Feliz 2000 e sempre.
Talvez, eu devesse começar a escrever dizendo que a virada do ano foi uma porcaria. De fato... É, de fato. Em 2014, no exato momento dos fogos de artifício, eu estava sentado embaixo do chuveiro, chorando como uma criança ou um cachorro medroso. Porém, uma parte dos donos de cachorro resolveram passar o ano novo em casa pra consolar os bichinhos. Uma parte dos pais de crianças medrosas colocaram seus filhos para dormirem mais cedo, ou simplesmente forneceram um abraço e suportaram os gritos. Eu sou uma espécie de retrocesso e a exata cópia daquilo que jamais me atingiu. Fogos de artifício e uma população inteira me assustavam. É curioso como o passado vira uma espécie de cinema bizarro, e a vida me ensinou que ser humano é ser justamente isso: passageiro e fluído como a água que caiu do chuveiro e dos meus olhos naquele dia. Eu era uma criança medrosa e ainda sou um adulto medroso. Chorei diversas outras vezes em 2015, assim como tomei banho também. Porém, nada tão dramático e nem tão especial.
Dezembro de 2015.
Depois da tragédia natalina de todos os anos, eu jurei que meu ano novo seria um pouco melhor. Lendo e vivendo uma vida que não é minha, estaria online vivendo uma vida que não é minha, estaria dormindo e sonhando com uma vida que não é minha. Qualquer coisa, menos chorar embaixo do chuveiro, porque seria como colocar pra rodar um filme que eu já não tenho mais o menor interesse e já ensaiei o final em tantas outras viradas do ano.
Alguns dias antes, eu tinha decidido só chorar mesmo. Na cama, no chão, em qualquer canto, menos no chuveiro. Era um progresso.
Não sei o motivo certo de ter aceitado passar o ano novo com você. Não foi por amor e nem por necessidade de convivência, porque dia 1 eu estaria te amando do mesmo jeito, porém, teoricamente, teria evitado passar pela dor da solidão acompanhada que evito sentir em todo reveillon ou festa universal de felicidade carimbada. Sua mãe, seu padrasto, seu irmão, comida, calor. Péssima ideia. Pensei comigo mesmo que meia noite e cinco eu estaria em casa e iria direto chorar no banheiro. Eu sentia que não fazia parte da minha própria família, imagine da sua. É uma sensação terrível, verdadeiramente terrível. Inadequações. Eu não suporto inadequações, e eu era um desencaixe. Eu amo a sua mãe, principalmente pelo fato dela ser sua mãe e ter cuidado de você o quanto pode enquanto eu estava perdido no mundo. Mas o fato de gostar da sua mãe faz com que eu me sinta incomodado com o fato de tentar e não conseguir gostar tanto da minha assim.
E a comida estava deliciosa. Tirando as gororobas verdes, é claro.
Meu olhar petrificado e meus constantes suspiros fizeram seu coração se inquietar, eu sei. Ele não está gostando. Ele não está gostando de ficar comigo. Ele não está gostando de estar aqui. Não, amor, eu não estava gostando de nada, mas é meio que essa a minha função no mundo. Reclamar da casa, reclamar do ambiente, reclamar da companhia, reclamar da roupa, até chegar o momento em que eu reclamo com meus órgãos, meu sangue e minha alma. Eu via em você o mesmo desespero que minha mãe sentia nas viradas de ano. “Ele não está gostando, eu não sei mais o que fazer com esse menino”. É, o passado: ele sempre volta. E eu ali, só querendo que voltassem todas as pessoas que eu deixei passar no ano que estava morrendo. Eu me perguntava, inclusive, o motivo da vida continuar após o ano morrer. Não deveria ser assim. Imagina que mágico se todo mundo tivesse apenas um ano de vida, como a merda de uma mariposa. Imagina como os meses e os segundos iam doer na nossa carne. Imagina como as lembranças se intensificariam e todo mundo precisasse comemorar as horas de vida, sendo ela boa ou ruim, assim como comemoramos o ano. Não vejo sentido em comemorar o ano. Não morremos junto com ele. Ano que vem tem tudo de novo. Mas nada, absolutamente nada, volta a ser como era. É uma constante mudança de rotina. Eu amo rotinas, mas odeio quando elas são interrompidas por fogos de artifício e depois reorganizadas. Daqui a pouco seria janeiro novamente. E eu nem tive tempo pra chorar embaixo do chuveiro.
As cervejas: você pensou nas cervejas. Álcool talvez fosse bom. E foi, de fato. De repente, eu estava melhor. Eu não estava mais detestando nada além do gosto amargo da cerveja. Eu só estava bem. Não feliz, mas bem. Adoro dizer isso.
