Worsening | Mulcidonald | October 14
Já havia escurecido e a ruela de pedra que ligava a Escola de Magia ao vilarejo bruxo de Hogsmeade estava recheada de grupos de alunos que voltavam para o castelo depois de um sábado inteiro de compras, risadas e cerveja amanteigada. Mary voltava para o castelo na companhia das amigas, as bochechas doloridas de tanto rir e o corpo cansado de um dia agitado (suspeitava que nunca tinha andado tanto por Hogsmeade em toda a sua vida). Usava o suéter folgado cor de creme que tanto gostava com o jeans preferido, botas cor de caramelo e um gorro púrpura nos ondulados cabelos castanhos e trazia em uma das mãos uma sacola de papelão repleta de doces e balas comemorativos de Halloween adquiridos na Honeydukes, uma excelente aquisição para o seu estoque pessoal de guloseimas, e também objetos que lembravam a data porque não era segredo para ninguém a sua obsessão com o dia 31 de outubro. Era bem verdade que havia deixado o salão comunal de gryffindor naquela manhã achando que faria melhores compras de Halloween no centro da Londres trouxa, afinal, era o mundo em que havia nascido que tinha as lendas urbanas com as quais havia crescido, desde serial killers até monstros feitos de remendos de corpos. No entanto, MacDonald teve uma agradável surpresa ao descobrir que o mundo bruxo tinha lendas tão incríveis quanto e se divertiu passando parte da tarde ouvindo vendedores lhe contarem a respeito de lendas do folclore bruxo, que na verdade muito se assemelhavam ao trouxa.
Despediu-se de suas colegas de casa poucos metros depois de cruzarem os portões de ferro nos limites da escola, porque elas queriam levar suas pesadas sacolas de compras com vestidos e sapatos comprados para o Baile para o salão comunal e Mary pretendia seguir direto para o jantar. Aparentemente a grande maioria dos estudantes escolheu fazer o mesmo, porque logo depois a escocesa era praticamente a única que seguia pela trilha de terra entre árvores centenárias que levava aos jardins de Hogwarts. Caminhando sozinha e tendo somente a luz da lua e de um ou outro antigo poste encantado com chamas que jamais apagariam, MacDonald pensou que estava no perfeito cenário de um filme de terror. Só não esperava que isso fosse literal quando avistou uma silhueta escura mais ao longe, parada no meio do caminho.
Mary não se assustou, também não falou absolutamente nada ou demonstrou qualquer reação, apenas seguiu a sua rota (que levava diretamente a figura do desconhecido) e certificou-se de que a mão livre segurava a varinha com firmeza e discrição. Sentiu-se ligeiramente apreensiva, é claro, porque em tempos como aqueles era preciso todo e qualquer esforço para manter-se segura, mas estava confiante de que aquilo não passava de alguém distraído e parado no meio do caminho, ou pelo menos de que não se tratava de algo sério. Ainda que fosse, tinha certeza de que teria condições de lidar com a situação. Todavia, quando estava próximo o suficiente para que a luz do poste mais próximo iluminasse os traços do desconhecido e ela reconheceu Nicolai Mulciber, seu coração parou por alguns instantes. Poderia treinar incansavelmente suas habilidades em duelos e combate mas talvez sempre reagisse daquela forma sempre que o encontrasse, como se seu corpo recordasse tudo o que havia passado e tivesse uma reação quase automática a presença dele.
Como anticorpos reagem a uma infecção.
“O que quer, Mulciber? Está aproveitando o Halloween para planejar um assassinato?” Havia escárnio em sua voz quando se dirigiu ao slytherin e um sorriso debochado enfeitava seu rosto. Aquela Mary parecia ser totalmente diferente daquela que ele havia encontrado em uma sala abandonada no último mês, a garota que quase tivera um colapso nervoso depois de ter se sentido pressionada e encurralada pelo rapaz de íris escuras. Esta Mary, no entanto, era confiante, tinha uma postura firme e, apesar de estar desconfiada com a presença dele, não aparentava ter medo e ainda trazia uma expressão ligeiramente debochada e superior nos traços delicados de seu rosto. “Precisa melhorar o seu jogo, escolher como vítima alguém que já assistiu todas as séries e filmes de ficção policial não é uma escolha muito sábia. Eu eventualmente conseguiria deixar alguma pista para incriminar você.” Era uma piada inspirada pela atmosfera de Halloween, é claro, isso estava mais do que evidente no riso baixo que seguiu o comentário, mas também não deixava de ser mentira. O que quer que Nicolai Mulciber pretendia, Mary MacDonald não era mais uma presa fácil.
