tw: descrição de ataque de ansiedade e trauma flashbacks, gore
havia algo estranho.
talvez fosse impressão sua, seu cérebro insistindo para que ficasse ansioso. um novo imortal era algo positivo, mesmo que ele os tivesse encontrado daquela forma. sabia que podiam julgá-lo por aceitar seojun tão rapidamente, parte de si até mesmo queria que alguém o confrontasse quanto a isso. todas aquelas caras desconfiadas, como podiam ter esquecido o quão terrível era estar sozinho nessa vida? eles eram as únicas pessoas que podiam sentir uma real empatia pelo que o garoto estava passando. mesmo que tivesse chegado com uma postura arrogante, nik via apenas uma criança. uma criança perigosa de uma forma diferente da deles, mas ainda assim uma criança. vai ficar tudo bem, pensou.
talvez fosse a dor latente que sempre vinha com a presença de callie. ele estava queimando, incapaz de manter seus olhos longe dela por mais de alguns poucos minutos. não importava o quão bem entendesse o que escondia malvadas que tinha ouvido mais cedo, machucava. ainda não tinha esquecido seu último encontro, a voz dela dizendo que ele era egoísta estava vívida em sua memória. se tivesse como liberar toda a mágoa e o peso da dúvida que aquela simples palavra havia colocado em seu coração, talvez acabasse explodindo. mas não, aquele não era o momento. tout va bien aller, continuou afirmando.
não, não era nada disso. assim que neels tentou chamar atenção do garçom, nikandros soube o que estava incomodando-o. como não tinha percebido antes? aqueles olhos não lhe eram estranhos, mas os lábios ostentavam um sorriso banhado em segredos.
an eye for an eye, verculum.
nik sentiu a explosão antes de qualquer coisa. sentiu no ódio naquelas palavras, no grito de calipátira, no descompasso de seu coração. sentiu na surpresa estampada nos rostos da sua família, nos pedaços de vidro que cravaram em sua pele, nas lágrimas que já ameaçavam cair.
então nik viu.
e preferia não ter visto.
os corpos voando, uns mais longe que os outros, abertos e dilacerados. sangue, pedaços de roupa se misturando com pele e tripas. órgãos expostos, partes pendentes. não era incomum, em seus anos de guerra havia cuidado de ferimentos até piores. esse era o problema. a visão não era chocante pelo que revirava o estômago das pessoas normais. era horrífico porque ele tinha se separado da mulher da sua vida para não ter mais que presenciar cenas como aquela.
nik afastou as lágrimas. se aproximou de amelia, que estava mais próxima, seus dedos tremiam ao tirar o cabelo de seu rosto tão lindo e tão imóvel. ele rastejou entre os corpos, tocando cada um no espaço entre os olhos e fazendo uma prece. mesmo após milênios, falar com os deuses (todos eles, fossem helênicos, egípcios, católico) e entregar sua família em suas mãos divinas ainda confortava seu coração. não que naquele momento fosse suficiente para diminuir o som do sangue em seus ouvidos —thump, thump, thump— ou diminuir a maratona que seu peito travava subindo e descendo debaixo da camiseta.
quando chegou ao lado do corpo de callie, ele não conseguiu vê-lo trabalhando lentamente para de reconstruir. no mesmo momento, sua visão tornou-se ainda mais apertada e escura e então parecia caleidoscópica, como quando você aperta os olhos para “ver estrelas”. ela vai morrer morrer, uma voz na sua cabeça gritou, todos vão morrer.
ele podia sentir o gosto da fumaça na garganta e o calor nos olhos mesmo que não houvesse nenhum incêndio. não, agora não, implorou. você não está lá, nikandros. ele se afastou, se arrastando para longe sem ver para onde ia até encostar as costas contra parede. agora não apenas as mãos tremiam, mas seu corpo todo. encolheu as pernas, os braços em posição fetal.
podia sentir suas mãos queimando, ágeis tirando os escombros de cima do corpo de calipátira. o fogo estava por toda sua volta e estendia-se por quilômetros. crises de tosse e lágrimas caiam numa tentativa patética de conseguir fazê-lo enxergar melhor. ele gemeu baixinho quando finalmente viu callie desfigurada, assim não. nik sequer tentava se proteger, se morresse por inalação de fumaça, ao menos esperaria por callie também inconsciente. mas isso não aconteceu. ele não morreu. ficou o tempo inteiro ali, assando, suando, rezando que os deuses o levasse antes que enlouquecesse.
