Atenção
Saiba que questiono muitas coisas postadas aqui, leia tudo, mas desconfie.
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Atenção
Saiba que questiono muitas coisas postadas aqui, leia tudo, mas desconfie.
lésbica era a coisa mais importante que eu costumava ser, mudar isso, matar isso, transformar isso, dói.
As vezes dá vontade de deixar de existir
eu sei que você deseja estar nas fotos que eu não posso aparecer
dói demais acreditar que eu preciso me esforçar mais um pouquinho
só mais um pouco
só mais um segundo
as vezes eu sinto que você vai ficar comigo por pena
condescendência programada
pronto para sofrer
benevolência disfarçada
sentir que você sente pena
é o que me faz crer
que eu nunca vou ser forte para nada
e nem você vai ser
falta energia para reagir
e vontade de crer
a gente vai continuar
na dificuldade louca
que aqui impera
e você vai me acompanhar
nos obstáculos escuros que a vida leva
e saber que você vai estar aqui
é um alívio para poder sorrir
em paz
corpo estranho
matéria estranha
e cada dose que me fasta de você
vai aos se aproximando de mim
cada sorriso que eu tenho ao redor
é a sepultara do que já foi de nós
meu reflexo que chama, chama
hoje é brasa forte o que já foi
às vezes da vontade de morrer.
assim passa logo essa angústia.
não passa?
Pulso/Grão de areia
a repulsa pulsa em cada centímetro
escorre pela pele e entra na veia
você sente pelo futuro o que eu sinto pelo meu corpo
não tem cura, o remédio ajuda,
mas não tem fuga
pulsa, pulsa, pulsa
bate, bate, bate
arde, arde, arde
é como um ácido corroendo a minha pele
mas você ama, cada centímetro vago dessa identidade que não existe mais
escorre pela suas mãos como uma porção de grãos de areia
e eu sou como cada pedacinho dessa imensidão que as partes formam
tentando me juntar, tentando me achar, tentando me encontrar
para só assim
ser inteiro
5 anos de solidão
O que você fez nos últimos cinco anos? Eu passei tentando ignorar quem eu sou Não pensar para viver Apagar e esquecer
Não dá pra escolher e reiniciar Fechar os olhos, não poder falar
Você já tentou se machucar? Se rasgar até sangrar e esquecer
“Eu não posso mais ignorar que eu sigo me sabotando ao acordar fingindo estar tão bem”
Fracassei
Você já sentiu dúvida, você já esteve numa dúvida tão gigante que só sobra a angustia? Um erro, um fracasso ambulante, um meio termo esquisito, uma vontade de não existir
Ignorar, tentar esquecer, fechar os olhos e não pensar, nunca pagar pra ver Se eu contar outra história isso vai passar Se eu me esforçar um pouco não vou mais sentir Se eu esquecer de mim só vai melhorar Pensando em outra coisa sem poder sorrir
Dissociação, crise, raiva, irritação Arde demais sem explicação Um corpo que não é meu
A F L I Ç Ã O
Something Wrong With Me
Eu me sinto um fracasso É como estar preso em um meio termo infinito Não se ver provoca dor Se ver provoca dúvida
Que porra eu sou? É sério, eu só queria saber que porra eu sou Ansiedade ansiosa A dúvida toma conta Que porra eu sou? Porque tem tanta coisa errada comigo?
Não é só um relato de alguém que nunca gostou do espelho É um relato de alguém que quer explodi-lo Eu falo sério Que porra eu sou?
Dissociação, ilusão, confusão, marcas estranhas, feridas abertas, dor infinita, cansaço extremo, todo dia a mesma coisa, todo dia a mesma pergunta
QUE PORRA EU SOU?
Alguém ainda me lê por aqui?
EU NÃO POSSO SER A PROVA VIVA DAS SUAS TEORIAS DE GÊNERO
Porque não destransicionei
Pensei muito se eu deveria escrever esse texto e se deveria publicar, ainda não tenho certeza se é uma boa ideia.
Acontece que esse é um tema que se torna cada vez mais visado para pessoas que se interessam em destilar transfobia por ai e criticar as tímidas conquistas alcançadas pela população trans. E por um bom tempo acreditei que a única forma de ser alguma coisa que não fosse homem trans “binário” fosse negando meu passado como homem trans e me juntando ao coro das pessoas que criticam a transexualidade (gente que provavelmente nunca entrou em contato com essa comunidade. E por contato digo olho no olho, ao vivo e a cores).
“Pessoas trans”, sempre é falado e entendido como um grupo homogêneo, a pessoa conhece uma única pessoa trans e acredita que conheceu o grupo e sabe alguma coisa sobre ele.
