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de repente, eu te vi — irmãos em três atos.
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De repente, eu te vi.
Prefiro ter cerceada logo a vida pelo teu ódio, a ter morte longa, faltando o teu amor.
Era um comentário comum dizer que aqueles poços escuros eram vazios. Não havia nada para preenchê-los, afinal, se tudo que eles presenciaram em sua existência foi sangue, dor e ódio. Tão novo era seu dono e já marcado por uma guerra que não era sua, embora lhe fora dito que ele era parte daquilo por ser parte do mundo. Era injusto como nunca havia pedido para existir, e ainda assim era obrigado a participar de tais atrocidades simplesmente por estar… Ali. O preço que pagou por vir ao mundo foi perder o brilho. Os sentimentos que um dia talvez preenchessem tais poços. A essência. As cavidades, na verdade, mal se lembravam de carregar algo que não fosse amaldiçoado e ruim. Porque, por mais que o dia não houvesse sido violento, as marcas ainda estariam lá quando fossem fechados ao fim dele. E elas nunca desapareceriam, dando vida a todo o desespero de novo e de novo.
Os olhos de Itachi aprenderam muito cedo sobre o que o mundo tinha de pior. A guerra lhe fora arrastada na face de apenas quatro anos de idade como nunca deveria ser nem na de um adulto. A morte era carregada nos dedos infantis, exigindo deles uma agilidade e frieza do assassino em que se tornara. A única coisa que prendeu suas lágrimas naquele momento foi o objetivo que tomou para si de mudar aquela visão horrenda para uma de paz, aonde ninguém precisaria matar para continuar existindo. Ele seria forte como jamais ninguém foi e daria um fim àquele massacre sem sentido.
Os ideais de Itachi estavam ali e sempre estiveram. No entanto, ainda havia tantas dúvidas. A tenra idade nunca lhe fora empecilho ou escuridão que cegasse seu discernimento acerca do que acontecia ao seu redor; não apenas pelo trauma de um campo de batalha sangrento, mas por sua consciência ser naturalmente mais aguçada. O que para as outras crianças eram rivalidades triviais e brincadeiras de pegar, para Itachi era ponderar sobre os conceitos que o cercavam. Mesmo assim, ainda não entendia. O que era vida? O que era comunidade? O que era um shinobi?
Certa vez um ninja mais experiente lhe respondeu que não havia sentido viver. Decerto não pôde se contrapor a uma verdade disfarçada de opinião, que era tão realista que se tornava massacrante; tão massacrante que se tornava insuportável; tão insuportável que Itachi se jogou de um penhasco no mesmo dia. Assim, simplesmente, poderia ter sido seu fim naquela dimensão. Em um segundo ele estaria vivo, em outro morto. Morto? O que era a morte? Ele não poderia responder, pois a alguns segundos do chão que trazia escrito nas marcas ríspidas de vida nas pedras sua certa libitina, salvou-se. “Ninguém quer realmente morrer” foram suas palavras, que nada seriam adequadas ao resto da sua própria vida.
Em vida, Itachi já foi mistificado. Um prodígio, um exímio ninja, um verdadeiro shinobi. Ora, como poderia ser um shinobi completo se não sabia o que era um shinobi? Ele entendia de acertar shurikens em seus alvos e de perseverança em difíceis jutsus. Mas, por dentro, não passava uma mistura desagradável a ele mesmo de perguntas sem respostas e poços sem luz enquanto não alcançava seus objetivos. No entanto, Itachi era vazio de propósitos e vontades pessoais.
Até que, de repente, ele o viu.
“Ele vai se chamar Sasuke, como o avô do Sandaime. Já falei com ele”, foi o que disse Fugaku lá longe em sua compreensão. Itachi olhava Sasuke com atenção apenas para presenciar a menor e mais frágil coisa que já havia visto em todos os seus poucos e muitos anos de vida. Uma nova vida. A bochecha mais rosada, a pele mais pálida e o cabelo mais negro em comparação a si mesmo o fizeram perceber que aquele tempo em que estivera no mundo não era nada próximo de sua intensidade e vivacidade. Ele questionou-se sobre o que houvera feito até então, já que nada se comparava ao rebuliço que sentia ao ter a pequena criatura entre os braços pela primeira vez. Os poços tinham com que se preencher, afinal; seu brilho só não havia chegado ao seu plano ainda.
Itachi não poderia regozijar de seu novo status iluminado de irmão de Sasuke Uchiha, no entanto. Muitas de suas perguntas foram respondidas sobre sua própria existência, mas a que preço? As cinzas de toda uma estrutura em chamas chamavam seu nome, e ele se achava no dever de atendê-las. Muito sangue já havia escorrido por suas mãos sem qualquer remorso antes. Além do reflexo da vida do irmão mais novo nos olhos, nada mais interpelaria as suas falhas empáticas. Entretanto, a situação enquanto shinobi se agravaria a um ponto em que seu próprio sangue, e muito dele, tivesse de manchar sua consciência.
O ódio, e o rancor provindo dele, foi uma arma mais poderosa contra Sasuke do que qualquer kunai e jutsu que poderia usar. Itachi conhecia seu irmão mais que a qualquer um; eles tinham uma conexão que julgaria divina, se acreditasse em algo além da afiação de sua espada. Arrancar-lhe a família e a admiração para consigo o faria forte. Não havia espaço no mundo shinobi para os fracos, e Sasuke havia de sobreviver. Era o legado que Itachi Uchiha, afinal, havia escolhido deixar para trás. Todavia, era uma via de mão dupla aquilo que chamavam de vida. Se podia ferir Sasuke com ódio, ele o podia destruir por inteiro com apenas uma lágrima. Nem mesmo a vida do primeiro homem que matara lhe pareceu tão significante quanto um segundo do pranto daquele cuja vida física tentava proteger do jeito mais grotesco possível.
Os ideais pacíficos que uma vez basearam seus passos como ninja caíram em desgraça assim que Sasuke nascera, e ele soube disso desde seu primeiro soar de choro. Se antes suas perguntas não respondidas eram parte de uma mistura homogênea com seus tão mencionados poços obscuros, agora a luz proporcionada pelo seu irmãozinho tolo cegava todos os objetivos e vontades pessoais que ele nunca teve. Nunca houvera julgado suas faltas como motivos para preocupações, mas a ruína trazida pelo desespero do preenchimento fora a responsável pelo seu sacrifício. E essa conclusão a que chegara não era nem mesmo um lamento; era um sincero agradecimento.
