? Diga-me, papai…De onde me vês, eu sou algo mais que uma bela peça na sua estante?”Johanna respirou fundo, esperava uma reação parecida do pai, não deveria ter confessado seu maior pecado. Não deveria nem sequer ter mencionado ele. Ainda sim sentia-se aliviada por tirá-lo do peito. Johanna estava prestes a responder quando viu a mão do pai se erguer, seus olhos foram fechados, seu rosto virado, seus ombros encolhidos e sua mente entrou em pânico. Ela estava reagindo com…Teor?Seus olhos se abriram se arregalando. Não podia ser. Ela não sentia aquilo desde que era uma criança, ainda sim o sentimento que o pai erradicara estava de volta, é claro que era ele quem traria-o. Afinal só um criador poderia destruir sua criação. “Papa…” O nome saiu com calma e desolação. Ela diria a qualquer um que amava o irmão. Diria como nenhum outro seria digno de sequer cogitar a ideia de lhe tocar, mas não ao pai. Seus olhos focaram-se nos de Jonathan. Uma criança arrependida depois de ter sido pega afazendo mal criações. Era o que Johanna parecia, mas ela não era uma criança e seu pecado havia sido muito maior que uma pequena arte. “Perdoe-me…Eu não poderei negar desta vez, não fui criada para contar blasfêmias em sua presença…Perdoe-me.” Como ela podia. Ela também se perguntava, como ela pudera escorregar para a cama do irmão e buscar conforto em seus braços, mesmo que Joffrey a tivesse negado tantas vezes antes de cair em seus encantos? Johanna respirou fundo antes de responder de forma chorosa. “Do mesmo modo que Eva pode colher a maçã…O que achou que aconteceria, papa? Nós éramos jovens e nos colocastes em tronos, deveria saber que se criar uma rainha ela procurará um rei, não um plebeu…Sinto muito que tenha encontrado o meu tão próximo…”
A palavra pai pronunciada de forma tão triste o abalou as estruturas de Jonathan. Ele estava com raiva não só da garota, mas também de si próprio. O Crane não se importava com nenhum dos protagonistas das cenas exibidas no telão, mas o peso de ter machucado sua Johanna era demais para que ele pudesse aguentar. “Agora me chamas de pai?” Disparou em resposta, ainda sem compreender direito o que estava sentindo. “Ouça, criança, Jason é uma de minhas melhores experiências, superando inclusive seu detestável irmão, mas ele não é a maior de minhas criações.” Tentou corrigir-se apesar do teor ácido de cada palavra ter o pH baixíssimo. O Crane se orgulhava de sua filha de uma forma quase surreal por isso não admitir ouvir tais sacrilégios sem repreendê-la. Sabia que não havia competição entre ela e o Todd, mas usá-lo era a forma mais fácil de atingi-la, principalmente se fosse posto a prova o quão apegado ao garoto Jonathan era. Strange e ele havia obtido sucesso nos planos que arquitetaram para o Robin caído e talvez isso os deixasse tão próximos, situação que não incomodava a primogênita até o momento que usada contra ela. “Você não a conhece.” Defendeu a Quinzel de forma instantânea. “Ele a fez ficar daquela maneira. É culpa dele.” Não se referia apenas ao estado alterado da Arlequina, mas a tudo o que estava acontecendo. “Se me temes como afirmar, sabe que não deves me desafiar, criança tola.” Afirmou sentindo a raiva ser dissipada apesar de manter um semblante sério, impenetrável. “Eu mal a reconheço como minha criança, Johanna.” Talvez a exposição de todos aqueles atos horrendos tivesse dado fim a tênue linha que separava o lado Crane de sua filha de sua metade Isley. “Agora, olho em teus olhos e só consigo ver tua mãe.” A progenitora de Johanna era um assunto delicado, precisava ser tratado com delicadeza, porém, ele apenas jogou as palavras sem se importar com os efeitos colaterais. “Queres mesmo saber? Pois eu digo que é melhor ser uma peça de estante intocada do que um mero feto engolido por formol.” Mencionou de forma inquieta, quase como se revelasse o destino final de seu neto bastardo de forma implícita. O filho natimorto de Johanna a muito por ele havia esquecido, mas, com a nova revelação, o assunto voltou a tona da pior forma possível e ele não compreendia as razões que levaram a herdeira a cometer tão vil ato. Pretendentes não lhe faltavam, homens que, apesar de não serem bons o suficiente aos olhos de Jonathan, ainda eram melhores que Joffrey a sua própria maneira. “Não.” Apenas disse a negativa, negando todos os fatos expostos na conversa, fitando-a intensamente nos olhos herdados de si, observando a imagem de seu reflexo. Ele estava visualmente aflito. “Você espera meu perdão?” Indagou descrente. “És a encarnação do pecado e o assumi de forma explícita, temo que dessa vez, não exista perdão.” Palavras falsas pois, de uma forma ou de outra, ele acabaria por perdoar a filha. “É aí que se engana. Seu irmão não passa de um acidente, nem é digno da realeza.” Respirou fundo antes de dizer as próximas palavras. “E nem você pelo visto.”