Minha avó rezou...
Não sei como começar este texto. E tenho raiva de quem começa um texto assim. Acho que é uma pseudo-metalinguagem das mais terríveis que eu já vi. É como um filme que começa com o protagonista em uma situação muito extrema e, do nada, a cena congela e uma voz em off diz: "-Você deve estar se perguntando como eu vim parar aqui...". Clichê, cafona e capenga.
Mas, de fato, eu não sei como começar este texto. Vou tentar. Minha avó rezou para poder soltar um pum. Sim. Soltar gases. Provocar uma flatulência. Soltar uma bufa. Aliviar a pressão. Deixar escapar um arzinho. Fazer um ventinho com o bumbum. Afinar o berrante. Acionar o turbo. Romper o silêncio.
Eu peço desculpas (não tão antecipadamente) pelo linguajar que eu usei há pouco. Eu não deveria, de tal maneira me portar com tamanha deselegância para com você, caro leitor que me lê. Peço, novamente, desculpas. Mas não posso negar que eu trago um fato de um flato, uma lembrança pertinente na minha memória. E eu rio toda vez que eu penso. Toda vez mesmo.
Deixe-me explicar. Era o ano de 2003/2004 (não consigo te trazer precisão). Minha avó, devido a um problema estomacal, não conseguia soltar gases. É isto. Acho até que era psicossomático. Pronto. Explicado. A questão é: o que fazer diante de um problema. Você assiste um filme romântico já sabendo que o mocinho vai ficar com a mocinha no final. Zero surpresa. Você só continua assistindo o filme para saber como ele vai fazer isto. É sobre isto que é a vida. Você sabe que encontrará desafios; a grande "sacada" de viver é entender o que fazer com estes problemas.
Minha avó, dona Sônia, vovó Sônia, vovó (como eu a chamava), foi - obviamente - ao médico e voltou receitada com alguns "Luftais". E poderia ser só isso. Mas aí ela sentou à mesa da sala, apoiou seus cotovelos na mesa de jantar, juntou as palmas das mãos com os dedos entrelaçados e pôs-se a rezar. Eu assistira a tudo da sala, quieto, um pouco encantado com o que eu acabara de presenciar. Foi aí que, depois de alguns segundos, ela começou a rir. Mas ria desenfreadamente, sem culpa, com um sorriso.
Sabe aquele sorriso que ilumina uma sala inteira? Aquela risada que faz a gente dar risada? Às vezes, a piada nem era tão boa assim, mas a risada de quem tá do lado da gente é tão engraçada que contamina, sabe?!
Ela, rindo, virou para mim e disse: " -Eu já vi gente rezar para Ele curar câncer; gente rezar para Ele curar de doença séria; mas para peidar eu acho que é a primeira vez..."
É o que dizem: "momentos de tensão pedem medidas mais tensas ainda..."
Eu, de longe, ria junto com ela. É uma das cenas mais memoráveis da minha mente. Não por ela ter dito a palavra peido, pum, ou qualquer outro sinônimo escatológico. Foi um momento especial porque eu vi a minha avó rindo como uma pessoa feliz.
Minha avó perdeu um filho que ela não pôde enterrar. Virou órfã de filho e, nunca, jamais, teve noção do que acontecera com o seu único bem maior, sua razão de viver. Ela carregava dúvidas e incertezas sobre o que poderia ter acontecido, como ela poderia ter evitado, onde ela errou, onde ela deixou de acertar e, principalmente, "o que caralhos aconteceu com a porra do meu filho!". Até hoje isto é um grande mistério para nós. Imagine para ela; imagine a dor que ela sentiu até o seu último suspiro...
Além do fardo que ela carregava sozinha, tinha também outros três pontos que pioram ainda mais a situação: sua mãe (minha bisavó) havia sido diagnosticada com princípio de Alzheimer; seu marido (meu avô e pai do filho que desapareceu) pediu o divórcio - e a trocou pela amante de 20 anos mais nova - e, se isso já não era o suficiente, ela descobriu um câncer de mama (que a levaria embora alguns anos depois).
E o crème de la crème, o hors concours, vovó já não conseguia soltar nem mais um peidinho. Desespero total. De todos os problemas que a vida lhe trouxe, "não conseguir peidar", é, sem sombra de dúvidas, o mais sádico que a mãe natureza poderia lhe proporcionar.
Mas o que vovó fez? Ria! E muito! Muito mesmo! De chorar. A capacidade de rir de si mesmo é destinada apenas às pessoas mais inteligentes que existem. E nem todos que são muito inteligentes sabem rir de si mesmos; mas todos que sabem rir, são.
Minha avó me ensinou muita coisa em vida. Infelizmente só conseguimos dividir doze anos da minha experiência na Terra ao seu lado. Ela partiu cedo, com sessenta anos, em 2005. Dia 14 de Dezembro de 2005. O último dia em que eu a vi foi no dia 12 de Dezembro, aniversário de Silvio Santos, Arnaldo Jabor e Raphael Ghanem.
Eu queria poder estar com a minha avó de novo e rir dela pedindo ajuda para Deus para soltar pum. E não é que Deus a ouviu e realizou seu pedido? Vovó ficou bem, conseguiu soltar seu pum sem precisar passar por nenhum problema maior. De "problema maior" ela estava cheia (assim como de gases também)...
A saudade e a nostalgia que eu sinto hoje são gigantes. Não há simbolismo maior de quem era a minha avó para mim do que ouvi-la rindo enquanto estava apoiada com os cotovelos na mesa de jantar, com as mãos juntas e os dedos entrelaçados, com a cabeça apoiada nas mãos, de olhinhos bem fechados. Segurando o riso, se deleitando com a situação e, claro, me ensinando. Sempre. Minha avó me ensina até hoje, mesmo depois de mais de vinte anos de sua partida precoce do planeta chamado Terra.
Aproveitem suas avós e rezem junto com elas. Outro dia, se me couber a oportunidade, posso lhe contar sobre a vez que eu fiz uma promessa a Santo Agostinho para que ela melhorasse após uma operação (pelas dezenas por que ela passou - e melhorou!).
Mas, hoje, não. A memória de hoje é sobre pum, fé, amor e, claro, vovó.
