“Obrigado, Sasuke. Ser capaz de viver como seu irmão mais velho me fez… feliz”.
A bagunça nunca fizera mais sentido antes. E o certo era extremamente errado. A sorte de Itachi era que aquelas noções mundanas e humanas demais não se aplicavam aos seus sentimentos por seu irmão mais novo, os quais cultivava como o mais fiel camponês que necessitava daquela colheita para lhe servir de alimento e sobreviver; e necessitava mesmo. Não havia mais conceitos aos quais se apegar, afinal. Não havia comunidade de sangue ou de sociedade para a qual voltar. Só havia o restante de existência a ser arrebatado pelas mãos daquele que, por dentro, decretou destruição.
A ciência mal dava conta de sua doença. Suspeitava fortemente — e acreditaria nisso se, mais uma vez, acreditasse no divino — dela ser um castigo do acaso pelas atrocidades ainda atreladas à sua existência. O sangue que tossia era aquele que havia arrancado em excesso de seu próprio povo e as marcas avermelhadas visíveis na pele eram resultado do ódio que nutria por si próprio. Nem mesmo Sasuke Uchiha o odiava mais do que ele mesmo; conquanto, ainda o amava mais do que desejava ser punido por seus pecados.
Nada em suas duas décadas de vida valeu mais a pena que a façanha de se manter vivo até morrer pelas mãos do único Uchiha conhecidamente vivo além de si mesmo. O egoísmo de tê-lo deixado vivo para sofrer as corrosões da solidão e dos efeitos de sua traição e a justiça por seu próprio clã seriam expiados pelas mãos de Sasuke. Secretamente, Itachi ansiava pela morte — sem mais se questionar sobre o que ela era senão o fim de todas as coisas — e vê-la tão próxima nem o fazia ter vontade de continuar atuando como o vilão da trajetória de seu irmão. Não o fez no último momento. Fraquejou. Faltou-lhe ódio. Ele poderia apenas ter se dado por vencido e desabado ali mesmo, o peso da doença e do ódio de Sasuke todo em seus ombros. Mas… por uma última vez… precisava do brilho de seu irmão refletindo nas cavidades agora não tão mais negras pela névoa da literal cegueira. Estava condenado à eterna danação, de qualquer forma, então um último gesto do quão decrépito em seu âmago poderia ser não era nada. Cambaleou até perto do responsável por seus maiores fracassos e únicas vitórias. Itachi viu seu sangue contrastar tão vívido contra a tez alva e o assombro aparente. O sorriso em seu rosto pelo medo que Sasuke tinha da morte era de puro contentamento; se ele a temia, correria para longe dela e demoraria muito para se encontrar com ele depois de tudo, se é que havia um depois. As últimas palavras, no entanto, apesar de desprovidas de lamentos, eram cheias da saudade de ir a algum lugar em que seu pequeno irmão não existia.
“Desculpe, Sasuke. Essa é a última vez”.
Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas.
Olhos, vede mais uma vez; é a última.
Um abraço permiti-vos também, ó braços!
Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo legítimo selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante.
I hate everything about you. Why do I love you?
“Itachi, me prometa isso. Cuide do Sasuke”.
Fugaku Uchiha, líder do clã mais poderoso da Vila ninja mais poderosa, nunca foi acostumado a pedir, fazendo suas ordens sempre claras e diretas. O esperado de um homem frígido e exigente até para com seus próprios filhos. Mesmo assim, ali ele estava, ajoelhado em seu leito de morte, pedindo ao filho patricida que tomasse conta de seu caçula, que cuidasse dele e o protegesse do sujo sistema que o obrigava a matar sua própria família.
“Eu irei” foi a única resposta plausível de Itachi àquele último pedido do pai. A firmeza antes empunhada nos dedos assassinos não se fazia presente na sua prosódia, e mesmo assim, com todo o seu ser, com toda a sua alma, com todas as fibras que compunham seu corpo, ele havia selado aquela promessa com uma sinceridade que nunca demonstrara antes em vida. Fugaku não sabia naquele momento, mas todo o sangue — o seu sangue — que havia acabado de derramar não era a favor de Konoha nem contra os Uchiha, era em prol da segurança do menino cujo chakra vibrante Itachi podia sentir se aproximando naquele exato momento. A quilômetros reconheceria a essência de Sasuke, por ser a única que de fato o interessava, instigava e, nele, fazia florescer sentimentos tão controversos e intensos que causar, por ele, uma guerra mortal contra todo o globo não parecia suficiente para expressá-los. E se engana quem conclui que Itachi nunca faria tal coisa. As ameaças deixadas para trás aos governantes de Konoha se faziam tão latentes em suas memórias como a tortura dos seus olhos malditos ao seu irmãozinho e a promessa de que iria protegê-lo.
“Você é realmente uma criança gentil”.
Um golpe. Dois golpes. Itachi não contou quantas vezes a sua katana teve de atravessar os corpos de Fugaku e Mikoto até que eles parassem de agonizar. O rosto úmido da torrente agora contida secava tal qual sua essência. A vermelhidão dos olhos parecia mais intensa do que nunca ao refletir o sangue, mas era o único traço de saturação que ainda se apegava a ele naquele momento, um comensal maldito da morte, do pecado mais grave, da sentença da sua alma — se é que aquilo de fato existia — à eterna tortura do resto da sua deplorável existência. Depois daquilo, mais do que os fatos daquela noite, a sensação de desgraça, miséria, desespero e vazio misturados em um só bolo intragável que se formava em sua garganta frequentemente eram a lembrança mais vívida daquele momento que carregou consigo desde então.
There's no love. There's no hate. Only dark skies that hang above.
Era engraçado que aquela memória fosse a predominante dentre todas enquanto Itachi esperava pacientemente que finalmente fosse abraçado pelo seu fim. A chuva caía gelada sobre seu rosto, mas não tão gelada quanto o seu próprio corpo ficava à medida que a vida lhe esvaía. Cada gota reavivava coisas aleatórias sobre seu passado — simples, como os treinos com Shisui Uchiha, e complexas, como a primeira vez em que despertou o sharingan — mas sempre se deparava com seus pais mortos e a sensação do chakra desesperado de Sasuke se aproximando enquanto descobria toda a sua família morta. Mesmo ali, à beira da morte sobre aquelas pedras frias das ruínas do templo Uchiha, com os olhos inúteis e cegos no corpo a definhar fitando nada além do céu nublado, ainda podia sentir o chakra de seu irmão mais novo. Itachi achava que se o pudesse sentir uma última vez, dormiria em paz para todo o sempre. Mas, como seu tormento coercitivo estava apenas para começar, naquele chakra só podia sentir a mesma desgraça, miséria, desespero e vazio anestesiados que se apoderara de si mesmo após assassinar seus pais.