isso não é real, tentou se convencer num segundo de racionalidade. nik começou a bater na própria cabeça. uma sensação diferente daquele dia podia ajudar seu corpo a lembrar que não estava em stalingrado. ❝ make it stop, please ❞
nikandros queria fazer aquilo sozinho. por tal motivo, usou cada uma de suas habilidades furtivas para sair da casa sem que o notassem. no meio do caminho, porém, sentiu uma sombra. droga, resmungou e continuou esgueirando-se pelas ruas escuras. andou por cerca de uma hora antes de parar. esperou que sua sombra se aproximasse e o puxou para seu esconderijo. ❝ você não deveria ter me seguido ❞ repreendeu. o soltou abruptamente e olhou para o muro alto atrás de si. ❝ shhh, vamos ❞ escalou a parede com facilidade e esperou o mais jovem do outro lado. ❝ fique alerta, não chame atenção ❞ instruiu. eles entraram na mansão sem dificuldade, tinham anos e mais anos de experiência naquilo. além do mais, ele já tinha se assegurado que o sistema de segurança falhasse aquela noite. nik o conduziu pelos cômodos como se soubesse exatamente onde estava indo. chegaram num escritório amplo, bem decorado. uma bela mesa de mogno, cadeiras de couro que pareciam novas, pinturas originais e uma parede inteira de livros. nik ignorou tudo isso e foi até uma estátua. ❝ your old fox ❞ riu sozinho, reconhecendo o rosto ali esculpido. então foi o quadro atrás da mesa. era um goya inconfundível e o imortal tirou ele da parede, entregando-o para edmund. a parede parecia normal, mas ele achou um pequeno gatilho, e então apareceu quem ele queria. no mesmo momento, seu sorriso se alargou e ele era uma criança com seu brinquedo novo! uma passagem para a coleção mais pessoal da família que nik estava espionando há semanas. havia prateleiras cheias de joias, pelo menos um faberge egg, e várias outras riquezas. ❝ edmund, look! ❞ sua voz tinha uma mistura de excitação e admiração pela beleza do cofre. nik soltou uma risadinha com a reclamação ❝ eu disse que você não deveria ter me seguido, se quiser pode pegar o que mais lhe brilhar os olhos ❞ ainda que houvesse dezenas de itens que pudesse interessá-lo, única coisa que nikandros pegou foi uma joia, mas não qualquer joia. the hope diamond. ❝ senti sua falta, vamos para casa ❞ falou para a peça e também para edmund. não era a primeira vez que daria o diamante para callie, mas como dizem: third time's a charm.
nikandros adorava qualquer época onde pudesse se vestir bem e aproveitar festas, portanto não pensou duas vezes antes de aproximar de louis xiv. ele adorava versailles! os salões, as festas, as pessoas, tudo o deixava feliz de participar daquela época. claro que callie não entendia, tampouco se prestava a tal “futilidade”, preferiu passar a maior parte do reinado do rei sol em outros lugares. contudo, houveram algumas vezes que ela o visitou, o encontrando bebendo e dançando. assim que encontoru o olhar da mulher, foi como se não houvesse mais ninguém. deixou todos para trás e a levou para seus aposentos. ❝ você não me escreveu nenhuma vez, mon cœur ❞ reclamou com um biquinho, mas recebeu apenas olhos revirados e uma resposta seca. ❝ está falando de felipe? mon dieu, callie! somos apenas amigos! ❞ sempre começa assim, ouviu ela falando. não que ela estivesse errada, mas nik se limitou apenas a balançar a cabeça e se aproximar. ❝ não seja ciumenta ❞ a puxou pela cintura, colocou a mão dela em seus ombros e iniciou uma movimentação lenta, alheia ao ritmo da música que dava para ouvir mesmo daqui. algum tempo depois, sussurrou ❝ je serai toujours à toi ❞
“Pare de trazer memórias que não significam mais nada.” ele usaria deboche? Ela usaria a dor. Era típico dela. Quando estava com medo fazia de tudo para afastar e machucar, tudo e todos ao seu redor. Era óbvio que aquelas palavras eram vazias. Mas dele lhe traziam tantas verdades em forma de acusação que seu modo automático era entrar na defensiva “Eu sou o quê?” Ela franziu o meio da testa, não entendendo o que ele queria dizer.