Ele sempre havia se achado melhor que os outros ao seu redor ― mais inteligente, mais esperto, mais talentoso. Ele, nos auge de seus doze anos, olhava para todo mundo como se ele tivesse uma pequena coroa depositada em sua cabeça, o rei de um castelo esquecido nas brumas, a consciência das gerações passadas que viviam em seu sangue. Puro, especial. O sangue daqueles que possuem um propósito maior a ser atingido, um destino especial. Encarava os primos com o orgulho de saber que sua posição na árvore genealógica da família era a mais privilegiada possível e ostentava um sorriso cheio de desdém para todas aquelas pessoas na escola que tremiam diante do peso de seu sobrenome.
Ele sempre havia sido especial, não é? Escutava o tempo inteiro os elogios, falsos ou verdadeiros, sinceros ou apenas o resultado da vontade de agradar ― e ele sabia diferenciar todos eles, assim como sabia dizer quando estavam tentando tirar vantagem de si. Seu pai havia lhe ensinado bem, no final, lições em ferro e brasa que nunca sairiam de sua pele e que o tornariam, para sempre, essa criatura arisca e desconfiada, escondida por detrás de sorrisos educados e palavras vazias.
Ele também havia aprendido que ser especial não bastava. Não bastava ter o sangue puro e o sobrenome importante se você não passasse de um bruxo medíocre, não adiantava ter o dinheiro nas mãos se você não sabia o que fazer com ele, se você não sabia utilizá-lo para alcançar os seus objetivos. Essa era a lição mais frequente, feita através de palavras duras e exigências impossíveis, uma expressão fechada e nenhum elogio. Ser especial não é o bastante, seu pai dizia. Ele precisava ser forte para derrotar os obstáculos que cruzarem o seu caminho, inteligente para saber o que fazer mesmo nas piores situações, controlado para jamais se deixar exaltar. Ele deveria ser o mestre e dono de si mesmo. Precisava aguentar o peso das responsabilidades, precisava seguir as regras. Ele precisava fazer por merecer.
E ele tentava tanto! Todos os dias, todas as horas, todos os minutos, sem jamais descansar, sem jamais se permitir se divertir, sem jamais ceder a caprichos ou a desejos infantis. Dedicava-se a todas as tarefas, todas as aulas, aprendia exatamente o que dizer, quando dizer, como dizer. Ele fazia tudo o que queriam que ele fizesse, sem reclamar, sem hesitar, sem pensar. Aceitava tudo o que Zachary queria que ele fosse de bom grado e desistia de si mesmo, dia após dia, após dia. E, no entanto, nada parecia ser o suficiente. Doze anos e já tinha um mundo inteiro de frustrações dentro de si. Aos dezessete, tinha dois mundos – um de frustrações, outro de preocupações.
He would go to hell for it, but his biggest concern was not letting Mary MacDonald go to that stupid Halloween ball.
Já ouvira boatos de que tramavam algum evento especial para acompanhar aquele baile, o que teve certeza quando compareceu à Hogsmeade naquela tarde para se encontrar com Narcissa Malfoy, denominada informante do círculo interno de Tom Riddle, aquele que Nico tanto sonhava em pertencer e fazer parte. A mensagem iria ser passada de modo encoberto, só quem estivesse familiarizado com os planos da Revolução poderiam entender. Cada uma das famílias aliadas que possuíam um descendente dentro do castelo e contava com cada um deles, e Mulciber honraria seu sobrenome, só precisava, por algum motivo que escolhia ignorar, que Mary MacDonald estivesse sã e salva em seu dormitório.
O plano era abordá-la quando estivesse voltando do dia em Hogsmeade, provavelmente fazendo compras com suas amigas e não tramando ataques, como Nico fizera. A princípio, a ideia de esperá-la na trilha que dava no castelo parecia uma boa ideia, mas, quando estava sob a sombra de uma árvore e vendo a claridade do dia se esvair, nada lhe parecera mais stalker do que aquilo. De qualquer forma, já era tarde para desistir, porque via MacDonald vindo em sua direção, com passos decisivos e fortes. His walking nightmare.
Mordeu o próprio lábio inferior até sentir o gosto metálico do próprio sangue na boca – como aquela mudblood conseguia despertar o pior de si, provocá-lo de tal forma? Tudo que queria era salvá-la de uma enorme confusão, mas ali estava Nicolai Mulciber, mordendo incontáveis ofensas que havia pensado em retrucar e engolindo o próprio sangue, como se a pontada de dor em seu lábio fosse uma forma de punição. “Não, seria muito clichê um assassinato em pleno Halloween, MacDonald.” Retrucou, contente consigo mesmo por conseguir exibir uma ponta de humor na frase e nem um pingo de ofensas. “Quantas vezes vou precisar falar que não tenho intenção alguma de te machucar?” O tom de voz um tom acima do que geralmente usava era indicativo do pouco de autocontrole que havia escada por entre seus dedos. “Consegue me ouvir cinco minutos sem ficar me provocando e me alfinetando? Eu estou tentando, não sei se por acaso você notou.” Deu um passo à frente, esperando que ela não recuasse, enquanto recobrava o controle. Não podia ser afetado daquela maneira.