O inferno não era bem como Itachi esperava. O lapso de consciência que teve após morrer sobre os destroços de sua luta com Sasuke não durou mais do que um segundo após a última vez que tivera vislumbre de algo vivo. Pelo menos não para ele. Para a sua sorte — ou terrível infortúnio —, mesmo morto, Itachi ainda carregava consigo um intelecto e habilidade invejáveis. E isso o fez entender rapidamente a situação em que se encontrava. Maldito era aquele que não o havia deixado regozijar do pagamento com juros de seus pecados imediatamente após sua morte com uma prorrogação profana de sua vida; que não realmente era vida, ainda mais quando sequer tinha controle de seu próprio corpo. O que aquele tal maldito não esperava era que Itachi Uchiha fosse a falha de seu jutsu, graças ao bendito olho de Shisui.
No entanto, mesmo que amaldiçoasse aquele que havia profanado sua alma já corrupta por si só, a oportunidade de sentir o chakra de seu irmãozinho mais uma vez foi um presente que não merecia. Em todos os sentidos, estava morto — e por céus, já sentia-se morto mesmo antes de morrer de fato —, mas esteve vivo o bastante por dentro quando desviou os olhos minimamente para o lado a tempo de ver o seu irmão mais novo, seu caçula, seu Sasuke a persegui-lo. Ele ainda estava vivo e ainda estava bem. Essa constatação foi suficiente para Itachi ignorá-lo e seguir em frente para cumprir com outra incumbência: contribuir como podia para garantir a segurança do mundo no qual Sasuke construiria um futuro. No entanto, ingênuo ele o foi ao sequer cogitar que seu irmão mais novo desistiria de lhe chamar a atenção. Ele sempre fora assim, afinal, nunca teve o suficiente do nii-san inalcançável e, nem após sua morte, saciaria-se apenas em vê-lo rapidamente correndo por uma floresta úmida cheirando a sangue e terra molhada.
Sasuke não mais trazia seu ódio ou novos jutsus consigo ao procurar seu irmão mais velho daquela vez. Agora, ele carregava consigo seus olhos e perguntas, cujas respostas Itachi sabia, mais do que ninguém, que seriam o mínimo que poderia dá-lo para acalentar seus anseios depois de todo o estrago que o houvera feito. Mas não naquele momento. "Eu sei que você mudou", Itachi limitou-se a dizer. Ele sabia de tudo que seu irmão havia se tornado em antemão, afinal era o que realmente o prendia ao mundo terreno à parte do Edo Tensei, e só podia constatar duas coisas muito simples sobre isso: a própria culpa e sua total inabilidade de inferir ao próprio Sasuke qualquer tipo de julgamento. Quem era ele, afinal? Apenas o responsável pela desgraça da própria família.
"Você mudou meu mundo, há muito tempo atrás. Por que eu? Por que você me poupou? Por que só eu?"
Eram perguntas de uma criança assustada, confusa e desesperada, e cada uma delas acertava Itachi, ferindo-o de uma forma que nenhuma shuriken poderia fazê-lo por cada pontada de culpa que o fazia definhar por dentro também. Ele passou a vida achando que se acostumaria com os rompantes desse sentimento, porém só a lembrança de ter tornado a existência da pessoa que mais amava no mundo tão miserável o fazia tremer até fisicamente. De qualquer forma, a verdade, a real verdade, tornava seus atos ainda mais sórdidos. E a despeito de suas perguntas, Sasuke tinha vasto conhecimento sobre elas. Não apenas ele o sabia em seu âmago assim que soube a verdade sobre seu aniki, como tinha seus olhos e podia absorver algumas coisas de seu dono. Itachi nunca havia tido os olhos de outro Uchiha para saber, mas conhecia bem, como a outros segredos de seu clã, a conexão estabelecida entre os portadores originais dos olhos e os atuais. Em soma à conexão que tinham por sua irmandade controversa, mesmo sendo um dos ninjas mais capazes de sua geração, não era capaz de mensurar a intensidade daquele tipo de contato ou a intimidade agregada. Mesmo assim, Itachi mentiu. "Porque você não sabia de nada", "porque eu queria ser julgado apenas pela mão de outro Uchiha", "porque eu usei seu ódio". Tão suscetível a si o era que Itachi tinha uma mínima esperança de que Sasuke acreditasse nesses argumentos rasos que pareciam querer convencer até a si mesmo, sem sucesso nenhum. Não convenceu ao seu otouto também.
Lutar ao lado de Sasuke foi outro presente recebido que não merecia. Itachi só conseguia pensar no quanto ele havia crescido e mudado. Estava forte, como ele o havia forçado a ser. De uma forma distorcida, por saber as circunstâncias que o tornaram um shinobi extraordinário, o Uchiha mais velho sentiu-se, infantilmente, como um nii-san orgulhoso. Permitiu-se àquele sentimento somente porque sabia que, tendo destruído sua vida ou não, Sasuke teria seguido seus passos como ninja e ido ainda mais além, como carne da sua carne, sangue do seu sangue e olho do seu olho. Afinal, por mais malditos que esses olhos fossem em sua cor vermelho-sangue, Itachi cria que Sasuke os tornaria uma bênção como a tudo que poderia chamar de seu. O próprio Itachi sentia-se abençoado por ser seu irmão, e sentiu assim desde que o pegara no colo pela primeira vez.
"Quando eu estou com você, eu lembro de coisas... Os sentimentos que eu tinha quando uma criança, de amar meu irmão mais velho. É por isso... Que quanto mais próximos do que fomos antes, como irmãos, e quanto mais te entendo... Mais ódio por Konoha eu tenho por te causarem tanta dor".
Sasuke...
"Eu a odeio mais do que nunca!"
Não...
"Eu sei o que você quer que eu faça, como você quer que eu seja..."
A culpa disso é toda e só minha...
"Você é meu irmão mais velho e vai me desaprovar".
Nunca...