Riu fraco, em seguida. Apenas o observou enquanto ele falava. O sarcasmo correndo por cada palavra que saía de sua boca e lhe atingindo, exatamente como ele provavelmente queria. Cada alfinetada machucava. Deu mais um longo gole da taça de vinho e assentiu pra ele com um sorriso - o mais gente que conseguiu. Se aproximou dele, mais um pouco, para falar perto de si. Não queria parecer que estavam discutindo e chamar ainda mais a atenção dos outros. “Terminou seu show? Seu drama?” Perguntou arqueando uma das sobrancelhas, enquanto soltava os dedos do terno alheio. O sorriso largo, falso. “Você quer falar mais alguma coisa? Só pra saber quando eu posso ir embora, já que agora eu preciso de permissão. Se não for com permissão, significa que estou fugindo” ela arqueou uma das sobrancelhas “Cansei, Nikandros. Vai arrumar outra pessoa para importunar, por favor. Me solum relinquatis:” ela apenas suspirou. A cabeça rodava com aquele encontro e ele apenas a deixava mais tensa. Queria abraçá-lo e ter seu porto seguro, mas não parecia que aquele momento seria como seus últimos encontros.
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era tão, tão irritante o efeito que callie tinha sobre ele que sequer conseguia rir da falta de conhecimentos da cultura pop dela. nikandros sabia que aquela era um de seus mecanismos de defesa e que as palavras que ouvia eram nada além de pura maldade. não era mentira porque ele queria que fosse, era mentira porque sentia na forma que ela lhe tocava, prolongando a pegada no terno sem necessidade. ele não reclamaria, mesmo magoado, estar tão perto dela era melhor que nada. tanto que, quando ela se afastou, ele precisou de alguns segundos para superar a nova distância e realinhar seu terno. observou o sorriso alheio quase que com desprezo, odiava expressões falsas naquele rosto perfeito. ❝ você pode fazer o que quiser, calipátira. você sempre faz como nos filmes de ação, sequer olha para destruição que deixa pra trás ❞ falou amargo, dessa vez realmente se afastando dela. virou o resto do conteúdo na taça de uma vez, deixando-a na mesa. não obstante, tentou não focar nas pessoas presentes, evitando encontrar qualquer feição curiosa, triste ou preocupada. não podia lidar com nenhum deles naquele momento. e, por isso, saiu da sala.
O toque em seu braço a fez estremecer. Era inevitável. Faziam dois anos desde que sentira a pele dele contra a sua e aquilo era agoniante. Claro que haviam passado mais do que aquilo distantes, mas a dor apenas aumentava o tempo. Cada dia longe dele parecia um novo milênio. Fechou os olhos por um segundo, ouvindo a voz dele perto de seu ouvido, a respiração quente lhe trazendo um arrepio que escorregava a espinha. Estava prestes a virar de maneira bruta, quando ele a soltou. Ele a conhecia bem demais. Segurou o ar no pulmão - este que parecia queimar. Sabia que aquela pose era tão forçada quanto o sorriso, os olhos dele o denunciavam, assim como a linguagem corporal. Nikandros a conhecia, sim, mas era recíproco. Callie o conhecia como a palmão da própria mão. Ele estava se afastando quando ela fez questão de puxá-lo, sem delicadeza, pela borda do paletó. Se rasgasse, bônus, mas não aconteceu. Os olhos azuis se prenderam nos escuros, observando-o atentamente. “Você é muito imaturo. E eu não estava fugindo. Eu não fujo de nada” falou sem mover um músculo do rosto se quer. Não soltou o tecido. “E eu não sei o que você e eu estamos fazendo aqui. Mas eu juro, que se for alguma merda de invenção sua, eu me mudo pra China pelo próximo milênio” ameaças concretas, possíveis. Não que de fato fosse cumprir. Mas o rosto duro dizia o contrário. “E se você souber de algo é bom ir falando logo. Eu não tenho tempo para os seus joguinhos.” ah, tempo era o que mais tinha na vida. “Alguns de nós temos trabalhos sérios”
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a reação de callie transformou seu sorriso falso em uma gargalhada muito real. ele podia sentir os olhos da família queimando nas suas costas, mas isso apenas fez com que ele mantivesse o riso nos lábios. ❝ e a vez que eu acordei sozinho depois que a gente transou pela primeira vez? aquilo definitivamente foi fugir, callie, mas eu entendo que você estava com medo de se apaixonar por mim. foi tão humano, até preocupante já que você acha que é o próprio t-800 ❞ duvidou que ela entendesse a referência, mas para ele fazia completo sentido, uma vez que callie se dizia uma máquina mortífera que não pode viver sem uma guerra. algo que ele não gostava nem aceitava como verdade, sabia que havia muito mais emoção e espaço na vida dela para outras coisas... para ele.
