De Marchi, o príncipe que virou sapo
Ele caiu do céu, apareceu numa luz branca com asas e tudo, de longe eu o via brilhar em quanto caminhava em minha direção com um sorriso. Sempre animado em me ver, sempre expressando sua emoção. Típico canceriano, demonstrando todo seu afeto. Eramos melhores amigos, riamos muito, conversamos sobre tudo. Ele havia namorado uma amiga antes de ficarmos amigos, até ser matriculado na mesma turma que eu, e essa amiga ir embora.
Ele apareceu em uma época de dor, e foi cura. Segurava minha mão sempre que eu tinha vontade de chorar no meio de alguma aula da matéria mais idiota que fosse, Geografia por exemplo, nunca me dei bem, mas ele estava lá segurando minha mão e me ajudando com o conteúdo. Era como se tudo ficasse mais simples.
Quando percebi estava apaixonada, segurando a mão dele no meio da aula. E quando a professora nos separava de lugar a gente continuava a conversar por bilhetinhos. Um certo dia ele me convidou para cuidar da casa da tia dele que foi viajar. Ficamos sozinhos, mas nem se passava pela minha cabeça que algo poderia acontecer ali, afinal ele era meu melhor amigo, não tínhamos nada. Mas foi ali que aconteceu nosso primeiro beijo, e se encaixou tão bem, melhor que qualquer beijo que eu já havia dado. E embora eu não me orgulhe, já tinham sido vários. Aquele dia ele pensou que havia tirado minha virgindade, e eu estranhei porque ele estava sendo tão cuidadoso e tão lento, mas ainda assim não me importei. Na verdade eu até gostei, conseguia perceber todo carinho e você não queria me machucar isso foi a coisa mais importante. A noite cozinhamos juntos e eu imaginei uma vida inteira ao lado dele, nossa casa, nossos filhos, boba imaginando o casal perfeito ele canceriano carinhoso completava meu capricórnio carente. O sentimento de pertencer a algum lugar. Fui muito feliz aquele dia.
Depois disso a gente não se desgrudou mais. E é claro, começamos a namorar. Não foi surpresa pra ninguém, todo mundo já suspeitava que isso iria acontecer em algum momento. E foi tudo lindo nos 3 primeiros meses como é lindo em qualquer filme de comédia romântica.
No meio do namoro, tive algumas crises por conta da bipolaridade. Mas como já escrevi aqui, eu não sabia do que se tratava na época. Quando eu tinha crises de depressão eu chorava, sentia o medo de ser abandonada por ele, o medo de ser insuficiente. Mas ele sempre me abraçava, me confortava e mesmo que eu não falasse o que estava pensando, ele dizia que eu era linda até chorando.
Mas tudo que é bom dura pouco. Infelizmente existem pessoas que a gente nunca vai conhecer de verdade.
No quarto mês de namoro ele começou a ficar estranho, já não demonstrava afeto perto de outras pessoas, passou a mentir sobre coisas, e ficar extremamente possessivo. Ele ia sozinho pra lugares que combinamos em ir juntos, falava de outras garotas com os amigos, e dava em cima de outras garotas na minha frente como se eu não estivesse ali ou não significasse nada. Não estou exagerando ou sendo possessiva, você já vai entender o que estou dizendo.
Dentro do quarto dele nós eramos um casal, nós nos completávamos, nós eramos um só. E a gente passava o final de semana inteiro dentro daquele quarto. Mas quando saímos, ele se tornava outra pessoa, ele era o Bruno solteiro e eu já não era mais sua namorada. Embora ele pudesse agir dessa forma, eu não podia. Eu não podia sair em lugares sem ele, eu não podia falar sobre outros meninos, nem ser amiga do garoto gay da minha turma, não podia ser amiga do meu primo (que considero como irmão) nem conversar com ele, não podia adicionar meu irmão no facebook, imagina só trovar outro garoto, não. Uma vez ele me deu um mata leão porque eu adicionei alguns desconhecidos no Facebook. Não estou me fazendo de inocente, mas também não estou dizendo que sou culpada. Eu adicionei aqueles estranhos só pra ele sentir o que eu sentia, mas foi muito pior do que apenas sentir. Ele me culpou e eu também.
