Seu comportamento nos últimos meses havia sido tão exemplar que até os amigos estranharam a mudança, mas não se importava, as piadas na verdade só o fizeram perceber como tinha sido estúpido com a namorada. Tinha prometido que não seriam como os pais, certo? Isso queria dizer não se comportar exatamente como Kaius, não queria uma relação como a que viu em casa: as traições sendo aceitas pela mãe como se fossem normais, o fazendo acreditar que realmente o eram. Não, tinha tudo o que precisava em Nicole, principalmente agora que ela esperava um filho seu, aquela perspectiva tinha mudado muita coisa. O estresse diário no escritório? Não parecia mais tão importante; por que deveria lutar tanto para seguir os passos de Kaius quando sabia que seria bem melhor que ele? Sua prioridade agora era Nicole, completamente. Tinha a acompanhado em consultas, tinham começado a procurar roupas par ao bebê (mesmo que ainda fosse muito cedo, não conseguiram se conter), e tinha até aceitado que ela continuasse com as líderes de torcida já que podia notar sua hesitação em abandonar a normalidade da rotina. Estava a mimando, bastante, e tinha ficado ainda mais super protetor, mas parecia que tinham voltado ao início do namoro: longe de problemas por causa da família deles, longe de conflitos por causa de ciúme; tinham feito exatamente o que Nick queria e colocaram o bebê em primeiro lugar, ambos se esforçando para fazer do relacionamento o mais saudável possível em contraste do desgaste anterior. E, céus, ele estava feliz assim.
Mas, infelizmente, como a porcaria de uma maldição, Nicole tinha adoecido depois de um jogo regado por uma chuva forte. Tinha estado irritado aquele dia, a ponto de deixar o escritório do pai e irritado com a derrota no campo; as suspeitas sobre afetar o clima eram quase uma surpresa agora então se culpou quando a namorada precisou ser internada naquele hospital. Ficava ao lado de Nicole sempre que podia, até que precisou contar ao pai o que estava acontecendo - antes de realmente quase pedir sua demissão para não sair de perto da namorada. Mas, ei, tinha que continuar trabalhando para cuidar deles dois, certo? Então, quando contou ao pai, ele milagrosamente entendeu e parou de cobrar tanto sua presença no trabalho. Assim, passava cada vez mais tempo ao lado da loira, oferecendo apoio, carinho, mascarando toda sua preocupação com sorrisos suaves enquanto falava sobre amenidades para animá-la. A sensação de urgência crescia, entretanto, porque ela não estava melhorando e o médico havia lhe falado que deveria se preparar para o pior: a pneumonia estava exigindo muito de seu corpo e talvez não conseguissem manter a gravides. Tinham escolhido deixar aquela informação longe de Nicole, ela já parecia fragilizada demais e com certeza aquela possibilidade a faria ficar ainda pior. Mas, mesmo com o aviso do médico, não tinha se preparado para ouvir que tinham perdido o bebê. Teve esperanças que ela se recuperasse completamente e tinha deixado de lado o pior cenário, sinceramente esperava não ter que passar por aquilo. Em outro momento de sua vida ele mesmo teria sugerido um aborto para Nicole, porque os dois ainda eram novos demais para toda aquela responsabilidade, mas agora?