"Mas é porque eu sou seu irmão que não importa o que você diga, você não vai me parar".
E eu não tentaria...
"Mesmo que você proteja a Vila agora, eu vou destrui-la um dia".
Sasuke...
"Adeus".
When my time comes, forget the wrong that I've done. Help me leave behind some reasons to be missed.
Meu irmãozinho tolo. Itachi rir-se-ia, se pudesse. Todas aquelas palavras seriam caladas se ao menos Sasuke encontrasse as respostas que tanto queria dentro de seus próprios conhecimentos e sentimentos. No entanto, seu amado otouto, como em uma de suas birras de criança, queria ouvir na própria voz de seu nii-san tudo que, por ele, sentia. Como já havia concluído antes mesmo de ser reencontrarem: a verdade era sua obrigação para com Sasuke. E a ele a daria. A consciência de Itachi esvaía-se aos poucos, como os grãos de areia da praia escapavam por entre os dedos de quem se atrevia a tentar aprisioná-los. Havia de se apressar. Havia de tirar Sasuke da confusão de suas inseguranças como uma última tentativa de se redimir por todos os seus pecados. Ainda havia tempo...
Não há mais motivo para mentir.
Itachi amaldiçoou seus olhos desde o dia que os usara para ferir seu irmãozinho. Ele os rejeitou tanto que seu próprio organismo os rejeitou, fazendo-os tão sobrecarregados e inúteis quanto seu dono. Mas eles pagariam sua dívida com Sasuke tal qual a si mesmo. Eles entrariam na cabeça de seu otouto uma última vez para lhe dizer tudo aquilo que não podia em palavras, tanto pela falta de tempo quanto por sua eloquência limitada de alguém que há muito só sabia usar da própria voz para mentir. Eles mostraram a desgraçada história da sua vida, com todos os seus personagens, desde os aliados até os vilões, junto a todos os infortúnios. Tudo que havia ocultado da criança da qual era responsável, para protegê-la de um mundo que nunca, nunca o havia merecido. Sasuke é como uma tela em branco, certa vez disse. E essa tela foi tingida do vermelho mais latente por suas próprias mãos. Não havia desculpas, muito menos perdão, para isso e Itachi sabia. Por isso...
Você não precisa nunca me perdoar... E não importa o que você faça daqui para frente...
Nunca importou, nunca importaria. Sasuke podia minimizar o mundo a chamas de ódio, fazer pactos profanos e matar quem fosse, as emoções que ele despertava em Itachi continuariam intactas. Porque Sasuke ateou fogo em sua vida, odiou-o com a mais forte intensidade, fez os piores pactos e tirou sua vida, mas ainda assim... Ainda assim, Sasuke...
Eu vou te amar para sempre.
Don't resent me. When you're feeling empty, keep me in your memories. Leave out all the rest.
De repente, eu te vi.
Prefiro ter cerceada logo a vida pelo teu ódio, a ter morte longa, faltando o teu amor.
Era um comentário comum dizer que aqueles poços escuros eram vazios. Não havia nada para preenchê-los, afinal, se tudo que eles presenciaram em sua existência foi sangue, dor e ódio. Tão novo era seu dono e já marcado por uma guerra que não era sua, embora lhe fora dito que ele era parte daquilo por ser parte do mundo. Era injusto como nunca havia pedido para existir, e ainda assim era obrigado a participar de tais atrocidades simplesmente por estar… Ali. O preço que pagou por vir ao mundo foi perder o brilho. Os sentimentos que um dia talvez preenchessem tais poços. A essência. As cavidades, na verdade, mal se lembravam de carregar algo que não fosse amaldiçoado e ruim. Porque, por mais que o dia não houvesse sido violento, as marcas ainda estariam lá quando fossem fechados ao fim dele. E elas nunca desapareceriam, dando vida a todo o desespero de novo e de novo.
Os olhos de Itachi aprenderam muito cedo sobre o que o mundo tinha de pior. A guerra lhe fora arrastada na face de apenas quatro anos de idade como nunca deveria ser nem na de um adulto. A morte era carregada nos dedos infantis, exigindo deles uma agilidade e frieza do assassino em que se tornara. A única coisa que prendeu suas lágrimas naquele momento foi o objetivo que tomou para si de mudar aquela visão horrenda para uma de paz, aonde ninguém precisaria matar para continuar existindo. Ele seria forte como jamais ninguém foi e daria um fim àquele massacre sem sentido.
Os ideais de Itachi estavam ali e sempre estiveram. No entanto, ainda havia tantas dúvidas. A tenra idade nunca lhe fora empecilho ou escuridão que cegasse seu discernimento acerca do que acontecia ao seu redor; não apenas pelo trauma de um campo de batalha sangrento, mas por sua consciência ser naturalmente mais aguçada. O que para as outras crianças eram rivalidades triviais e brincadeiras de pegar, para Itachi era ponderar sobre os conceitos que o cercavam. Mesmo assim, ainda não entendia. O que era vida? O que era comunidade? O que era um shinobi?
Certa vez um ninja mais experiente lhe respondeu que não havia sentido viver. Decerto não pôde se contrapor a uma verdade disfarçada de opinião, que era tão realista que se tornava massacrante; tão massacrante que se tornava insuportável; tão insuportável que Itachi se jogou de um penhasco no mesmo dia. Assim, simplesmente, poderia ter sido seu fim naquela dimensão. Em um segundo ele estaria vivo, em outro morto. Morto? O que era a morte? Ele não poderia responder, pois a alguns segundos do chão que trazia escrito nas marcas ríspidas de vida nas pedras sua certa libitina, salvou-se. “Ninguém quer realmente morrer” foram suas palavras, que nada seriam adequadas ao resto da sua própria vida.
Em vida, Itachi já foi mistificado. Um prodígio, um exímio ninja, um verdadeiro shinobi. Ora, como poderia ser um shinobi completo se não sabia o que era um shinobi? Ele entendia de acertar shurikens em seus alvos e de perseverança em difíceis jutsus. Mas, por dentro, não passava uma mistura desagradável a ele mesmo de perguntas sem respostas e poços sem luz enquanto não alcançava seus objetivos. No entanto, Itachi era vazio de propósitos e vontades pessoais.
Até que, de repente, ele o viu.
