clarissa:
as orbes claras seguiram encarando a figura a frente enquanto observava-o abrir o bilhete, até então, achando que tudo aquilo não passava de um belo teatro, afinal, se fosse mesmo nicholas quem tivesse escrito aquelas palavras, como pensava ser por todo o contexto da situação, duvidava um pouco que o outro se esquecesse tão facilmente do conteúdo que transferira para aquele pedacinho de papel, que parecia ter um tamanho inversamente proporcional a proporção do tormento que causou na cabeça da mais nova dos astley durante toda aquela tarde. de início, clary até chegou a soltar uma risadinha baixa, amarga e completamente descrente que era daquela forma com a qual o seymour lidaria com aquilo. porém, conforme se atentava ao prosseguir de suas sentenças, a expressão da clarissa abrandava-se aos poucos, notando que, talvez, aquela fosse mesmo a primeira vez que o melhor amigo tinha contato com o tal bilhete. a medida que escutava as palavras do mais velho e relembrava de algumas coisas importantes que havia deixado passar naquele cenário, como a pouca estranheza de seu pai ao avisá-la sobre as flores justo de nicholas ou a expressão risonha demais da sempre séria jemima enquanto assistia a caçula caminhar até o arranjo, clary sentia-se um pouco tola por não ter considerado antes que tudo aquilo não havia passado de uma piada entre as famílias que já eram antigas conhecidas. uma pegadinha na qual ela havia caído como um patinho. toda a raiva que sentia até então se esvaíra de forma tão rápida quanto a coragem que a astley reuniu em um ímpeto para marchar até o terreno da residência symour, e ela sentia-se completamente encabulada de repente. “é claro…” o resmungo fora expelido enquanto pegava o papel de volta, trazendo-o para perto do rosto para analisá-lo melhor na pouca luz que havia ali, apenas para averiguar a verdade do que ela já suspeitava. “parece a caligrafia da sua tia… eu deveria ter reconhecido antes.” se eu não tivesse ficado tão abalada, ela poderia complementar, mas achou melhor deixar esse detalhe de lado. “talvez tenha sido um dos grandes planos do meu pai para tentar me animar.” suspirou consigo mesma, amassando novamente o papel e se sentindo uma completa idiota. era o que ganhava por ser alguém que se deixava controlar completamente pelos seus impulsos. voltar a encarar nicholas era sinônimo de sentir o rosto arder em pura vergonha; o que ela pretendia indo até ali, de qualquer forma?! para alguém que se considerava inteligente, clarissa sentia-se cada vez mais embaraçada pelas próprias atitudes. “agora está constrangedor. nós somos apenas dois idiotas passando frio no meio da noite por motivo nenhum.” tentou brincar, como fazia antes de ter estragado completamente aquela dinâmica por conta das coisas que falara e fizera na noite do baile. sua vontade era apenas despedir-se e dar o fora dali o mais rápido que conseguisse, já que enfiar-se em um buraco não era realmente uma opção, mas clary sabia que o mais certo a se fazer era esta estabelecer o diálogo que não permitiu acontecer na última vez que se viram. mesmo que as circunstâncias não fossem as ideais, conhecia-se o suficiente para saber que, se desse as costas para ele agora, sabe-se lá quando conseguiria o encarar de novo. dessa forma, obrigou-se a engolir o que restava de seu orgulho para encarar aquele pequeno fantasma de frente, finalmente. “foi mal, nick.” murmurou, soltando um suspiro baixo. “por isso aqui também, mas pela noite do baile, principalmente. eu não devia ter feito aquilo. nada daquilo. não devia ter bebido tanto, não devia ter te arrancado da festa, falado o que eu falei, e nem… nem ter feito o que eu fiz antes de ir embora. não foi justo com você eu ter despejado anos de sentimentos mal resolvidos nas suas costas da forma que eu fiz. desculpe. isso não justifica nada, mas eu só… eu realmente achei que você já havia percebido, porque meio que todo mundo já percebeu.”