❝ se você realmente se mudar, pode me trazer um celular novo? amo iphones, mas é bom ver o que tá acontecendo no mercado ❞ ignorou a feição séria, pois a única forma de lidar com aquilo sem que se transformasse em algo que não pudesse controlar era por meio de sarcasmo. fingiu estar ofendido com a suposição de que ele soubesse algo e ainda mais quando ela se referiu ao trabalho ❝ ah, não estou preocupado com o tempo. eu confio no treinamento que deu ao meu time, sei que cada funcionário vai dar seu melhor para que a festa temática de hoje seja incrível para todos os convidados. é isso que um líder faz, sabe, delega e confia. você pode ir embora fazer seu trabalho importante se quiser, ninguém está te impedindo de gritar comigo sem motivo e sair correndo. ❞
giuseppe se atrasaria para o dia da beleza e ele sabia o motivo, mas a pedidos, guardou segredo. sabia que khali ficaria entristecido, então fez tudo ao seu alcance para distraí-lo da ausência alheia. ❝ escolha a cor mais escandalosa que vier em mente, vou encontrar uma pessoa hoje e quero chegar declarando dominância ❞
“its not the same if we dont all enjoy it/suffer together”
❝ delph- ❞ começou a reclamar, mas ela o interrompeu. ❝ -delphine! ❞ seu rosto tava retorcido em desgosto, mas ele não andaria para trás aquela altura do jogo. se tinha algo que levava a sério eram apostas, então pegou o copo de smoothie. ❝ this is truly devious ❞ virou todo o conteúdo para dentro sem deixar de olhar nos olhos da mulher ❝ wait for your turn ❞ foi a única coisa que disse em tom de ameaça.
Send: 📂 for a random, yet completely useless headcannon I have.
que nikandros é meio dramático todos sabemos, mas ele curte acender velas pela casa e tocar (sad horny) piano que aprendeu com chopin e elton john. inclusive, já escreveu algumas músicas, mas ninguém sabe.
Entrou na sala, completamente tensa. Tentava disfarçar, ela precisava fazer aquilo, afinal. Mas tantos rostos conhecidos lhe assustavam. Por que ela não sabia o que estava acontecendo? Comprimiu os lábios. Logo estava conversando com Neelam, uma conversa estranha demais. Passou alguns segundos sozinha, em seguida, pensativa. Até que a voz de Nikandros soou, bem perto de si. Um arrepio tomou seu corpo. Faziam dois anos que não se viam pessoalmente e havia sido desastroso. Você é egoista. As palavras soavam em sua mente. Ela engoliu em seco e se virou pra ele, tentando se mostrar o mais confiante possível. Odiava a forma como ele lhe afetava tão completamente apenas com o olhar. Mas o deboche em sua fala a fez rir, sem humor. Todas as suas defesas emocionais levantaram, no automático. Não queria se machucar mais. A dor diária já era presente, não queria mais. “Você não faria uma idiotice dessas.” Respondeu sem humor novamente, apesar do sorriso cínico nos lábios. Apertava seu coração. Como queria estar com ele. Apenas ignorar tudo e abraçá-lo. “Não estou apontando dedo para ninguém, Nikandros. Eu penso antes de agir” arqueou uma das sobrancelhas com a alfinetada. Se virou de costas, alcançando uma taça sobre a mesa e servindo vinho, antes de levar a bebida a boca. Ele a veria bebendo e saberia do nervosismo. Claro, mas não importava, não aguentaria a situação sem aquilo. “A conversa foi ótima, agora preciso tentar descobrir o que está acontecendo. E como você já deixou claro, não me é útil pra isso, certo?” dor. Odiava aquela situação e o modo que se falavam.
