uma estrela começa a morrer quando já não tem combustível para queimar. nessa hora o núcleo entra em colapso e durante algumas horas, já morrendo, ela emite uma luz azulada que poderia ser vista em toda a galáxia – se houvesse ali um observador – até finalmente explodir num espetá-culo de cores e intensidade que chega a ofuscar o brilho da galáxia que a abriga e que é capaz de gerar mais energia do que o Sol.
depois da explosão, pedaços do que por bilhões de anos foi uma estrela são espalhados pela imensidão do espaço, deixando um rastro de brilho e beleza para deleite desse nosso hipotético observador. será que existe no universo espetáculo mais arrebatador do que a morte de uma estrela, meu amor?
era uma noite quente de fevereiro quando você entrou na minha vida e foi numa noite quente de janeiro, 2 anos depois, que você se preparou para sair. enxerga a vida sem você era para mim tão provável quanto presenciar a morte de uma estrela, mas uma improbabilidade deixa de existir quando a realidade tira nossos pés do chão e, segurando meu rosto com as duas mãos, me obriga a enxergar.
no começo, varrida por medo, me recusei a abrir os olhos, mas, como as mãos nunca deixavam meu rosto, fui obrigada a ver; e que aflição perceber que diante de mim, onde antes só existia você, havia apenas um abismo em direção ao qual agora eu andava completamente sozinha.
dando passos lentos, tentei deixar meus olhos abertos e, fazendo isso, ainda caminhando para o precipício, vi você e eu emaranhadas entre os lençóis nao querendo acordar, vi você colocando aquela mesa de café da manhã, o seu café, aquele meu preferido, vi a gente andando por Torres, tirando foto, beijando. Vi dois gatinhos entrando pela porta, vi a gente conversando por horas e horas, vi a gente cantando e dançando na sala, vi a gente fazendo inúmeras jantinhas, vi a gente fazendo amor no sofá, no chuveiro, no banheiro do bar.
vi a gente indo de mãos dadas para passear, andando de bicicleta por porto alegre, vi você me beijando no meio da rua, vi a gente bêbada voltando pra casa ou ficando bêbada em casa, vi a gente trancada naquele apartamento por dias e dias mergulhadas uma na outra.
vi a gente brigando, discutindo, se afastando, terminando, se perdoando, voltando, recomeçando. vi você chegando com o vinho, eu preparando o risoto e no fim, ja no alto, você terminando a receita. vi a gente fazendo hamburguer, pizza, massinhas. vi a gente tomando cervejinhas geladas e comendo docinhos. vi a gente assistindo muitas séries e filmes. vi nossas playlist.
vi a gente se descobrindo e se redescobrindo. vi a gente recomeçando e dialogando. vi a gente sendo amiga. muito amigas. vi a gente se cuidando, se aprendendo. cuidando das feridas, cuidando de nós mesmas. vi a gente indo a museus, bares, restaurantes.
sua pele foi a melhor casa que já tive. vou sentir falta dela, e do seu cheiro, especialmente o cheiro que você tem pelas manhãs, que é doce, macio, suave e cheio de libido. vou sentir falta de tanta intensidade, de tanta luz e de tanta energia. vou sentir falta de suas unhas nas minhas costas, de sua língua em meus lábios, de suas mãos em meu colo e das minhas em seu rosto, de suas bochechas descansando nelas e de ver você inclinar a cabeça e fechar os olhos, se deixando ficar. vou sentir falta dos espasmos de seus pés quando você está quase pegando no sono, e daquela respiração que indica que você finalmente dormiu.
vou sentir uma saudade enorme de ver você entrar em casa, de acompanhar seu uber chegando. vou sentir saudade de fazer você rir, e talvez seja esse meu maior medo: o de perder seu sorriso de vista.
pensando bem, era apenas natural que um relacionamento que contém você terminasse como uma supernova, deixando pelo espaço um espetáculo de luz e energia e beleza. que morte linda a nossa, meu amor. que história mais sublime essa que escrevemos juntas, mesmo com tantos altos e baixos. quantas coisas e pessoas e dores e amores dividimos. como fomos felizes e como existimos.
e eu, que aprendi a me perder em você, agora precisarei me encontrar sem você.
tudo o que sei é que foram os melhores 2 anos da minha vida e pelos quais vou agradecer a você até que alguém feche meus olhos e, pela derradeira vez, me deixe ir.
obrigada por ter me permitido morar em você e por ter me amado tanto e tão profundamente. eu já vou, mas antes de ir queria te contar uma última história. você sabe como nasce uma estrela, meu amor?