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@nopordosol
Não se sinta mal por mim. Eu quero que você saiba do fundo do meu coração: eu ficarei tão feliz em partir.
The Smiths.
Há sempre um motivo pra ficar quando o amanhã é apenas saudade.
Elisa Bartlett.
eu não sei te escrever sem chorar
mas o sentimento aqui não é tristeza, eu não sei, tudo em você me emociona e quando penso em escrever sobre algo, eu choro. tem muita coisa na minha cabeça que não faz sentido, como o porquê de eu passar batom desde o nosso primeiro encontro mesmo quando sei que sabemos que na primeira oportunidade vou tirar ele pra poder te beijar sem que algo atrapalhe a sensibilidade dos meus lábios. te sentir é a melhor coisa do mundo. desde que você me disse pra tomar mais cuidado ao atravessar a rua, eu tenho olhado pros dois lados mesmo quando um é contramão. estranho, eu nunca liguei se às 18h da noite alguém me atropelasse na avenina principal. isso me fez pensar que talvez eu queria viver, que talvez eu queria desfrutar de tudo o que você me permitiu conhecer de mim mesma e do mundo. amor, eu não quero mais ser atropelada às 18h da noite nem em nenhuma hora de qualquer dia, eu não quero porque sei que na morte não existe o nosso sorvete de baunilha aos sábados, nem a nossa dança no shopping, a morte não tem os teus olhos nem a tua voz mansa que fica e me enrola no cobertor quando chove forte demais pra que eu possa dormir. você não tem nada a ver com morrer.
ps: eu comecei a chorar na primeira linha e não consigo enxergar nem diferenciar ponto de vírgula
“porque o passado me traz uma lembrança do tempo em que eu era criança e o medo era motivo de choro, desculpa pra um abraço ou consolo”
As Virgens Suicidas (1999)
eu vou te guardar de uma forma bonita límpida, mas conturbada vou te querer quando a noite apertar os meu sonhos e o dia insistir em ser azul.
eu só queria ser a linha tênue que separa teus lábios dos meus.
Retrocesso
amputei minhas memórias recentes; reconstruí o silêncio no fundo do poço; salvei o gado da histeria; corrompi o movimento dos pássaros; apreciei a maestria dos anos; desatei o nó do passado; e continuo usufruindo da criação ininterrupta de um choque verbal.
Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro. Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a ideia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje. O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia.
Clarice Lispector.
Li três textos hoje. Os três falavam de tédio e tristeza. Os três falavam de lágrimas, solidão e vazio. Talvez, eu tenha mencionado todos esses fatores nos meus últimos textos. E nos meus primeiros também… Mas é que todos os seres humanos tem algo em comum: a existência. Fria e transmissível como um gripe, de fato. Hoje, além do três textos tristes, eu vi também um ambulância de maternidade, com a sirene ligada, provavelmente com uma moça em trabalho de parto dentro. Sorri. Gostaria de estar lá dentro com ela. Partos. Eu odeio partos. São poesias sendo expelidas do corpo, com mini perninhas, às vezes desejadas, às vezes não, assim como eu. Todos os bebês são pequenas metáforas antes de escreverem seus próprios textos tristes, assim como eu. Mas gosto de pensar que aquela mulher cresceu, sonhou, amou e alimentou dentro de si o desejo de ser mãe. Gosto de pensar que ela estava gritando de dor, com as pernas abertas para estranhos, absurdamente vulnerável, porque tem que ser assim, assim como eu, você, nós. Dou à luz a tantas coisas tristes: tédio, lágrimas, solidão e vazio. Todos os dias estou com o coração crescido, esperando algo me explodir e querer sair por todos os buracos vulneráveis e atraentes da minha alma. Eu penso na minha mãe, coitada, parindo algo que ela jamais quis parir. Vomitando sua poesia incompleta ainda, gritando de dor, sangrando, igualando-se a