Estava sentado nos bancos ao lado do quarto da loira, a cabeça apoiada nas mãos enquanto chorava. A sensação tão estranha para ele - que nem lembrava a última vez que tinha derramado uma lágrima - havia sido completamente inevitável. Nicole tinha perdido o bebê. Tinham planejado construir a família deles longe de qualquer influência dos pais, de qualquer negatividade, em um lugar cheio de amor e cuidado. Ele mesmo tinha demorado um tempo a se acostumar com a ideia, porque achava que não seria um bom pai, mas aquilo tinha passado, com ajuda da loira, tinha começado a ter um pensamento mais otimista em relação aquilo. Seria um bom pai, cuidaria dos dois e daria bons exemplos. Não mais. Teve vontade de gritar, de destruir o que quer que estivesse a seu alcance, mas não podia, não podia fazer nada. Nunca se sentiu tão impotente quanto naquele momento. Não ficou surpreso quando os trovões começaram a fazer as janelas tremer, na verdade, aquilo fazia o sentir minimamente melhor, como se o céu estivesse absorvendo um pouco do pesar em seu peito. Um pouco, porque ainda sentia como se… céus, tinha perdido seu filho… Sabia que tinham avisado a Nicole que ele estava no hospital, mas ainda não conseguia entrar, não quando tinha que se recompor para lhe entregar a notícia que sabia que iria a destruir por dentro, sabia porque ele mesmo estava aos pedaços. E ele só tinha começado a adorar a ideia de ser pai recentemente, Nicole queria ser mãe desde pequena. Haviam lhe oferecido um calmante no começo da tarde, mas ele recusou, queria sentir tudo aquilo porque se sentia responsável. Se não tivesse ficado tão irritado naquele dia, ela não teria pego essa porcaria de pneumonia e estaria bem. Ele tinha acabado com a família antes que ela pudesse começar. Maddison tinha razão, ele seria a ruína de Nicole se continuasse lá. Merda, queria morrer. Como ele pode fazer isso com ela? Olhou a tempestade pela janela, a amaldiçoando por estar fora de controle, ainda assim sentindo como se aquilo tudo fosse parte dele. O que quer dizer que ele estava fora de controle ele era o problema.
Só conseguiu se recompor no fim da tarde, e falou ao médico de serviço que precisariam de um psicólogo o quanto antes. Não importava o que fosse falar para Nicole ali, ela com certeza precisaria de mais ajuda que ele poderia oferecer e queria evitar qualquer acidente. Já tinha perdido o filho, se a perdesse também… O médico também informou que finalmente haviam conseguido falar com os pais dela, mas não se interessou por aquela parte, não se importava com o que os dois fariam, se arrumassem um avião e fossem até lá seria o mínimo. Se quisessem falar com ela apenas pelo telefone… Não queria pensar sobre isso, tentaria falar com eles depois, que o culpassem, tudo bem, poderia lidar com eles. Só não queria que Nick tivesse que lidar com aquilo também. Respirou fundo antes de entrar no quarto e quase voltou a chorar mais uma vez. Ele provavelmente estava péssimo, sabia que tinha desarrumado todo o cabelo, que seus olhos o denunciariam, que ela saberia que algo estava errado, mas como poderia esconder o que estava sentindo? Controlar o choro já era o máximo que poderia fazer ali. Sentou ao lado da namorada, de frente para ela, antes de fazer carinho em sua mão tentando encontrar as palavras que deveria usar ali. Não conseguia, tinha um nó na garganta que o impedia de pronunciar sequer uma palavra. “Nicole…” Engoliu em seco, então levou a mão até seu rosto, mais um pouco de carinho antes de desistir, a puxando para um abraço forte. Eles estavam na porra do inferno. “Precisa ser forte, tudo bem? Pode fazer isso?” Até parece, nem ele estava conseguindo ser forte ali. Tinha afundado o rosto em seu cabelo e estava lutando contra as lágrimas, a voz ficando rouca enquanto sentia o próprio corpo tremer a cada novo trovão. “Nós… perdemos ele, Nick” A abraçou com um pouco mais de força agora, porque não queria que ela se distanciasse, não queria ver a expressão em seu rosto. Merda, tinha que ser forte por eles, certo? Mas só sentia como se estivesse morrendo ali também. Precisava cuidar dela, sabia disso, sabia que ela ficaria ainda pior do que ele, mas… caralho, não estava pronto para aquilo. “Me desculpe, Nick, desculpe não ter cuidado de vocês dois-” Ah, não tinha que calar a boca ou começaria a chorar outra vez, não imaginava o que poderia ser pior que aquilo. Não, espera, imaginava sim, Nicole era destrutiva e se a perdesse também…. Onde estava a porcaria da psicóloga?
