— LOST I WAS BORN, LONESOME I CAME, LONESOME I'LL ALWAYS STAY
* uma velha história fragmentada em : luz do luar atravessando as cortinas , buquês deixados para trás , som distante de um piano , cartas nunca enviadas , giz de cera espalhado pela sala , rosas florescendo na neve , fotografias desfocadas , café frio , óculos perdidos , luzes tocando o chão , desobediência , pegadas na lama.
— 𝒐𝒍𝒅𝒉𝒊𝒔𝒕𝒐𝒓𝒚𝒕𝒐𝒍𝒅 , recontando a história de personagens perdidos em um novo mundo para o rewrittenhqs. escritos por nina (ela/dela, 21+).
𝐈 . belle , a bela e a fera. intro ˖ wanted connections
𝗽𝗿𝗲𝗳𝗮𝗰𝗶𝗼 ⸻ esta é uma antologia de cartas escritas por annabelle rivière em diferentes fases de sua vida. algumas foram entregues, outras permaneceram guardadas. reunidas, não contam uma história em ordem exata, tampouco oferecem uma versão definitiva dos acontecimentos apresentados. são apenas vestígios de tudo aquilo que belle amou, perdeu, temeu.
a primeira evidência que será compartilhada, foi redigida em uma madrugada gélida, durante o inverno de 2016. essa, nunca chegou às mãos de sua destinatária.
PÁGINA I ⠀⠀⠀ ⸻ ⠀⠀⠀ CLARION
Minha querida Clarion,
⠀⠀⠀ Às vezes, penso em tudo o que ainda lhe devo e percebo que jamais encontrarei uma maneira justa de retribuir tantos anos de amizade. Não digo isso com o incômodo de quem carrega uma dívida eterna, mas com o assombro de quem reconhece ter recebido muito mais do que alguém, algum dia, ousou pedir.
⠀⠀⠀ Você está em minhas lembranças há tanto tempo que já não consigo separar algumas delas de sua presença. Quando volto os olhos para o passado, encontro você por toda parte. Talvez seja esse o motivo de sempre ser tão difícil escrever-lhe. Como se agradece por uma vida inteira?
⠀⠀⠀ Você conheceu a Annabelle Belle que falava depressa quando estava feliz, calava-se quando alguma coisa doía e acreditava que uma boa história poderia remediar quase todas as desventuras mundanas. Depois conheceu todas as outras versões de mim e continuou ao lado de cada uma delas, até mesmo das piores, as quais orgulhosamente posso dizer-te que estão bem controladas por enquanto.
⠀⠀⠀ Hoje me recordei de nós duas, em um dia específico dos meus cinco anos de idade. O aperto em meu peito trouxe-me à minha escrivaninha às duas e vinte e sete da manhã. Essa angústia alimenta-se de palavras manuscritas e por isso ponho à sua frente tudo que removeu meus sonhos dessa noite.
⠀⠀⠀ Essa lembrança retorna todos os anos nessa mesma data e hora, trazendo primeiro a saudade da mamãe e logo depois, a imagem de sua casa. Muito daquele dia se perdeu com o tempo; rostos, vozes e cheiros que eu era pequena demais para compreender. Ainda assim, lembro-me das portas abertas para mim e para o meu pai.
⠀⠀⠀ E naturalmente minha Clarion, lembro-me especialmente de você.
⠀⠀⠀ Recordo da nossa festa do pijama improvisada, organizada com muito esmero e entusiasmo por você. Não consegui esquecer que nos escondermos sob a mesa da cozinha para comer bolo de chocolate, convencidas de que havíamos cometido o crime perfeito. Sempre desconfiei que não enganamos ninguém, os adultos provavelmente sabiam onde estávamos e decidiram que naquela noite, precisávamos mais de doçura do que de disciplina.
⠀⠀⠀ Durante muito tempo, senti culpa por guardar uma lembrança feliz daquele dia. Parecia incorreto que a morte de minha mãe dividisse espaço com nossas risadas abafadas, o gosto da adrenalina de comer um doce escondida após o jantar e a segurança de adormecer ao lado da minha melhor amiga. Levei bons anos para compreender que aquela felicidade não diminuía a minha perda, apenas impedia que a dor ocupasse tudo. A descoberta do nunca mais, a única certeza que temos, mas nunca superamos por completo.
⠀⠀⠀ Creio que minha mãe teria ficado feliz por saber que no primeiro dia em que precisei aprender a viver sem ela, fui acolhida por alguém que continuaria cuidando de mim por muitos e muitos anos.
⠀⠀⠀ Por isso não sei como retribuir tudo o que recebi de você. Não sei como lhe devolver cada riso, cada segredo ou cada conselho que minha teimosia me fez ignorar até descobrir que você estava certa, como sempre. Não sei como agradecer à menina que dividiu comigo um bolo muito doce, nem à mulher que desde então, dividiu comigo quase todo o resto da vida. Posso apenas lhe prometer aquilo que você sempre me ofereceu: um lugar onde ir.
⠀⠀⠀ Não importa quantos anos passem ou quantas coisas mudem, haverá sempre espaço para você ao meu lado. Quero que encontre em mim a mesma casa que sua família ofereceu àquela menina assustada.
⠀⠀⠀ Obrigada por ter crescido comigo. Obrigada pela ternura, pela paciência e pela forma como tornou minha vida mais leve sem jamais pedir nada em troca.