“Ele vai se chamar Sasuke, como o avô do Sandaime. Já falei com ele”, foi o que disse Fugaku lá longe em sua compreensão. Itachi olhava Sasuke com atenção apenas para presenciar a menor e mais frágil coisa que já havia visto em todos os seus poucos e muitos anos de vida. Uma nova vida. A bochecha mais rosada, a pele mais pálida e o cabelo mais negro em comparação a si mesmo o fizeram perceber que aquele tempo em que estivera no mundo não era nada próximo de sua intensidade e vivacidade. Ele questionou-se sobre o que houvera feito até então, já que nada se comparava ao rebuliço que sentia ao ter a pequena criatura entre os braços pela primeira vez. Os poços tinham com que se preencher, afinal; seu brilho só não havia chegado ao seu plano ainda.
Itachi não poderia regozijar de seu novo status iluminado de irmão de Sasuke Uchiha, no entanto. Muitas de suas perguntas foram respondidas sobre sua própria existência, mas a que preço? As cinzas de toda uma estrutura em chamas chamavam seu nome, e ele se achava no dever de atendê-las. Muito sangue já havia escorrido por suas mãos sem qualquer remorso antes. Além do reflexo da vida do irmão mais novo nos olhos, nada mais interpelaria as suas falhas empáticas. Entretanto, a situação enquanto shinobi se agravaria a um ponto em que seu próprio sangue, e muito dele, tivesse de manchar sua consciência.
O ódio, e o rancor provindo dele, foi uma arma mais poderosa contra Sasuke do que qualquer kunai e jutsu que poderia usar. Itachi conhecia seu irmão mais que a qualquer um; eles tinham uma conexão que julgaria divina, se acreditasse em algo além da afiação de sua espada. Arrancar-lhe a família e a admiração para consigo o faria forte. Não havia espaço no mundo shinobi para os fracos, e Sasuke havia de sobreviver. Era o legado que Itachi Uchiha, afinal, havia escolhido deixar para trás. Todavia, era uma via de mão dupla aquilo que chamavam de vida. Se podia ferir Sasuke com ódio, ele o podia destruir por inteiro com apenas uma lágrima. Nem mesmo a vida do primeiro homem que matara lhe pareceu tão significante quanto um segundo do pranto daquele cuja vida física tentava proteger do jeito mais grotesco possível.
Os ideais pacíficos que uma vez basearam seus passos como ninja caíram em desgraça assim que Sasuke nascera, e ele soube disso desde seu primeiro soar de choro. Se antes suas perguntas não respondidas eram parte de uma mistura homogênea com seus tão mencionados poços obscuros, agora a luz proporcionada pelo seu irmãozinho tolo cegava todos os objetivos e vontades pessoais que ele nunca teve. Nunca houvera julgado suas faltas como motivos para preocupações, mas a ruína trazida pelo desespero do preenchimento fora a responsável pelo seu sacrifício. E essa conclusão a que chegara não era nem mesmo um lamento; era um sincero agradecimento.
“Obrigado, Sasuke. Ser capaz de viver como seu irmão mais velho me fez… feliz”.
A bagunça nunca fizera mais sentido antes. E o certo era extremamente errado. A sorte de Itachi era que aquelas noções mundanas e humanas demais não se aplicavam aos seus sentimentos por seu irmão mais novo, os quais cultivava como o mais fiel camponês que necessitava daquela colheita para lhe servir de alimento e sobreviver; e necessitava mesmo. Não havia mais conceitos aos quais se apegar, afinal. Não havia comunidade de sangue ou de sociedade para a qual voltar. Só havia o restante de existência a ser arrebatado pelas mãos daquele que, por dentro, decretou destruição.
A ciência mal dava conta de sua doença. Suspeitava fortemente — e acreditaria nisso se, mais uma vez, acreditasse no divino — dela ser um castigo do acaso pelas atrocidades ainda atreladas à sua existência. O sangue que tossia era aquele que havia arrancado em excesso de seu próprio povo e as marcas avermelhadas visíveis na pele eram resultado do ódio que nutria por si próprio. Nem mesmo Sasuke Uchiha o odiava mais do que ele mesmo; conquanto, ainda o amava mais do que desejava ser punido por seus pecados.
Nada em suas duas décadas de vida valeu mais a pena que a façanha de se manter vivo até morrer pelas mãos do único Uchiha conhecidamente vivo além de si mesmo. O egoísmo de tê-lo deixado vivo para sofrer as corrosões da solidão e dos efeitos de sua traição e a justiça por seu próprio clã seriam expiados pelas mãos de Sasuke. Secretamente, Itachi ansiava pela morte — sem mais se questionar sobre o que ela era senão o fim de todas as coisas — e vê-la tão próxima nem o fazia ter vontade de continuar atuando como o vilão da trajetória de seu irmão. Não o fez no último momento. Fraquejou. Faltou-lhe ódio. Ele poderia apenas ter se dado por vencido e desabado ali mesmo, o peso da doença e do ódio de Sasuke todo em seus ombros. Mas… por uma última vez… precisava do brilho de seu irmão refletindo nas cavidades agora não tão mais negras pela névoa da literal cegueira. Estava condenado à eterna danação, de qualquer forma, então um último gesto do quão decrépito em seu âmago poderia ser não era nada. Cambaleou até perto do responsável por seus maiores fracassos e únicas vitórias. Itachi viu seu sangue contrastar tão vívido contra a tez alva e o assombro aparente. O sorriso em seu rosto pelo medo que Sasuke tinha da morte era de puro contentamento; se ele a temia, correria para longe dela e demoraria muito para se encontrar com ele depois de tudo, se é que havia um depois. As últimas palavras, no entanto, apesar de desprovidas de lamentos, eram cheias da saudade de ir a algum lugar em que seu pequeno irmão não existia.
“Desculpe, Sasuke. Essa é a última vez”.
Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas.
Olhos, vede mais uma vez; é a última.
Um abraço permiti-vos também, ó braços!
Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo legítimo selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante.
eu pude ver o sol desaparecer do seu rosto, dos seus olhos, da sua vida.
Eu ainda posso esperar?
"Eu ainda posso esperar?", Naruto perguntou, de súbito. Os olhos esmeralda o encararam de forma confusa ao se voltar para ele. Eles já haviam se despedido e Naruto estava prestes a sair de Konoha com Jiraiya para começar seu treinamento. Estava preparada para deixar seu amigo ir quando este lhe surpreendeu com o tom sério que usara. Ela conhecia Naruto o suficiente para saber o quão bobo ele poderia ser, então esperava alguma piada para amenizar o clima de despedida. Mas o olhar obstinado que não combinava com a face infantil de 12 anos a deixara assustada.