Zion tinha uma presença única, o seu caminhar exalava poder e auto controle. Diferente dos garotos da sua idade, o loiro parecia ter uma maturidade de milênios, nada o tirava do foco, nem ao mesmo o fazia hesitar, era obviamente um exímio líder, as vitórias nos campeonatos deixava isso claro mas além disso, ele era forte, como mármore, nada nunca pareceu o atingir e ela poderia contar nos dedos de uma mão só as vezes que o viu chorar. Por isso, tentou disfarçar, pensar em outra coisa, era normal que o namorado estivesse fragilizado com a sua situação, ela mesmo estaria pirando se tivesse que ir todos os dias visitá-lo em uma ala hospitalar. O seu toque foi o bastante para que notasse que havia algo muito errado, por alguns segundos sentiu que podia sentir todo o desespero e tristeza que ele emanava. E isso era ruim, muito ruim. Zion ficava com raiva e não triste, céus, do lado de fora uma leve chuva começou a açoitar a janela e foi ali, que a loira sentiu que precisaria correr se quisesse que seu coração sobrevivesse a qualquer que fosse a notícia que Zion lhe passaria. Quando foi puxada por ele, o abraço a fez sentir um pouco menos pior, afinal, aquele era o efeito que o loiro tinha sobre ela, certo? Um leve analgésico.
Ao colocar as duas mãos nas costas masculinas, se aconchegou em seus braços, deixando sua cabeça descansar em seu ombro. Deus, como queria sair dali. Ir para casa e poder dormir na sua cama, de preferência, com o corpo de Zion servindo como cobertor. Se fechasse os olhos por tempo suficiente, veria a si mesma, completando os nove meses de gravidez, o namorado tinha finalmente se tornado seu marido, e apesar de suas bochechas e seios terem dobrado de tamanho, se sentia a mulher mais linda do mundo. ‘‘Do que está falando?’’ Franziu o cenho, claro que podia ser forte, ela era forte e conseguia ser ainda mais, já que tinha se tornado mãe. Ah não, ele não diria isso se algo muito ruim não tivesse acontecido. Talvez algo com sua mãe? Ou pai? Ou talvez ele só estivesse se sentindo fraco por isso ela precisaria ser forte? Ela o apertou gentilmente contra si, queria senti-lo ainda mais perto. Contudo, a sensação passou e foi substituído por uma dormência repentina. Do que diabos Zion estava falando? Não tinham o perdido! Não poderia ser? Tudo estava indo tão bem nos últimos meses, era verdade que estava debilitada mas nada que não pudesse ser consertado? Não tinha perdido seu filho, não poderia, ela precisava dele, precisava o sentir crescer dentro de si e o segurar em seus braços. Mas Zion estava feliz com a gravidez, não? Porque ele mentiria sobre isso? Céus, ela precisava sair dali. Tentou o empurrar para longe mas tinha perdido as forças no mesmo momento que as lágrimas começaram a cair por seu rosto.
Porque diabos era sempre punida? Desde criança, sua vida tinha sido um completo inferno, sua mãe era uma vadia traidora e sem noção, enquanto seu pai era tão fraco emocionalmente que preferia a deixar para trás do que lidar com os traumas que ele mesmo tinha cometido. Mas apesar de tudo tinha levado aquelas experiências da melhor maneira possível, não? Acreditava que seria uma pessoa melhor, não chegando perto dos erros que seus pais tinham cometido e começaria com a sua pequena família, seria uma esposa fiel, companheira e paciente. Uma mãe presente, que estaria ao lado do garotinho desde seus primeiros passos. Porque estava sendo punida?! Porque não a deixavam ter mais de três meses de paz? O que tinha feito de tão grave para ser surrada todos os malditos dias pelo destino? Céus, estava soluçando de tanto chorar. Tinha perdido o filho, a criança que não tinha sido planejada mas que tinha arrumado cada cantinho de sua vida e feito com que ela e Zion melhorassem infinitamente como um casal. Levou a mão direita até o ventre, não sentia nada.
Precisou respirar diversas vezes antes de finalmente conseguir dizer algo. ‘‘Quero ir pra casa.’’ Murmurou, a voz saindo chorosa e dolorida. O nó em sua garganta não a deixava falar propriamente, na verdade, só queria ir para casa porque desejava pegar suas coisas e dormir por um longo período de tempo. Quem sabe, se acordasse dali a alguns milênios a dor já tinha ido embora? Poderia tentar com os remédios e depois, bom, provavelmente a melhor solução seria a morte. A dor não iria embora, quem ela estava tentando enganar? ‘‘Quero ir para casa agora.’’ Reforçou.