num primeiro momento, nikandros não se importava com a dureza das palavras desde que callie estivesse falando com ele. contudo, doía. não por ser chamado de idiota, não pela insinuação que ele era inconsequente, todas essas coisas ele sabia de cor e salteado. eram os olhos dela. aqueles olhos tão singulares e enigmáticos para quem não os sabia decifrar enquanto nik os compreendia como a si mesmo, pois sabia seus segredos e aprendera suas linguagens. logo, o que doía, o que realmente doía, era ver sua dor refletida ali. a mesma chama queimando e rasgando cada coisa boa que tinham guardadas em seus corações. ele queria pega-la e sumir por no mínimo o próximo milênio. mesmo que ficasse longe do restante da família, era a única forma de compensar por cada segundo longe da mulher que adorava. porém, não o faria até que ela admitisse que estava sendo tão egoísta quanto o acusava de ser e se ele a conhecia bem, ainda demoraria um bom tempo. a observava atento, quase sorriu ao ver que não era o único nervoso com o reencontro inesperado. quando ela tentou se afastar, ele a segurou pelo braço. ❝ já está fugindo, callie? ❞ sussurrou perto de seu ouvido. tão colados que ele podia sentir o perfume dela. exatamente como ele se lembrava. se considerava a imortalidade um presente, era por coisas como aquela. mesmo depois de milênios e fragrâncias diferentes, ele poderia perder a visão que encontraria callie numa multidão apenas pelo seu cheiro. soltou o braço dela antes que ela desse um soco para se libertar ❝ depois eu que sou imaturo ❞ começou a se afastar com postura arrogante e um sorriso que não chegava aos olhos. não, ela tem razão, você é um idiota, pensou.
O italiano suspirou com a confissão do mais velho que também estava perdido. Começava a perder a esperança de que iria ser esclarecido, afinal se nem Nik nem Callie sabiam o que se passava ali, quem poderia saber? Ouvindo falar do vinho, olhou para o copo e deu levemente de ombros. “Não é o pior, mas sim, poderia ser bem melhor.” Pelo menos dava para distrair, e tentar afastar um pouco um nervosismo enquanto bebia e se focava no álcool. Também já tinha pensado nas cadeiras, mas não tinha qualquer teoria. “Será que alguém arranjou um namorado e quer nos apresentar?” Perguntou de forma mais humorada, talvez de forma a animar um pouco mais Nik.
a sugestão provocou risos em nik, que balançou a cabeça em negativa ❝ honestamente, espero que não ❞ desejava que todos fossem felizes em sua vida amorosa e por esse motivo rezava para que ninguém se apaixonasse por um mortal. não que estar com um imortal fosse menos difícil, os deuses sabiam que callie fazia a situação ser quase impossível. mas era sempre complicado demais, doloroso demais. ❝ talvez seja para um advogado, ela já tem metade das crianças, agora vai pegar minha fortuna ❞ em nenhuma hipótese nik falava mal de callie. na verdade, era sempre o primeiro a defendê-la, mesmo se concordasse com uma possível reclamação. porém, havia sim uma nota de amargura nas palavras. na última vez que se encontraram ela o tinha chamado de egoísta, isso machucava e era tema em suas sessões de terapia. ❝ ok, admito! a netflix colocou uma nova temporada de housewives e eu me empolguei um pouco ❞
A onda de irritação havia passado e ficava apenas o desconforto. Khali chegou a um entendimento consigo — e com isso queria dizer que após o soco na parede do banheiro, as coisas começaram a se ajustar — então parecia ter a postura mais relaxada agora. Os imortais espalhados na sala privada agora desfrutavam de um ambiente neutro após o término do jantar, ninguém tinha sido, não houve brigas, ninguém morreu, era um avanço magnífico. O garoto novo lhe surpreendeu, lhe intrigou, mas, acima de tudo, lhe deixou com uma desconfiança gigantesca em relação aos eletrônicos que mantinha no loft. Não se sentia em segurança sabendo que o rapaz conseguiu encontrar todos e ainda mandar as tais mensagens. Para aplacar aquele sentimento, nada melhor do que os abraços seguros de Nikandros.