"O que... ?", Sakura começou a perguntar, porém foi interrompida por aquele mesmo tom sério que não condizia com o garoto.
"Eu ainda posso esperar que você olhe para mim um dia?"
Os olhos arregalados de Sakura só mostravam ainda mais a confusão do momento. Ela sabia muito bem a que Naruto se referia, mas nunca o vira tão sério sobre aquilo, o que tirava da kunoichi qualquer tipo de reação. O que poderia falar? O que poderia pensar? A imagem de Sasuke indo embora na última vez em que o vira palpitou em sua memória, e imediatamente sentiu-se culpada por pensar nele quando Naruto estava ali, tão austero sobre seus próprios sentimentos como nunca estivera consigo antes. Sentiu-se culpada por sua própria afeição pelo Uchiha vacilar ao se deixar momentaneamente mergulhar no azul vivo dos olhos de seu colega de time.
Naruto deixou Konoha naquele dia com um de seus largos sorrisos. Não porque Sakura o respondera de forma positiva, já que a menina de cabelos rosados sequer conseguira fazer algo além de corar diante da seriedade com que falara com ela, mas por querer diminuir o impacto de sua pergunta. Sorriu como sempre e voltou ao tom bobo de sempre ao exclamar "Até mais, Sakura-chan!", virando-se e indo embora para seu treino, deixando para trás uma Sakura ainda um tanto assustada, mas aliviada ao mesmo tempo. Egoísta, mas aliviada.
Mesmo após três conturbados anos daquela estranha despedida, quando não estava treinando com Tsunade, a pergunta de Naruto ainda vinha à sua mente ocasionalmente.
"Eu ainda posso esperar que você olhe para mim um dia?"
A kunoichi sentia que nunca teria uma resposta para aquilo. Não porque não queria magoar Naruto, mas porque sentia que não poderia responder às próprias dúvidas.
Naruto estava finalmente de volta à Vila. Ele estava mais alto e não tinha mais aquela feição tão idiota de alguns anos atrás. Ela mesma havia crescido e se tornado uma bela adolescente, muito mais forte que anteriormente. Ela havia prometido que não veria mais seus colegas de time por trás, e para isto, treinou duro, assim como esperava que seu melhor amigo também tivesse o feito.
O Time 7 não tinha mais a formação original, mas estava tudo bem porque Naruto ainda estava ali. A dinâmica dos dois era mesma, mas o laço que construíram se fortalecia a cada missão; cada jantar do lámen favorito de Naruto no Ichiraku, com pedaços de porco por cima; cada soco que desferia nele e em suas ideias bobas.
"SHANNARO! Naruto, não seja estúpido! Se você comer essa coisa todo dia, como vai se manter vivo pra se tornar Hokage?", rosnou a kunoichi para Naruto após ele dizer que no dia seguinte queria repetir o jantar no Ichiraku com ela.
Já haviam jantado após uma longa missão e agora o rapaz loiro a acompanhava de volta para casa. Nas primeiras vezes, ela insistia que não era necessário, até porque podia se defender sozinha, mas Naruto insistia. Não porque duvidava de sua força, ele dizia, mas porque estar na companhia dela o fazia feliz. Ao mesmo tempo em que o xingava, acabava por corar logo em seguida.
"Então Sakura-chan acredita que eu vou ser Hokage?", perguntou Naruto em um tom zombeteiro enquanto a cutucava no braço, recebendo como resposta um soco numa das bochechas riscadas. Não parecera tão forte para ela, mas fez o rapaz choramingar baixo.
Eles chegaram à casa de Sakura relativamente tarde. Ninguém mais andava pelas ruas e até as luzes de dentro do lar da menina estavam apagadas. Os pais da kunoichi já não se importavam mais com sua filha chegando tarde; afinal, ela sempre estava com Naruto. Além dela saber se cuidar, ele a protegeria de qualquer forma, ambos sabiam. Os dois se despediram e Sakura virou para subir as escadas quando aquele tom que conhecia bem e ainda a assombrava ressonou novamente em sua audição.
"Eu ainda posso esperar?"
Sakura passou alguns bons anos sem ouvir aquilo de novo, e para não se confrontar tanto, desejava de forma egoísta nunca mais ouvir. Ainda assim, ali estava Naruto, sinceramente esperando uma resposta daquele jeito sério que ela passou a detestar. Seriedade não combinava com ele; aquele rosto fora feito para sorrir. Mas não havia nada que ela pudesse fazer sobre aquilo. Não naquele momento, não de qualquer forma.
Ao contrário da última vez, Naruto não tinha por quê fugir daquilo tão rápido. Ele não tinha Jiraya o esperando, nem treinamento para fazer. Ele podia se dedicar completamente à sua própria dúvida e à esperança de arrancar uma resposta positiva da garota que amava. Não, Naruto não havia lhe cumprido a promessa ainda. Não, Naruto não era merecedor da afeição de Sakura, e sabia muito bem disso se nem ao menos conseguia trazer seu amigo de volta. Mas outra coisa de que Naruto sabia muito bem era que não conseguiria engolir seus sentimentos para sempre. Ele não esperava que Sakura o aceitasse de uma hora para outra, e nem pretendia que o fizesse. Afinal, faria questão de salvar Sasuke antes de garantir a felicidade da menina de olhos verdes. Fosse com ele, fosse com seu rival.
"Eu ainda posso esperar que você me olhe um dia?", completou o shinobi da mesma forma que fizera anteriormente. Não queria pressioná-la, mas também não conseguia mais aguentar seu silêncio e a forma como ela lhe olhava, cheia de dúvidas e preocupação nas infinidades esverdeadas.
Ao contrário de si mesmo, Sakura tinha vários por quês para fugir. E assim o fez. Abaixou a cabeça e fez os fios rosados esconderem seu rosto numa nítida derrota antes de se virar de costas e ir embora. O loiro continuou observando a porta pela qual ela havia passado por alguns minutos, talvez até horas, não sabia dizer. Havia perdido qualquer noção de tempo.
Naruto não foi embora sorrindo naquele dia.