Durante as crises de Hipomania, a gente acabava brigando. Bom, eu nunca falei que sou uma pessoa fácil de lidar. E durante essas crises eu costumo senti muita raiva, então as brigas aconteciam, mas nunca havia tido violência antes. E como uma adolescente de 16 anos criada na sociedade patriarcal que vivemos, é claro que eu romantizei a violência. Falava pra mim mesma “ele nunca vai fazer novamente, já pediu desculpas e disse que me ama e se arrepende. De qualquer forma eu mereci, não deveria ter provocado.”
Depois do ocorrido, ainda na mesma semana, eu entrei em crise de hipomania. Faltei o estágio e fui para casa de uma amiga. Enquanto eu estava lá, ele me ligou e nós discutimos novamente. Foi quando ele terminou comigo por celular, porque eu estava na casa dela sem permissão dele. Michelle não era muito diferente de mim, mais tarde descobri que ela também era bipolar. Naquele dia, depois de ter sido abandonada por celular, nós enchemos a cara de vodka, nós duas. Michelle namorava um colega nosso de turma, ela ligou pra ele, e perguntou se ele podia trazer um amigo junto, pra me dar atenção. Mais uma vez eu queria me vingar, mais uma vez estava sendo impulsiva e fazendo coisas que eu não queria realmente. Mas eu não conseguia chorar, eu não conhecia outra forma de me livrar da dor, e não tinha ninguém pra me cuidar.
Nesse dia eu transei com um menino que eu nem conhecia, só havia visto ele pelo bairro algumas vezes, mas nada mais. Infelizmente ele mora no mesmo bairro que eu, então acabamos nos vendo mais vezes depois disso. Eu, a vadia, a vagabunda, a puta, que traiu o namorado perfeito, com um garoto massa e descolado que conseguiu pegar a garota comprometida porque ele era muito foda.
É claro que o Bruno surtou, e eu também. Cortei meu braço do início do pulso até o cotovelo. Minha mãe me achou deitada no chão do meu quarto, cheia de sangue. Eu estava me punindo por ter sido uma pessoa ruim e traído o namorado. Bruno “me perdoou”, mas depois disso ele, os meninos da escola e as meninas que namoravam os meninos, sempre fizeram questão de me lembrar quem eu era. Uma vadia.
Em uma viagem da escola, Bruno se sentou com outra garota, a qual gostava dele e deixava isso claro pra todo mundo. Mas eu não podia falar nada, eu merecia aquilo, afinal eu havia traído ele, então a unica vadia ali era eu. No hotel ele encheu a cara e dormiu, confesso que não foi certo o que eu fiz, mas peguei o celular dele em quanto ele estava desmaiado, e fui olhar as conversas. Ele era o príncipe encantado meu, e de mais outras 5 garotas pelo menos. Ele chamava todas de princesa, e dizia como todas elas eram diferentes das outras garotas, como elas eram legais, lindas e como eram melhores que a namorada dele. O que mais me doeu, foi ter visto a conversa com a minha melhor amiga na época, que havia sido transferida de uma escola do Paraná. Eu já tinha percebido a forma como ele se comportava com ela, era a mesma forma que ele se comportava comigo quando eramos amigos e estávamos apaixonados sem saber. O mais difícil foi aceitar que ela não me avisou sobre ele estar dando em cima dela, e falando mal de mim.A viagem acabou, eu passei mal e ele não cuidou de mim. Agradeço a minha amiga que ficou do meu lado o tempo todo que eu estava passando mal.
O tempo passou e continuávamos sendo um casal que se amava e queria passar o resto da vida juntos dentro do quarto dele, e meros conhecidos fora desse quarto. Não preciso falar muito que o sexo era muito bom, sempre foi porque eu estava completamente cega de paixão, e só consigo sentir algum tipo de prazer se tenho algum afeto pela pessoa. Como eu sentia MUITO afeto pelo Bruno, acabava que nada era melhor do que beijar e transar com ele.