mantendo o olhar sobre a melhor amiga, nicholas analisava suas reações com certa cautela; ser posto em uma situação como aquela não era nem de perto o que nicholas desejaria não apenas naquelas condições, mas em situações comuns. não era bom - na verdade, considerá-lo isto era um belo de um enfeite em sua realidade - em manejar nada que envolvesse sentimentos, e nem sequer importava se estes seriam os alheios ou os seus próprios. sempre fora mais analítico, os conhecimentos matemáticos formando linhas de raciocínio em sua mente que o faziam acreditar que tudo poderia ser considerado e resolvido de uma maneira puramente racional, mas, já sabia de uma boa parcela de sua vida que não era exatamente assim que tudo funcionava. e, com um problema com a própria inteligência emocional como aquele, era somente esperado do seymour estar em alas conforme tentava prever um possível prosseguimento da interação. praticamente deixou escapar um suspiro de alívio e abrandou a própria expressão quando a mais nova pareceu compreender o seu ponto naquilo, a observando ligar os pontos do que realmente deveria ter gerado aquele bilhete. “e faz o mínimo de sentido a caroline ter insistido em saber se eu não iria visitar ninguém hoje.” a meia-irmã obviamente estivera envolta em toda aquela história, pois, considerando todas as insinuações que já fizera sobre ele e clary ao longo dos anos, faria todo o sentido ser uma participante ativa - nick só não planejava comentar maiores detalhes sobre as empolgações de caroline com a loira. “nem tenho dúvidas de que eles devem ter achado que era o plano mais engraçado do mundo.” ah, teria uma boa conversinha com as outras seymours em outra hora. “tentar...” cortou a própria indagação ao ligar os pontos do que era provável de ser a situação, já que não a vira em evento algum após a fatídica noite do baile - somente gesticulando no ar como quem dizia ‘deixe para lá’. “bom, ao menos não está mais com cara de que vai começar a chover. porque seria ainda mais constrangedor a dupla de idiotas passando frio, no meio da noite, e parada na chuva.” deu de ombros, suas orbes voltando-se brevemente para a janela de onde saíra da residência seymour, propriamente dita, para o jardim. em tempos normais, poderia somente convidá-la para entrarem por ela, mas, não estava mais tão desligado da realidade com as insinuações possíveis que antes. “qualquer coisa... podemos seguir pelo jardim e entrar pela porta dos fundos. ou até só irmos para a estufa de plantas, onde devemos ter mais privacidade dos olhos curiosos e, ao menos... não vamos ser mais idiotas no frio.” tentou sugerir, embora fosse entender se ela preferisse continuar onde a rota de fuga era de mais fácil acesso. ergueu uma sobrancelha e focou no rosto da astley ao escutar as palavras seguintes dela, atentando-se a tudo mesmo com a vergonha enorme que o abatia ali mesmo sobre a situação. “clary.” chamou por seu apelido e engoliu em seco, tentando encontrar as palavras para respondê-la. “se existe alguém entre os dois que está pendente de um pedido de desculpas, esse sou eu. tem a minha palavra de que eu realmente não fazia a menor ideia de nada disso, muito menos que qualquer outra pessoa já tinha se dado conta antes de mim.” murmurou, se recordando das palavras de archie sobre a questão - e de como este jurava ser óbvio como clarissa se sentia. “bom, eu só consigo te pedir desculpas por todas as brincadeirinhas ao longo dos anos, porque juro que nunca teria feito nada se fizesse a mínima ideia de tudo o que você guardava. é bastante merecido estar me sentindo um grandíssimo idiota. não é novidade alguma que eu realmente não sou bom com...” com a breve pausa em sua fala, nicholas levou uma das mãos até os fios de seu cabelo, esforçando-se para levar aquilo da melhor maneira. céus, como era difícil se expressar. “tudo isso; sentimentos. eu não posso nem cogitar tentar ver de outra forma, eu sei lá, acho que sei disso desde criança. nunca soube lidar ou entender muito bem eles, fossem dos outros ou os meus, e... realmente não conseguia ver o que você estava tentando me mostrar. nem quando você estava já nesse ponto de não aguentar mais.” suspirou. “a última coisa que eu queria era te fazer passar por tudo isso. meio que só piorei a situação toda, então, você é quem estaria com toda a razão em querer arrancar a minha cabeça.”
