“Pessoas que destransicionaram” também é visto como um grupo homogêneo, não sei nem dizer se de fato é um grupo, não sei dizer se existe algo em comum entre essas pessoas sem ser o sofrimento em relação ao gênero. E não se pode dizer que isso seja específico desse grupo, muita gente sofre em relação as caixinhas que nos são impostas, cada pessoa reage a esse sofrimento de um jeito diferente.
Eu era militante do movimento de homens trans e o que acontece é que quando comecei a questionar a transição e manifestar meu incomodo e dúvidas, virei o vilão da história, e assumi esse papel. É preciso entender o por quê, o papel do militante infelizmente não é questionar, mas sim lutar por algo que foi definido e discutido coletivamente. Esse era o meu papel (e acredito que ainda é o papel de muitos outros homens trans), mas nunca consegui lidar muito bem com correntes prendendo minhas ações e pensamentos.
Então virei o vilão da história e aceitei de bom grado esse papel, pensei com meus botões, talvez o vilão afinal tenha muito mais liberdade que o herói, que a pessoa com história de superação, que a pessoa que serve de exemplo, etc e tal. Porém ainda não estava pronta para caminhar com meus próprios pés, procurei outro grupo no qual poderia me apoiar. Pessoas desajustadas não existem fora de grupos, vocês já pararam para pensar nisso?
Na internet é tudo mais simples, mais rápido e muitas vezes falseia a realidade. Logo me colocaram em vários grupos de feminismo radical e fiquei feliz de pensar que pela primeira vez na vida eu fazia parte de um grupo só de meninas. Talvez eu fosse menina afinal. Talvez desse grupo eu não fosse o inimigo. Talvez agora essas mesmas meninas parassem de apontar o dedo para mim e dizer “opressor”, “macho escroto”, “misógino”. Por que para mim era importante que essas meninas não me vissem como inimigo? Não sei dizer. Não sei se vale a pena tentar responder.
Bom, como homem trans eu estava acostumada a encontrar outras pessoas trans presencialmente, seja em eventos, seja em reuniões políticas, seja só para passear e bater papo ou sei lá. Acontecia muito pela internet também, mas acredito que o mais importante acontecia fora da internet. Quando comecei a “fazer parte” dos grupos virtuais de feministas radicais, senti a necessidade do olho no olho, do contato. Para mim eu só sentiria que tinha sido realmente aceita ali se sentisse isso presencialmente.
Então eu fui em eventos, saraus, rodas de conversa. E a diferença é brutal, é óbvio que é uma visão minha, narrada a partir do que eu senti e como eu percebi, não deve ser generalizada de forma nenhuma nem deve ser vista como uma verdade absoluta.
Me senti intrusa. Realmente senti que não era bem-vinda e que só seria bem vinda se me explicasse, se dissesse exatamente o que elas queriam ouvir. Senti que estava ali com a função de legitimar uma “teoria”, uma ideia comum. Eu não parecia mulher, estou bem longe de “parecer” “mulher”. Se eu não me explicasse era tratada no masculino, com aquele sutil veneno que tanto me perseguiu durante toda a infância e adolescência, aquele sorrisinho de quem diz, tem certeza que seu lugar é aqui queridinho?
Não, não tenho certeza. E agora tenho menos ainda. Talvez seja algo comum desse grupo, não sei dizer. Talvez seja só uma interpretação totalmente equivocada da minha parte, não sei. Mas quando quis dizer que a diferença da minha entrada no universo trans e na minha tentativa de entrada no universo lesbo-feminista radical, ter sido brutal, o que eu quero dizer é que as pessoas trans me acolheram, em pouquíssimo tempo senti que fazia parte daquele grupo e que era muito bem-vinda. Não foi assim com as radfem e eu entendo, são grupos totalmente diferentes com dinâmicas diferentes.
Mas esse texto na verdade era sobre essa palavra: destransição. Não gosto nem um pouco dessa palavra e muito menos da forma como é utilizada. Destransição da a entender que eu voltei atrás, que eu me arrependi, que errei ao transicionar e que na verdade nunca fui trans. E no começou realmente comprei esse discurso, mas agora, um ano depois pensando e refletindo sobre isso, queria dizer que não acredito que a transição tenha sido um erro. Digo isso sem a pretensão de fazer parte de algum grupo, acho que pela primeira vez na vida simplesmente não me importo em me sentir parte de algum grupo ou identidade.