A Quarta Guerra Ninja fora apenas um dos acontecimentos grandiosos que fizera os dois shinobis se esquecerem totalmente de qualquer reação estranha que pudessem vir a ter um com o outro. Naruto havia ganhado a Guerra com a ajuda da Aliança Shinobi. Naruto e Sasuke lutaram. Sasuke voltara para a Vila para se recuperar das sequelas da luta, com Sakura curando seus dois colegas de time pessoalmente. Ela estava feliz. Tudo podia voltar ao que era antes. Pelo menos era o que achava.
Sasuke foi embora mais uma vez. Da primeira vez, ambos Naruto e Sakura, sentiram como se ele levasse um pedaço dos dois com ele, mas agora era diferente. Não havia mais o drama nem o ódio. Sasuke precisava daquela viagem para se redimir e seus colegas de time eram perfeitamente capazes de entender aquilo. Claro que queriam o amigo por perto, mas tudo era ainda muito recente para que ele tivesse alguma paz em Konoha. Pensando no melhor para ele, deixaram-no ir.
Sakura, particularmente, teve muito o que pensar sobre a segunda partida de Sasuke. Era óbvia para todos a mudança de seus sentimentos pelo Uchiha. Ela era uma garota boba e insegura que viu em um menino bonito, habilidoso e com nome de peso uma oportunidade de ser alguém além da menina fraca e testuda que insistia em achar que era. Àquela altura, ela sabia muito bem de seu valor individual e não se apoiava mais na ideia infantil de que precisava de alguém para existir. Sakura havia crescido. Sakura amava Sasuke. Sakura amava Sasuke como a um amigo.
Mais uma vez, era apenas Naruto e Sakura. Dois anos após o fim da Guerra e ainda era Naruto e Sakura. Naruto e Sakura almoçando e/ou jantando no Ichiraku. Naruto e Sakura ajudando Konoha a se reerguer. Naruto e Sakura em missão para estabelecer conexões com outras Vilas nesses novos tempos de paz. Naruto e Sakura passeando sobre a nova ponte de Konoha, que haviam ajudado a construir.
Os dois observavam como a Vila em que cresceram se reconstruía e sorriam de forma serena, como se um grande fardo houvesse saído de seus ombros. Não havia mais qualquer ameaça mundial à espreita, ou preocupações sobre amigos morrendo ou deixando a Vila por vingança. Estavam em paz e tranquilos.
Até Naruto perguntar de novo.
"Eu ainda posso esperar?"
Sakura já esperava por aquilo. Ela sabia que assim que tudo estivesse em seu lugar, ele se daria uma última oportunidade de perguntar. Ele havia cumprido sua promessa, afinal. Além disso, ele havia salvado o mundo. Com ajuda de todos, mas era inquestionável seu protagonismo no ato heróico. Sakura estava orgulhosa dele como nunca estivera antes, mas aquele não era o momento de deixá-lo a par disso. Resolveria aquilo de uma vez por todas.
"Eu ainda posso esperar que v..."
"Não", a kunoichi disse de forma categórica antes que Naruto a despedaçasse novamente com aquela austeridade indigna dele. Os olhos esmeraldas nunca pareceram tão incisivos e determinados na resposta que dera, o que fez Naruto entender aquela como sua resposta final.
Então era assim que tudo terminava. Não a amizade dos dois, é claro, Naruto nunca seria idiota o suficiente para deixar de ser seu amigo por ela não corresponder aos seus sentimentos amorosos. Ele não tinha o direito de decidir por ela quem ela devia amar ou não. Afinal de contas, ela ainda devia esperar por Sasuke. Ele podia entender. Da mesma forma que seus sentimentos por ela nunca mudaram, os da garota pelo seu melhor amigo também não o fizeram. Tudo que o loiro podia fazer era torcer para que o teme voltasse logo e a fizesse feliz finalmente. Ela merecia.
Naruto estava pronto para ir embora, novamente sem um sorriso, porém foi interrompido pelas palavras firmes da garota.
"Não, você não pode esperar nem mais um segundo", Sakura disse com uma calma que não esperava ter quando finalmente falasse para Naruto o que precisava. Eles haviam passado por tanta coisa juntos que aquilo não parecia um bicho de sete cabeças. "Eu já te olho, Naruto".
As orbes azuis do shinobi contrastavam com os verdes calmos da kunoichi. Ela nunca vira olhos mais expressivos do que os do amigo, e era um tanto viciante tentar adivinhar todas as emoções que passavam por eles. Aqueles olhos antes tão estúpidos haviam se tornado sua obsessão.
"Sakura-chan...", ele tentou começar. Não esperava por aquilo nem em seus mais profundos sonhos, então não tinha ideia de como prosseguir. Entretanto, não precisou pensar demais. As mãos gentis de Sakura rodearam as bochechas riscadas, dedilhando cada marca com a ponta dos dedos. O sorriso que ela lhe direcionou era ainda mais lindo que todos os que ela direcionara a Sasuke. Era sincero e cheio da nova afeição que ela havia criado por Naruto, aprendendo a amar cada uma de suas manias bobas, seu jeito idiota e aqueles olhos azuis que ainda a encaravam assustados, felizes e, mais importante, recíprocos.
Aquele foi o primeiro beijo de Naruto e Sakura. A notícia, é claro, se espalhou com rapidez por Konoha. O herói da Vila e a maior ninja médica de sua geração estavam namorando. Não foi tanta surpresa para quem via os dois de fora. Eram sempre Naruto e Sakura e sempre seriam Naruto e Sakura juntos, como a Terra e o Céu se juntavam no horizonte.
Naruto e Sakura foram embora sorrindo naquele dia. Sorrindo e de mãos dadas.
Eu vejo você.
Eu vi você pela primeira vez me superando com apenas uma pedra. Naquele rio tranquilo, que nada parecia com o mundo que nos esforçávamos em ignorar, enquanto seguíamos a correnteza com nossas risadas bobas. Você não me disse seu sobrenome pois era muito perigoso enquanto shinobis. De você eu só sabia o primeiro nome e o gosto peculiar por cortes de cabelo cafonas. Mesmo assim, eu senti a nossa conexão de pronto. Soube que você também sentiu apenas por olhar nos teus olhos escuros antes que fosse embora.
Eu vi você chorar à beira das águas. Tudo estava tranquilo ao nosso redor, naquela bolha de paz que criamos para nós mesmos, mas eu podia sentir o caos que assolava seu interior. Você havia perdido um dos seus e mais uma vez nos conectávamos, pois eu entendia perfeitamente a sua dor. Eu te expus minhas convicções e sonhos e você partilhou deles junto a mim. Éramos duas crianças tolas que queriam o fim das conturbações do nosso contexto, para que todos pudessem viver como nós dois em frente àquele rio; sem sobrenomes, sem passados, sem barreiras que nos dividissem.
