Antes de mais nada, gostaria de esclarecer: Senna é orgulho nacional, seu talento é indiscutível, tem fãs, merecidamente, pelo mundo inteiro. Um gênio de primeiríssima grandeza na fórmula 1.
O que não me conforma é o estado de canonização que pessoas têm criado para ele. Muitas delas não acompanharam sua carreira e outras tantas não conhecem automobilismo, apenas admiram única e exclusivamente Senna. Já há quem chame a essas pessoas de viuvinhas.
Num vídeo do you tube, Senna aparece fazendo um punta tacco, close para seus pés. Em comentário ao vídeo, uma dessas viuvinhas diz que Senna era espetacular porque acelerava ao mesmo tempo em que brecava, usando a ponta do pé no freio e o calcanhar no acelerador. Ora, um punta tacco é exatamente isso, e todo piloto deve saber fazê-lo… anotando, ainda, que já há dispositivo eletrônico que mantenha os giros do motor em ritmo elevado, substituindo a técnica. Ainda bem que outro comentarista desfez o equívoco.
Em matéria jornalística supostamente especializada, outro vídeo mostrava a linda Lotus preta conduzida por nosso herói de capacete amarelo. Fazia uma reta. O carro trepidava, dando trabalho ao seu condutor mantê-lo em linha. O jornalista concluiu que só mesmo Senna era capaz de conduzir um carro em tais condições extremas. Não seria melhor que ele lesse um pouco sobre turbulência em altas velocidades antes de escrever sobre automobilismo? Ou será que o vácuo que existe atrás de um carro a ser ultrapassado é mera lenda?
Até aqui, eu poderia definir o fenômeno como ignorância bem intencionada. Pior é quando a coisa cresce a ponto de achar que todo piloto brasileiro é nada perante o deus Senna. Denegrir os feitos de Piquet e Fittipaldi é consenso para esse tipo de torcedor. Impossível, então, será admirar as vitórias de Raul Boesel competindo com Esporte Protótipo na Europa, onde obteve título e vitória em Le Mans. Na mesma vala comum cai Gil de Ferran, vitorioso nos EUA, nas 500 milhas de Indianápolis e como dono de equipe. E outros tantos.
Por falar em dono de equipe, é triste lembrar que Fittipaldi desistiu da Copersucar porque seu patrocínio escasseava à medida em que o carro que preparara para futuros pilotos brasileiros não conseguia vitórias e a imprensa esportiva nacional o ridicularizava por isso. Ela era uma equipe do batalhão intermediário, conseguiu vários pontos durante sua existência mas isso era nada para uma resenha despreparada e que só queria saber de futebol. E que, quando começava a se interessar por automobilismo, teve seu ídolo morto, o que a levou a parar de aprender e agora esculachar Barrichello, Massa e qualquer outro brasileiro que não fosse o mártir de 94.
Este segundo tipo de ignorância não é aceitável. Nossos jornalistas deveriam ter aprendido com o próprio futebol. Entre 71 e 94, o jejum de Copas do Mundo foi motivo para esses profissionais criarem o mito de que a geração de 70 era a melhor de todos os tempos (pode ser verdade) e que nada que a seguisse seria digno de título. As seleções de 82 e 86 eram excelentes, mas sofreram o peso da crítica das viuvinhas de 70. Todas os outros times brasleiros do período eram elogiados pelos especialistas do mundo inteiro - exceto os da casa. Para piorar, alguns desses especialistas eram jogadores de 70, que pareciam torcer contra o Brasil, não querendo ser superados.
Hoje somos viuvinhas de 94 na fórmula 1. Carregamos a bandeira de que Senna seria o maior de todos os tempos (e pode, também, ser verdade). Quanto aos outros pilotos brasileiros, tudo já é sabido e aqui foi frisado.
Creio que se Massa tivesse levado o merecido título de 2008, o mal das viuvinhas estaria curado. Foi o bem que a depreciada seleção de Dunga e Parreira fez para o nosso futebol. E gostaria que o torcedor acordasse para o fato de que o automobilismo não nasceu com Senna e não morreu com ele. Nossa história nas pistas é linda, com o pioneirismo de Manuel de Teffé e Irineu Correa. A cara de pau de Chico Landi ao invadir a Europa. O gênio inventivo de Camilo Christófaro. Ingo Hoffman e seu recorde mundial de títulos numa mesma categoria. Os jeitinhos diferentes das pistas de terra no Sul e da Fórmula Truck, criação brasileira apreciada no mundo inteiro. Senna faz parte desse todo, até aqui, no topo. Ele não é uma realidade separada. Tenho certeza que, se ele estivesse vivo, teria muito orgulho nisso - em ser Ayrton Senna DA SILVA!