As vezes durante crises de depressão, Gustavo passava pela minha cabeça, e eu me perguntava como seria se a gente tivesse se visto, e pudesse se tocar.
Com o tempo eu comecei a ler sobre feminismo, era algo novo pra mim e eu fiquei encantada. Quanto mais eu conhecia sobre o feminismo, mais eu percebia o tipo de relação da qual eu estava presa. Passei a reconhecer os discursos e as atitudes de possessão dele.
Um tempo depois, Bruno veio na minha casa. Coisa que acontecia raramente. Estávamos sozinhos. Como sempre ele havia passado a semana toda distante, e aquele dia era o namorado mais afetuoso do mundo, porque estávamos a sós. Depois de ouvir notificações no celular dele, decidi ir escondida ver o que estava acontecendo. Novamente não digo que estava certa, mas eu era adolescente, problemática e ainda não sabia me relacionar de verdade, ainda estava descobrindo o que é o amor. Peguei o celular dele escondida mais uma vez, e novamente encontrei coisas que não gostaria. Uma garota que não me recordo o nome, mas que ele já avia ficado em quanto estávamos namorando e eu tinha perdoado (sim, isso aconteceu várias vezes), estava perguntando quando eles iriam se ver novamente. Como de esperado eu surtei. Joguei a conversa na cara dele, onde tinha escrito que eles já haviam se visto outras vezes e ela estava ciente de que ele namorava. Mas ainda assim, meu medo de ser abandonada foi maior. Naquele dia eu não consegui chorar novamente. Era a hipomania batendo na porta. Eu estava muito agoniada, sentindo muita tristeza, mas o choro simplesmente não saia. Gritei com ele, mandei ele ir embora. Quebrei o espelho do banheiro com um soco, quebrei o vidro da porta com um soco, quebrei meu celular quando o joguei com toda força no chão. Bruno saiu pela porta me chamando de louca e falando que só iria voltar quando eu estivesse mais calma. Eu estava completamente sozinha. Minha mãe estava no Mato Grosso com o namorado. Quando o choro finalmente saiu, veio acompanhado de um sentimento de desespero por eu estar abandonada e sozinha. Foi quando eu decidi correr atrás dele. Sim, eu corri atrás dele até o encontrar, falei que o amava e pedi pra ele voltar pra casa comigo e que eu estava arrependida de ter sido tão agressiva. Claro que eu não queria dizer tudo isso, eu só não queria estar abandonada e sozinha. Quando ele voltou pra casa comigo, eu enchi a cara de vinho. Bruno tentou me parar mas eu não deixei, ele ameaçou ir embora de novo, só assim conseguiu me parar. Foi quando ele chamou a mãe dele pra nos buscar e levar pro nosso ninho, o quarto dele.
Novamente estava presa na relação mais tóxica que já tive, por medo de ser abandonada e ficar sozinha. Por medo de voltar a não ter um lugar que eu pertencesse.
Eu continuava lendo sobre o feminismo. E conforme a relação continuava, e ele continuava sendo ruim, meu amor por ele foi diminuindo. Foi quando nós estávamos na minha casa, e algum cara me mandou um coração no Instagram. Foi o suficiente pro Bruno surtar e dizer que eu havia traído ele novamente, porque afinal eu era uma vadia traidora. Só que dessa vez eu já havia me emponderado, graças ao feminismo minha reação foi ao contrário do que ele esperava. Ao invés de vitimizar ele e me culpar, eu deixei bem claro o quanto ele era idiota, imbecil e burro por ter feito tudo que eu sentia por ele acabar. Foi nesse dia que eu coloquei um ponto final, e ele saiu chorando. Nosso relacionamento durou quase 3 anos.
E foi assim que o meu príncipe virou um sapo.