Foi por isso que rumou até o mais velho, ignorando o fato dele já estar conversando com alguém, apenas abraçou-o por trás, escondendo o rosto no meio das costas do homem. ’ —— Vá embora, eu não quero dividir.’ reclamou de maneira emburrada para o imortal que conversava com Nik, deleitando-se quando espiou e viu a pessoa se afastar. Khali se mexeu para se enfiar melhor no abraço, agora realmente contra o peito do mais velho. Adorava aquilo, não importava que já houvesse passado mais de um milênio e meio, os abraços do líder realmente serviam para tirar de si toda a insegurança, todo sentimento contrário. Suspirou, sentia-se ainda menor quando o abraçava; mas a sensação era boa. ’ —— Não gosto dessa situação, essa situação me deixou com uma inquietação enorme.’ resmungou contra o peito de Nik, recusava-se a sair dali tão cedo.
mentiria se dissesse que não estava alarmado com o fato de terem sido achados, mas sua reação era longe da aflição pela qual alguns passavam. o que eles esperavam? não importa o quão bem se escondam, sempre haverá um registro de sua passagem pelo tempo. seja uma pintura, uma música, um mito criado em sua homenagem, ou apenas uma simples foto. não havia como evitar câmeras ou filmagens na década que estavam, era até impressionante que ninguém mais tivesse percebido. mas sim, estava impressionado (e um tantinho desconfiado) com a coragem de seojun com todo aquele esquema de atraí-los.estava inclusive conversando com o rapaz quando sentiu alguém colocar os braços ao redor da sua cintura. mesmo antes que ouvir sua voz, nik soube quem era. olhou para seojun com uma expressão de desculpas, mas não pediu que ficasse.
segurou khali com firmeza, mas sem lhe apertar muito. ❝ aposto que sim, seu coração acelerado ❞ e realmente dava para sentí-lo, por isso suas palavras e respiração se mantinham tranquilas. era sempre assim. mesmo que o mundo tivesse desabando ao seu redor, mesmo que houvesse explosivos e gritos por toda parte, se khali precisasse dele, era como uma calma tomasse conta de sua alma e o forçasse a ser uma montanha na qual khali se apoiaria. ❝ você está preocupado com seojun? ele me parece um bom garoto. ❞ pelo que entreouvira até então não era isso, porém falar ajudava. lentamente, ele desenhou pequenos círculos nas costas dela com os dedos. ❝ se for sobre como ele nos achou, talvez ele consiga evitar que outras pessoas nos achem do mesmo jeito ❞ apertou-o mais um pouquinho.
apoiou seu queixo de leve sobre a cabeça dela, inalando de seu perfume. ❝ mio raggio di sole, sai che non permetterò che ti succeda niente, giusto? ❞ nikandros tirou um dos braços ao redor de khali para tocar em seu queixo, fazendo-o olhar para cima ❝ e mesmo que um dia eu falhe- ❞ sua voz travou. odiava ter que dizer isso, mas era uma possibilidade. um dia ele e callie iriam morrer, de preferência ele antes de todos, não se imaginava vivendo sem nenhum deles. ❝ giuseppe nunca vai deixar que nada te machuque ❞ havia uma certeza vibrante naquelas palavras ❝ nessa família a gente cuida um do outro, isso nunca vai mudar. então não se preocupe, sunshine, nós ficaremos bem. ❞
Confuso era no mínimo, um eufemismo para explicar aquilo que Giuseppe sentia naquele momento. Não sabia qual o propósito do jantar, nem tinha a certeza de quem o tinha organizado, apenas sabia que lhe tinha sido dito para ir, e o italiano, mesmo que a vontade não fosse muita, cumpriu o pedido. Tinha se apressado a chegar, talvez o nervosismo o tivesse feito despachar bem mais depressa que o normal, porque nunca chegava tão cedo assim. Pegando um copo da mesa, o encheu com o vinha tinto que tinha ali, se aliviando ao ver mais gente chegando. “Me diga que não sou o único que não faz ideia do que se está passado.” Murmurou para seu muse, levando o copo aos lábios e dando um gole longo.
