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@nobodyyesd00r
Tem sido difícil manter a constância dos textos por aqui. Não por falta do que falar. Muito pelo contrário. Os excessos que me perturbam, sejam de pensamentos, acontecimentos, desejos e, porque não, preguiça de colocar de uma maneira coerente o que nem eu entendo. Nem quando sonho, tenho paz. Acordo sobressaltada, mas sorrio com um irônico bom dia, que nunca vem. Como na música "Hoje Cedo" do Emicida e da Pitty "é nessas horas em que 'noiz' entende a Amy Winehouse", não só ela, como tantos outros que se foram por excessos, Elvis, Chorão, o próprio Kurt antes do tiro, havia em seu organismo doses cavalares de drogas. Eu entendo todos eles. Sabe o que é ainda pior? Quando levantam a hipótese, como uma certeza, de que "ah mas se faziam muito de vítima". Me peguei perguntando qual seria a vantagem de propositadamente se colocar nesse lugar. Vítima é aquela pessoa que sofre, que sente as dores, que se machuca e não incomum, se quer consegue reagir ao seu algoz. É preciso ser muito masoquista ou vingativo para se colocar ai. O que não acho que seja o caso de ninguém que citei e nem de mim mesma, que tantas vezes fui acusada de fingimento. Quem acusa disso, certamente tem o privilégio da mente equilibrada, nem que seja próximo disso. Já me desgastei na busca da compreensão, até encontrar conforto numa canção do Teatro Mágico, e com ela fecho o texto de hoje "Descobrir o verdadeiro sentido das coisas... É querer saber demais".
Eu preciso entender que ninguém, além de mim mesma deve gostar de minha companhia. Tenho que aprender a suportar minhas mudanças bruscas de humor, as risadas altas que inesperadamente viram um choro silencioso. E assim, como vim, me retiro. Do nada. Imprevisível. Ou previsível até demais. Já que é constante eu querer sumir na mesma proporção que anseio um abraço, o qual eu mesma não posso me dar. Busco o travesseiro mais próximo. Pois apesar de ter me arrumado para sair sob a impulsividade do som de Lenine a cantar que a "Lua me chama e eu tenho que pra rua, que hoje eu quero sair só"... Eu fiquei. Disse a mim mesma que já tava tarde para a sessão das 19h30, que não tinha mais nenhum lugar onde ir sem companhia. Eu e mim mesma. Sem mais ninguém em casa além dos meus conflitos internos de não saber o que fazer comigo. Se algum dia alguém descobrir, me avisa. Não sei manter amigos, porque lidar comigo mesma me deixa exausta. Mal tenho forças pra terapia toda terça, para cumprir o compromisso de estar viva para a próxima consulta e ali tentar me descobrir, achar algum sentido. Porém, reforço, se mais alguém se reconhecer e tiver encontrado a fórmula de conviver com o caos de ser. Me avisa. Nem que seja por carta, e-mail, sinal de fumaça. Sigo perdida em mim.
-situações imaginárias que passam em minha cabeça-
Certa vez, chamei a tristeza para conversar. Ela nunca vai embora. É constante, presente, as vezes discreta outras extravagante, mas sempre indesejada. Ainda assim, a trouxe de canto e fiz a pergunta mais óbvia de todas: por que eu? Tanta gente pra se instalar, por que eu...
A resposta veio sem pressa, mas segura. "Porque assim como eu, você é sozinha. Você se isola e nesse espaço eu acho conforto. E quando eu acho que já tenho o suficiente, você ainda me alimenta com suas inseguranças. Sobram motivos para eu ficar. Todo o ódio que você tem de quem te machuca e você não consegue perdoar, o asco que tens pela cidade que vive. A preguiça de fazer algo a respeito. Alguns dias você me coloca para dormir com tanto remédio. Porém, mesmo dopada. Estou do seu lado. Faço parte de quem você é. Mas não sou maior que você." Finalizou.
Atordoada e ainda tentando absorver tanta informação, minha reação foi de uma última questão: "Então você nunca vai embora?".