E quando descemos, levemente tontos (eu mais do que você, talvez porque meu corpo precisasse se agarrar mais ao pouco álcool do que o seu), para deitar no chão do seu prédio, eu me senti bem. Pensei em todas as coisas que eu odiava no ano novo e continuo odiando: a necessidade de sermos todos felizes, as pessoas embriagadas, os parentes distantes com aquela piadas sem graça e com as eventuais brigas entre eles. As comidas com sabor de vida adulta, os corpos brancos manchados de champanhe, os amigos distantes e os malditos fogos de artifício.
Olhei em volta. É, não estava nada lá. Só cervejas e a lua. Você virou pra mim e disse que era ótima a sensação de imaginar os prédios caindo em cima de você quando se deitava no chão. Eu sorri. Te chamei de louca? Não lembro. Não tínhamos a menor necessidade de sermos felizes. Estávamos tontos e os únicos parentes que vinham a minha cabeça eram os futuros filhos que eu quero ter com você. Não tínhamos a menor necessidade de sermos felizes. E se quer saber, nem poderíamos. Você e eu sabemos o motivo, mas nenhum consegue contar ao outro que preferiria estar morto, independente de todo o amor gritante e obrigatório que tentam nos oferecer. Não gosto de imaginar o prédio caindo em cima de você, mas respeito a sua tristeza, e você respeita a minha. Não havia nada ali além de mim, de você, das cervejas, da lua e do porteiro... Tive a sensação de que o mundo inteiro se esvaziou. Desceu pelo ralo do banheiro do meu quarto, há um ano atrás.
E quando brincamos no parquinho das crianças, descalços e rindo feito dois idiotas, eu lembrei de quando eu brincava sozinho no parquinho da escola. Lembrei de tentar brincar de gangorra sozinho. Lembrei de que todo mundo descia pelo escorregador quando eu finalmente conseguia chegar até a casinha. Lembrei do barulho horrível que fazia o balanço da antiga casa do meu avô e de como eu sentia medo de tudo aquilo. Medo da solidão e da inadequação, principalmente. Lembrei de como foi duro crescer.
Não crescer, na verdade. Eu ainda sou uma criança medrosa.
Enquanto você brincava na gangorra comigo e eu ria alto, enquanto observava de rabo de olho a maioria das janelas do prédio fechadas. Era um riso de desespero, uma risada engasgada, ainda que um pouco alcoolizada, uma risada em cima da inexistência e do vazio enormes dentro do meu peito. Dane-se se eu não cabia mais no balanço. Você brincou de gangorra comigo, era o suficiente. Inclusive, sua risada é linda. Seus pés sujos de areia são lindos... E o beijo que demos embaixo da casinha foi lindo. Crescemos, não crescemos? E tudo bem em sermos adultos tristes que brincam no passado vez ou outra. O meu passado é triste e o seu tem gosto de remédio. Pela primeira vez na vida, eu senti vontade de comemorar sim o ano novo. Eu gosto de comemorar minutos, você sabe disso, e não anos. Dia 31/12 eu estava brincando num parquinho, e eu estava feliz. Senti vontade de comemorar, assim como senti vontade de comemorar pelo dia em que deixei você entrar na minha vida cinzenta. Comemoramos o ano novo vendo os fogos de artifício da janela do seu apartamento, enquanto eu dava abraços falsos e desconfortáveis nos seus parentes e tentava ligar para os meus (em vão). Enquanto champanhe era aberto, eu pensava que nada importava. Era muito bom não se importar com nada.
A lua estava linda e me chamou mais atenção do que os fogos. Dia 01/01/2016 eu consegui prestar atenção na Lua e tentei encontrar a estrela que mais brilhava no céu, independente do barulho da felicidade que a raça humana produzia em forma de luz artificial. Você falou que se identificava com a Lua porque não tinha luz própria, assim como ela. Sua falsa luz resplandeceu em mim naquela noite. E eu acredito que ela tenha sido o suficiente. O gosto da cerveja na minha boca tinha sumido. O medo também... Eu continuo odiando o momento do ano novo, e eu vou sempre dizer que acho tudo uma porcaria. É provável que eu chore embaixo do chuveiro muitas outras vezes. Mas dessa vez, eu nem vi o ano passar. Percebi que, ao seu lado, talvez, eu nem percebesse a morte chegar. O prédio poderia sim ter caído naquele momento. Ele poderia. E estaria tudo bem. Nada mais importava, nada.
Dessa vez, finalmente, alguma coisa virou esse ano. Virou amor, enfim.
(Cinzentos)