um animal, tão nova, tão bonita, envergonhada de suas entranhas, envergonhada de seu ventre expelir algo tão clichê quanto, adivinhem, eu! Eu gostaria de dizer pra minha mãe que ainda busco completar a poesia que ela começou e não teve tempo de terminar. Ainda busco acordar de manhã e encontrar um sentido pra minha vida. Mães gritam e esquecem da dor com um choro. É a vida em seu estado bruto, cru, nu, bonito. Longas horas de agonia e, no final, um sopro de felicidade que vem em forma de outro choro, envolto em sangue, visceral, minúsculo, o primeiro texto triste da vida de um novo ser humano. Partos são metáforas lindas. São reais. Mamãe abraçou sua metáfora incompleta e me amou com todas as forças que tinha. (Entendo que ela tinha poucas forças. Eu também sou fraco. Mas amo mesmo assim. Eu sei como é). Mamãe amou sua obra incompleta, como uma criança que ama um desenho feio, como uma adolescente que se apaixona por um cara errado na escola, como um idiota que escreve textos tristes. Meu choro abafou o choro dela. Agora, a vida era problema meu, meu e de meus textos tristes. Mas hoje, após ver aquela ambulância da maternidade, eu quero dizer algo para a nova metáfora que veio ao mundo… Eu quero dizer, amigo, que essas lágrimas vão cair centenas de vezes e que respirar dói ainda hoje. Mas eu quero dizer também que a gente consegue sobreviver mesmo sendo incompleto. A gente consegue ser feliz, mesmo escrevendo textos tristes. A gente consegue parir centenas de coisas com os buracos da alma, e amá-las, assim como, aos poucos, eu consigo amar a mim mesmo, com toda essa incompletude, essa confusão e essa impotência asquerosa. A gente consegue dar uma pausa na solidão e aproveitar a companhia de alguém, a gente consegue esquecer de tudo através do álcool ou da bíblia (o que você preferir adorar), a gente consegue ser feliz fazendo sexo, mesmo que do sexo nasça outra poesia, completa ou incompleta, para preencher o eterno vazio do mundo. O mundo, inclusive, lê suas poesias rápido demais. É incessante. Então, amigo, você não é o último cara da terra. Você não é o único texto triste que li hoje. Eu quero dizer, amigo, que hoje eu vi uma grandalhão passeando com um filhote de cachorro na rua. Hoje, eu fiquei feliz porque você tava chegando! Dá pra ser feliz, entende? É difícil, mas dá. Dá pra ser feliz, amigo. Você consegue amar até mesmo aquilo que dói. Olha pra sua mãe e vê como ela tá chorando enquanto te olha. De dor ou de felicidade, que seja. Mas ninguém escuta o choro dela, apenas o seu. Não esquente com isso. Os choros abafados, uma hora, serão os seus. Os choros do seu velório serão mais altos do que a sua tristeza velada. Mas por enquanto, pequeno amigo, este texto não é um texto triste em sua homenagem.
Cinzentos.
vi teu sorriso de longe
não pude deixar de sorrir por dentro
queria não sentir tanto eu sinto demais por tudo só sei transbordar sentimento
perdão por eu ser tão pouco
Às vezes não é só o café requentado num refratário barato nem a tela da escura da televisão cheia de impressões digitais não é teu vizinho comemorando um gol ou qualquer outra merda nem o porteiro te avisando que tua encomenda chegou não é aquela pessoa que te machucou de maneira irreversível ou aquela que te pergunta se você tem horas com o sol a pino não é o último gole de conhaque que fica preso na garrafa ou o pijama improvisado com qualquer moletom rasgado não é aquela promessa quebrada pelo teu arquétipo fraco nem a centésima tentativa de se acertar com o vibrador não é aquele talk show que destila gramáticas fora de uso ou o manual de boas maneiras da tua avó não é o último episódio da tua série predileta nem a explosão do bueiro que não acertou tua cabeça não é aquela muvuca ao redor do atropelado ou a solidão plantada de um idoso no globo repórter às vezes é só um maldito nada.
Brunstein