Minha vivência enquanto homem trans não foi falsa, não foi uma mentira, assim como meu passado enquanto menina desajustada também não foi uma mentira e assim como eu hoje não sou uma mentira. Todos os momentos que vivi, todas a identidades que assumi, tudo o que me transformei ao longo da vida, e isso não se limita a uma questão de gênero, nada disso é um erro. Do que cabe a mim, não me arrependo de mudar, não me arrependo de todas as vezes que me joguei de cabeça em alguma ideia, não me arrependo da minha intensidade.
Mas me arrependo sim dos amigos que machuquei ao longo da minha tragetória, entendendo que muitas vezes a briga é inevitável quando queremos fazer algo que nossos amigos não concordam, mas me arrependo da briga sempre ter sido tão feia, me arrependo de não ter aceitado que muitas pessoas não iriam concordar comigo e que não precisavam concordar e que eu tampouco precisava da aprovação delas e muito menos precisava tentar fazer com que entendessem meu lado quando nem eu mesma entendia direito e quando não tive sensibilidade o bastante para também me colocar no lugar deles.
Veja, mudar requer um certo “egoísmo”, pessoas trans sabem disso, quantas brigas e lutas temos que travar para mudar? De quanta gente a gente tem que se afastar porque a convivência fica insuportável? Pois bem.
Não "destransicionei" no sentido de voltar atrás, talvez tenha tentado, com um saudosismo romantizado de um passado que nunca existiu. Mas não voltei. É impossível voltar atrás. Não quero me perder em explicações. Eu mudei (muitas vezes ao longo da vida aliás), mas dessa vez não foi algo em torno de uma identidade, não foi atrás de me sentir aceito por algum grupo ou em função de alguma luta social. Não ligo mais para como as pessoas me lêem ou o que pensam que sou, não estou tentando ser coisa alguma, finalmente não me importo. Não vou brigar, só não quero mais jogar esse jogo dessa forma.
https://medium.com/@manomedeixa/porque-n%C3%A3o-destransicionei-c9dfb15eebbb
Oi, tudo bem? Eu tenho estudado mais sobre o radfem esses tempos atrás, principalmente no que se trata de transgêneros. Li vários relatos, vi vídeos de radfem, destransição e etc. Mas ainda ficou algo nevoado na minha cabeça. Ao juntar tudo isso, seria correto dizer que homens/mulheres trans não existem ou no caso, não deveriam existir? E mais uma coisa, uma pessoa que faz cirurgia de redesignação sexual aí sim seria considerada pelo SEXO feminino/masculino? Espero resposta. Adorei tudo aqui <3
Pessoas trans existem e sofrem muita violência todos os dias. Eu acredito que em um mundo sem papéis sexuais eu não teria o desejo de transicionar, afinal não existiram mais as categorias sociais “homem” e “mulher” - apenas dois sexos. Estamos muito distantes desse mundo e pra ser sincera acredito que ele jamais ira existir. Mais fácil a terra ser destruída do que o gênero, afinal é ele que nos estrutura enquanto sociedade a milhares de anos.
O que determina o gênero da pessoa não é a opressão, mas a exploração. Mulheres não são só oprimidas são exploradas! Exploradas pelo seu sistema reprodutor que é um fator biológico impossível de ser mudado.
Eu realmente acredito que a transicionar ou não é uma escolha pessoal, eu não estou certa e eles errados. Eu escolhi me manter firme com meu nome e meu corpo por uma série de convicções, mas não é só isso, eu não transicionei também porque eu jamais conseguiria ser um homem sem pênis. Cada individuo encontra seu próprio caminho, eu escolhi sentir outra dor.
O gênero machuca todos nós, sempre.
Eu namoro uma mina maravilhosa e incrível que me enche de amor e respeito e carinho e é de longe o relacionamento mais bonito que eu já vivi na vida. Ela é intersec e eu radical. Ela vem de uma família mega conservadora e cristã do interior, eu sou da cidade grande. Ultimamente ela tem vindo com uns assuntos sobre a autoimagem dela e não aceitação do seu corpo de mulher, e ela reprime muito esse assunto. Como lidar com ela em relação a isso? Tô meio perdida ):
Textos, vídeos e conhecer pessoas que tenham a mesma crise de gênero. Escute, escute mais e fale menos. O auto-ódio surge na ausência do nosso reflexo.
É menos sobre tentar “converte-la” e mais sobre fazer ela se sentir bem, como assim ela desejar.
Respiro fundo, olho pro teclado, dois anos depois e eu preciso contar o que passou.
Não passa, nunca para.
Minha percepção sobre a transexualidade tem mudado muito, espero que a de vocês também.
seu texto sobre a destransição é sensacional, parabéns <3
obrigada!