Com um sorriso de canto, a Tristeza me responde: "Ir embora? Eu sempre estive aqui. Sou do tamanho que você me enxerga. Certos momentos fico tão pequena que pareço finalmente ter sumido. Quando na verdade, você simplesmente abriu espaço pra visita rara da felicidade. Ela sim, é espaçosa e nem precisa de muito para preencher sua vida. Entretanto, ela não fica, ela é de fases, vai e vem. Você precisa convida-la, trazer para perto. Eu não, eu estou sempre aqui. E não sou muito exigente, por isso você acha quase confortável me manter. Tem preguiça de buscar o que te alegre. Então eu fico."
Não consigo esboçar uma reação. Apenas fico paralisada diante da realidade. Tanto pra fazer. O peso da liberdade é grande demais. Então eu observo o copo de leite, mas com medo de derrubar, desisto. Choro antes de se quer o leite ser derramado. A tristeza se aproxima. Parece que acabei de alimenta-la um pouco mais.
Uma das sensações mais constantes e desconfortáveis na vida de quem convive com crises de ansiedade é falta de ar. Sem ele, falta tudo. A vista escurece, o coração pulsa com dificuldade e o que quer que tenha comido parece querer ir embora de você. Aliás, nesse momento, nem você desejaria estar ali. Mas está.
Como suportar? Rivotril embaixo da língua? Ainda faz efeito? Não sei, talvez se dobrar a dose. Dramin pra domar a náusea. E no fim, não encarar o problema, dormir, fugir, sabendo que ele volta.
Me sinto covarde. Porém, é sendo covarde que acordo para mais um dia. Com medo, que caminho pro indefinido. Que como na música do Titãs, o acaso consiga me proteger, enquanto eu andar distraída.
Quando se fala em vazio, para muitos, a relação feita é de algo oco, sem nada. Mas, não seria o vazio um espaço cheio de nós mesmos? Como se estivéssemos em um quarto repleto de espelhos e todo canto observado haveria nosso próprio reflexo, distorcido das mais variadas maneiras. Porém, presente. Se fazendo presença indesejada. Sufocante. Tudo que se quer é expulsar esse inquilino, fazer caber qualquer outra coisa. Não dá. Não adianta sair quebrando cada um dos espelhos. Você só se machuca e novos pequenos reflexos são criados em cada caco no chão. É preciso fazer as pazes consigo, entender como conviver com a solidão de cada um dos 'eus' criados em sua história. Na minha jornada colecionei diversas cicatrizes até perceber que de nada adiantava descontar o ódio no espelho. Hoje, ainda não consigo me encarar. Dói muito. Todavia, já entendo que o único jeito de sobreviver é aceitando minha história do jeito que ela é. Todas as atitudes egoístas que já tomei. Que pensei apenas em mim e disseminei o ódio, enquanto bebia o veneno querendo que o outro morra. O vazio não poderia ser tão cheio de insignificâncias.
Arcane: League of Legends (TV Series 2021— ) S01E03: The Base Violence Necessary for Change
"Death must be so beautiful. To lie in the soft brown earth, with the grasses waving above one's head, and listen to silence. To have no yesterday, and no tomorrow. To forget time, to forgive life, to be at peace."
—Oscar Wilde, The Canterville Ghost
"People label themselves with all sorts of adjectives. I can only pronounce myself as 'nauseatingly miserable beyond repair'."
—Franz Kafka, Diaries, 1910-1923
"Am I living half alive? I am so tired..."
—Sylvia Plath, The Unabridged Journals of Sylvia Plath
"I am going to outlive myself. Eat, sleep, sleep, eat. Exist slowly, softly, like these trees, like a puddle of water, like the red bench in the streetcar."
—Jean Paul Sartre, Nausea
"How about if I sleep a little bit longer and forget all this nonsense."
Franz Kafka, Metamorphosis.
(Artwork by Liza Sivakova.)
Un homme qui dort, 1974
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