Eu vi você planejar um lugar de paz. Um lugar aonde crianças não seriam mandadas a campos de batalhas para sua morte e aonde todos conviveriam pacificamente. Eu te chamei de idiota por ser o único a falar sobre essas coisas. Eu também era um idiota por concordar com você.
Eu vi o desespero nos teus olhos, malditos e expressivos olhos, quando eu despedacei nossos ideais com duras palavras. Os meus olhos, malditos e escarlates olhos, despertaram da escuridão recém aflorada em meu âmago pelo peso do teu sobrenome. Nós nos despedimos não só um do outro, mas do pouco de plenitude da qual usufruímos por algum tempo, mesmo sem termos este direito.
Eu vi você crescer a cada luta que travávamos. Ao contrário de mim, você não carregava ódio em si, você não tinha raiva em suas feições mesmo quando me atacava. Você era superior a tudo isso, mas eu não. Eu não podia deixar para trás o sangue dos meus. Eu me afogava no limbo da morte do meu último laço, cujos olhos tornaram-se parte do meu poder. Eu queria acabar com aqueles que me proporcionaram essa dor, eu queria destruir tudo o que você representava para mim, eu queria seu fim. Eu odiava os seus, mas odiava mais a mim mesmo por ainda não querer ser o responsável pelo seu último suspiro.
Eu vi você me derrotar e quase dar a sua vida pela minha no mesmo momento. Vi suas lágrimas porque o caminho que trilhamos lhe era doloroso demais. Por mais que eu tivesse tentado calar as suas palavras tolas, você me derrotou de novo. Eu perdi. Eu perdi pois não suportaria te perder.
Eu vi a sua felicidade ao finalmente ter seus sonhos realizados. Aqueles estúpidos ideais que eu havia enterrado em mim mesmo abaixo de todo o ódio finalmente haviam alcançado sua superfície para transbordar e contaminar todos ao nosso redor. Era bem verdade que eu não tinha mais ninguém para proteger. Mas eu não me importava de tomar para mim a missão de lhe fazer sorrir. A felicidade cabia tão bem ao seu semblante que me arrependi de todo o tempo que evitei nossa harmonia.
Eu vi como você lutou por mim e pela força do meu comprometimento para/com você e nosso lugar especial, que havíamos planejado para nós dois e nossos povos. Porém a negatividade emanada do seu braço direito era mais forte. "Qual de nós você mataria pelo bem da Vila?", eu questionei. "Cooperar é apenas uma forma silenciosa de conflito", eu declarei. E assim fui embora. A batalha subjetiva que eu havia perdido para você antes voltava à tona e nublava meus julgamentos. Eu já havia descumprido a promessa de proteger aquele que me era mais importante. E mais uma vez eu fracassava na missão de garantir a paz de alguém que eu amava.
Eu não te vi quando você finalmente acabou com a minha agonia tirando a minha vida. Você me pegou de surpresa, mas foi importante para me fazer perceber que você havia mudado. Seu legado e nossa... Ou melhor, sua Vila... era prioridade diante das adversidades impostas a você pelo seu caminho. Eu te disse que isso o levaria à escuridão, e assim aconteceu. Nossas reencarnações ainda lutam e nossos ideais foram deturpados. Eu fui deturpado por forças maiores que eu. No final, nós dois almejávamos a mesma coisa, porém de formas diferentes. Nem eu e nem você estávamos certos, mas isso não importava. Acabamos fazendo tudo errado de qualquer maneira.
Eu vejo você, Hashirama. Mesmo agora, eu vejo você. Eu estou prestes a mergulhar novamente na escuridão do fim para pagar pelos meus pecados, mas você ainda está com essa cara de idiota que sempre teve na minha frente. Você diz que agora podemos trocar copos como companheiros de guerra. Como sempre, tão ingênuo. Você sempre foi um cara otimista, e talvez eu devesse ter trilhado teu caminho. Talvez eu devesse ter me deixado guiar pelas tuas filosofias.
Mortes nem sempre são gloriosas, Hashirama, nenhuma das minhas certamente foi. Mas morrer ao teu lado, tendo os teus olhos, os teus malditos olhos, como a última coisa que vejo e tua voz modelando as últimas palavras que ouço no mundo terreno me faz me sentir menos miserável. Todo o mundo agora paga pelos meus erros e impulsos, mas o peso disso tudo eu deixo para depois. A minha prioridade é você. Porque você é tudo que eu vi desde que te conheci. Você é tudo que vejo.
Eu vejo você, Hashirama. Mesmo no meu leito de morte, eu vejo você.
Eu queria o nosso.
Eu não queria reciprocidade. Ela era tentadora, mas não essencial. Eu não queria realmente me impor a você, apesar de ter tentado chamar sua atenção algumas vezes. Eu não queria mudar sua trajetória para que se adequasse à minha. Eu não queria desrespeitar sua individualidade e nem seus objetivos. Eu não queria me tornar um incômodo e perder meu valor ao seu lado. Também não queria suas lágrimas, nem sua dor, puramente pelo fato de doer em meu âmago talvez ainda mais profundamente. Não queria nada que fosse seu; queria o nosso. O nosso caminho, o nosso destino, o nosso objetivo.
A graça de nós dois é que éramos iguais. Éramos distorcidos em um mundo controverso aonde os arrogantes achavam-se diferentes. Admitíamos nossas bagunças e nos deixávamos guiar por elas. Éramos quebrados e os pedaços não paravam de cair, porém eram eles que definiam nossa trajetória e marcavam nosso passado como nosso. Éramos insanos, desordenados e caóticos. Mas éramos nós. Estávamos juntos.Você me levantou e eu te levantei. Você meu deu à vida e eu te dei a vida. Você me ajudou a ser quem sou e eu te ajudei a ser quem quis se tornar. Eu estive ali até não estar mais e não me arrependo disso.
Porque eu não queria nada que fosse seu. Queria o que fosse nosso. Queria o sorriso escondido atrás da dor. O sorriso que faríamos transbordar. O nosso sorriso.
Eu não queria nada que fosse seu. Mas queria o seu sorriso para mim.