❝ não, eu também estou perdido ❞ nikandros também serviu-se do vinho, e segundos depois fez uma careta ❝ era de se esperar que um lugar desses ao menos nos oferecesse uma boa safra ❞ balançou a cabeça, deixando a taça na mesa. talvez o vinho nem fosse dos piores, mas a ansiedade o deixava quase tão rabugento quanto irritado. ele quase sempre percebia sua falha, se forçando a ser mais agradável que o normal em compensação. ❝ temos onze cadeiras, isso significa que alguém fora da nossa família nos convidou aqui. qual sua conspiração até agora? ❞
Delphine havia a convidado para o evento, mas não sabia exatamente do que se tratava. Mas, de certa forma, parecia algo importante. Sabia que seria algo importante, podia sentir pela energia de Delph ao lhe enviar a mensagem. Ela não era lá muito boa com as tecnologias, mas tentava pegar as entrelinhas das conversas, os tons de voz e os olhares, que o metal duro do celular não lhe transmitia. Respirou fundo ao entrar no elevador do edifício. Sozinha, naquele espaço pequeno, teve alguns segundos antes de chegar no andar da cobertura: o restaurante era deslumbrante. Comprimiu os lábios. Logo foi guiada na direção da sala privativa. Andava devagar demais, os saltos altos lhe deixam instável. Mas definitivamente não mais do que no momento em que entrou na sala, vendo quase toda a família reunida. Sentiu o coração pular uma batida. Cogitou virar as costas e ir embora. Mas apenas edureceu a expressão: ninguém veria nenhum tipo de fraqueza nela. “Boa noite” disse ríspida, antes de se sentar na cadeira livre.
ou responda after para um starter fechado depois do discurso do seojun
tentava entender a situação, embora não fizesse sentido algum amelia afirmando que não havia o convidado. tinha a prova bem ali no seu celular! quem estaria por trás disso? e mais importante, se toda família começasse aparecer, quanto tempo demoraria para callie chegar? quando a porta abriu pela primeira vez, nik deu um passinho pro lado sobressaltado e foi difícil esconder a leve decepção se formando. aproveitou para pedir uma garrafa de vinho. seria bom ter uma taça e álcool para disfarçar o nervosismo. dessa vez, quando a porta fez barulho, seu coração estava certo em pular. minha afrodite, como alguém podia ser tão bela? de início, nikandros ficou imóvel. depois se limitou a acenar com a cabeça num cumprimento simples. podia ver em sua expressão que ela estava tão surpresa com aquele ambiente quanto eles e que não estava nada feliz com isso. observou-a conversar com os outros de longe, ingeriu mais duas taças e quando ela estava mais afastada, se aproximou. ❝ buonasera signora ❞ italiano, sério? talvez estivesse passando muito tempo com gio. abriu um sorriso largo, como se o último encontro deles não tivesse sido, por falta de uma palavra melhor, desastroso. ❝ com certeza você não é a causa desse encontro, mas aposto que já tem a quem apontar o dedo? se for para mim, de novo, vou começar achar que é pessoal. ❞
Ele realmente achou que iria levar uma bala na cabeça quando anunciasse que era ele quem tinha arrumado todos os convites. Mas, naquela altura, Seojun só estava preocupado em arrumar os pedacinhos daquela família porque queria se sentir parte de algo, outra história novamente. Não sabia se era porque estava fugindo desde muito tempo ou se era porque tinham pessoas iguais a si próprio. Jun estava bem há nove anos mas não sabia ao certo como se defender ou como defender seus ideais. Não tinha mais um plano A para sua sobrevivência, ele só precisava de uma motivação. E e esperava encontrar dentro daquela sala. “Eu os convidei aqui justamente porque quero conhecê-los… Não foi fácil montar isso mas eu considerei um sucesso depois de alguns meses tentando encontrar todo mundo. Vocês sabem se esconder.”
