"'O que devemos é destruir o São Paulo metropolitano'", Luís Gonzaga Alves, Folha da Manhã, 14 de fevereiro de 1954, caderno "Assuntos Especializados II", página 1
Hoje o Uol Notícias trouxe uma reportagem falando dos "prefeitos urbanistas do século 20", que é basicamente um comparativo entre Francisco Prestes Maia e Luís Inácio de Anhaia Melo (que, sim, foi prefeito por dois curtos períodos, no início dos anos 1930). Razoavelmente longo, o texto apresenta as duas personalidades como opostos, sendo que Anhaia Melo é analisado sob um viés mais generoso.
O foco é no modelo descentralizado que o professor defendia, já muito depois de sua administração. Destaco este trecho da matéria:
Em sua opinião, as propostas de Anhaia Melo possuem grande importância e são atuais. "As ideias de Anhaia Melo voltam à tona hoje para enfrentar o colapso da mobilidade urbana, para uma melhor distribuição dos serviços e empregos e evitar esse movimento pendular para o quadrante sudoeste da cidade em que as pessoas levam duas, três horas nos deslocamentos para atividades cotidianas".
O que faltou nessa análise foi a virulenta defesa que Anhaia Melo fazia de uma cidade sem metrô, ainda em 1954. O título da matéria acima, da Folha da Manhã, publicada naquele ano, é um bom exemplo disso, assim como o é uma entrevista que ele dera ao mesmo jornal um ano antes, quando falou que "metrô é coisa do passado". Ou seja, suas ideias não são tão atuais assim, pois, se dependesse dele, não teríamos metrô até hoje. (Por coincidência, Anhaia Melo morreu em 16 de janeiro de 1974, meses antes de o metrô ser inaugurado em São Paulo.)
Seguem alguns dos trechos mais significativos da matéria:
"Ao contrário do que muita gente pensa, os metropolitanos são fatores de congestionamento e um prêmio a expensas da coletividade para a valorização imobiliária." Com estas palavras, o engenheiro Luís Inácio de Anhaia Melo (…) define sua opinião de técnico abalizado a respeito da construção do "subway" paulista.
Considera ainda o professor Anhaia Melo que o metropolitano é, hoje, sob o ponto de vista social e humano, contraindicado. Não se pode mais conceber transporte de gente por buracos, coisa que Lewis Mumford, um dos maiores escritores norte-americanos, já classificou de "Man-Sewers".
Ele prosseguia defendendo que, ao contrário do que se pregava — e se prega até hoje, sessenta anos depois —, o metrô favoreceria os congestionamentos. O motivo para isso é, aí, sim, sua defesa da descentralização urbana da cidade, já que esse meio de transporte incentivaria as pessoas a se concentrar no centro da cidade, em vez de em eventuais centros locais.
Em uma pergunta sobre se ele achava que o metrô deveria ser construído em São Paulo ele foi direto: "Não. O que devemos é destruir o São paulo metropolitano. A resposta parece absurda, mas é lógica e orgânica, o que é fácil de provar." Ele passa, então, a descrever sua teoria, inclusive mencionando que "o problema do transporte coletivo diário de milhões [de pessoas] adquire aspectos de tragédia, (…) empacotando gente como animais em unidades articuladas e outras que tais e despejando, através desses esgotos humanos, toneladas de seres humanos nas terminais".
Não que ele não tenha razão em sua descrição, mas, daí a pregar a ausência de necessidade de transporte público em cidades com 60 mil a 80 mil habitantes, vai uma grande distância. Eu concordo com Anhaia Melo em relação à descentralização, mas já está provado que, após a centralização ocorrer, especialmente de uma maneira tão concentrada quanto em São Paulo, fica difícil revertê-la, senão impossível.
De certa maneira, o problema que temos enfrentado em São Paulo é o mesmo que Anhaia Melo queria combater, "a valorização de áreas urbanas, condomínios, arranha-céus e que tais". Mas ele não podia sequer imaginar que a concentração de pessoas no centro (no caso, o expandido, muito maior do que o centro de sessenta anos atrás) atingiria níveis tão altos quanto os atuais, com empreendimentos sendo lançados em bairros já saturados, prédios com mais de uma centena de apartamentos substituindo casas onde morava apenas uma família e por aí vai.
O metrô não é coisa do passado, não é adiável e tampouco representava um problema urbanístico. Hoje isto está claro. Em 1954, talvez não estivesse. Ainda assim, se São Paulo levaria ainda vinte anos para ter sua primeira linha e sua rede até hoje não alcançou uma centena de quilômetros, Anhaia Melo tem sua parcela de culpa, já que, apesar de nunca mais ter sido prefeito depois de 1931, ele manteve uma grande influência sobre alguns dos alcaides que o sucederam.