nikandros estava impressionado por dois motivos. primeiro, seojun era tão novo e tão inteligente. ele estava morrendo para saber sobre sua história, sua morte, tudo. e segundo, ninguém tinha o atacado para confirmar sua imortalidade. ainda. ao seu ver, era quase uma vitória. ❝ depois de alguns milênios fica chato, ainda bem que nos encontrou ❞ como sempre, abriu um sorriso simpático. não queria assustar o rapaz, por isso não o puxou para um abraço, mas se aproximou para que apenas ele o ouvisse. ❝ bem vindo a família, seojun, espero que não se assuste com as caras feias de estão fazendo ❞ soltou uma risadinha voltando a uma distância mais social. ❝ você disse que foi difícil nos encontrar, mas difícil tipo aguentar a chatice de napoleão ou difícil alexander domando bucéfalo? ❞
+ [ intimacy + 80 (looking in each other’s eyes) ]
❝ no, calipátira ❞
doía saber que tal absurdo pesasse nos pensamentos da amada. doía ainda mais ter a certeza que era sua a culpa da mágoa que via brilhando em seus olhos claros. ele podia sentir, mesmo distante dela, o tamanho de sua tristeza. talvez fosse tão grande quanto a própria, mas não era tão dilacerante. nikandros estava queimando todos: ele, a mulher que amava, sua família. estava forçando-os a fazer escolhas que lhes causaria sofrimento. não era sua intenção. se possuísse o poder de fazer a todos felizes mesmo que isso lhe custasse a vida, o faria. contudo, deixar as coisas como estavam não pararia seu coração. seria uma tortura lenta e diária onde a morte viria de forma diferente da que eles conheciam como uma velha amiga. como podia explicar isso? como podia fazê-la entender que ao se impor aquilo, às guerras e às missões intermináveis, estariam juntos mas ele jamais conseguiria ser feliz por completo outra vez?
❝ dizer que você é a melhor coisa que já me aconteceu seria um eufemismo ❞ se ela prestasse atenção, veria o corpo dele tremer de leve. suas emoções confusas e intensas transparecendo na forma que ele se aproximava. ❝ se os deuses nos fizeram com quatro braços, quatro pernas e duas cabeças apenas para nos separar, eu cumpri a missão de encontrar quem preencheria cada vazio em mim. ❞ os cantos dos lábios se ergueram, em orgulho a realização. ainda acreditava nos deuses, pois tal credo soava reconfortante mesmo depois de tanto tempo. deveria haver um motivo para sua existência, para os encontros e reencontros.
❝ você curou meu coração, se tornou meu folego ❞ seus lábios tocaram tão suavemente a palma da mão de callie que talvez tenha sido apenas a sombra de um beijo. ele a colocou sobre seu peito para que ela sentisse o ritmo que seu coração tão aflito insistia em bater. ❝ você deu vida a minha alma, callie, mas o mundo arranjou novas formas de me quebrar- ❞ respirou fundo. nikandros tinha controlado bem suas lágrimas até então, mas cada palavra tornava-se mais difícil de continuar. ❝ -não uma, mas diversas vezes e-e ninguém tem culpa disso ❞
❝ não sei como você espera que eu consiga me remendar sozinho, mas eu não- ❞ sua voz travou, o gosto salgado invadindo sua boca. nik não chorava feio, mas suas lágrimas eram grossas, pesadas como se cada uma levasse consigo litros de seu tormento. ele deixou que elas escorressem, diminuindo mais a distância entre eles. encostou sua testa na de callie, fechando os olhos. ❝ -eu não posso continuar nessa vida, meu amor, ou talvez não sobre nada para ser consertado ❞ disse baixinho. era uma confissão, uma despedida. forçou-se a se distanciar, apenas um pouquinho, apenas o suficiente para que mantivesse contato visual. ele sabia que mesmo se passasse uma milênia sem vê-los, jamais esqueceria daqueles olhos tão peculiares. há muito tempo tinha feito seu propósito desvendar os mistérios daquele olhar, milhares de anos de escrutínio das íris multifacetadas. até hoje, era a coisa mais bela que já tinha visto. ❝ i love you, always and forever, mi animule ❞