⠀⠀⠀ Quando a saudade de minha mãe retorna, principalmente nessa data específica, ela ainda dói e certamente sempre doerá até os dias que minha memória me permitir lembrá-la. Mas junto dela terá você. As lágrimas que derramo neste papel jamais serão de tristeza, a perda também me fez ganhar uma irmã.
⠀⠀⠀ Com o coração mais calmo, posso reafirmar em mais de um milhão vezes: amo você mais do que estas ou todas as páginas do mudo são capazes de dizer. Felizmente, ainda teremos muitos anos para continuar tentando encontrar as palavras corretas.
⠀⠀⠀ Esse desabafo nostálgico e afobado não chegará até você. Pelo menos, não no dia em que está sendo redigido. Você sabe minha querida, ainda há muito a acrescentar nesse rascunho.
⠀⠀⠀𓂃 velma reconhecia a verdadeira dimensão de uma má ideia apenas quando já se encontrava presa às consequências dela. passava das três da manhã quando a estante metálica que tentara escalar não suportou o peso e deslizou alguns centímetros, o bastante para imprensá-la de lado contra uma coluna de concreto. em decorrência da posição que caiu, a estrutura pressionava-lhe as costelas a cada tentativa de movimento e respiração. os óculos voaram de seu rosto no momento do impacto, assim como o celular que permanecia a poucos metros dali, reduzido pela miopia a um retângulo, o qual só era identificado devido a capinha alaranjada. depois de duas tentativas inúteis de puxá-lo com a ponta do pé, ergueu a voz na direção do aparelho. ❛ hi, bixby. ligar para o contato de emergência número três. deixe em viva-voz. ❜ o galaxy s26 ultra reconheceu o comando e iniciou a chamada, mas os toques se prolongaram até cessarem sem resposta. velma comprimiu os lábios tentando controlar a respiração em fragmentos. ❛ bixby, ligue para o contato de emergência número oito, em viva-voz. ❜
⠀⠀⠀ mais alguns toques e dessa vez, a linha foi finalmente atendida em meio a um chiado tão estridente que ela mal distinguiu o instante exato em que poderia começar a falar. ❛ simba, espero não estar atrapalhando nada importante. eu estou no antigo arqui-❜ um estalo cortou-lhe a voz. ❛ municipal, na rua had- ter-iro andar, corredor oes- presa entre uma estan- e sem os meus ócu- ❜ a interferência aumentou e ela elevou ainda mais a voz. ❛ nã- há fogo e -ém ferido. eu só precis- que você traga al- coisa capaz de afastar as est- simba? você est- ouvindo? ❜ ouviu alguns fragmentos indistintos do outro lado e viu a tela apagar. mais duas ou três tentativas de contato com o assistente de voz até perceber que a bateria havia acabado. ❛ ótimo. excelente, dinkley. ❜ resmungou, apoiando a cabeça contra a estrutura metálica.
⠀⠀⠀𓂃 naquela tarde, velma entrou nos laboratórios oscorp pela porta da frente. apresentou a identidade e sua carteira de identificação funcional, recebendo em seguida um crachá provisório no qual lia-se em letras muito legíveis "visitante autorizado". como era de se esperar, sua presença não fora recebida com particular entusiasmo. haviam sido necessárias diversas ligações, alguns contatos institucionais, a intervenção direta de seu supervisor em conjunto a seu novíssimo advogado. amparada pelo protocolo de cooperação técnico científica, que assegurava o acesso de peritos credenciados às áreas destinadas a atividades oficialmente autorizadas, estava ali para participar de uma palestra seguida de um treinamento sobre preservação de evidências expostas a agentes químicos. mas evidentemente, não seria um período tão simples quanto ela ingenuamente chegara a imaginar durante a primeira parte da visita.
⠀⠀⠀ sua permanência estava condicionada à supervisão constante de um funcionário do local, embora ninguém tivesse julgado necessário esclarecer esse detalhe antes de acomodá-la no lugar mais afastado da sala. assistiu despreocupada a apresentação de protocolos de descontaminação e uma fascinante demonstração referente a degradação de vestígios biológicos em contato com solventes industriais. apenas quase três horas depois, no intervalo reservado para uma visita por algumas áreas do prédio, a parte que particularmente mais estava ansiosa, descobriu que o funcionário destinado a acompanhá-la de perto já a aguardava do lado de fora.
⠀⠀⠀ com seus humildes 4'92 pés de altura, precisou erguer consideravelmente o rosto para reconhecer seu novo cão de guarda: dois metros e treze, uma desagradável familiaridade e absolutamente nenhuma estima de sua parte. ❛ naturalmente, tinha de ser você. ❜ forçou um sorriso tão convincente quanto o entusiasmo estampado em seu crachá, antes de levantá-lo o máximo que conseguiu. ❛ imagino que algemas e viaturas sejam recursos opcionais desta vez, já que hoje estou oficialmente autorizada a respirar o ar do prédio. ❜
⠀⠀⠀𓂃 quando belle despertou no sofá, com o último calor do pôr do sol atravessando as cortinas e aquecendo-lhe o rosto, sentiu-se uma anfitriã tenebrosa. a lembrança mais recente que possuía era a de corrigir a última das centenas de provas enquanto conversava com clarion, alternando comentários sobre os últimos dias com observações nas margens das respostas. inclusive, recordava de ter lido que homero fora um dos precursores do realismo mágico latino-americano e de permanecer alguns segundos encarando a frase, dividida entre a preocupação sobre seus métodos de ensino e uma curiosidade admirada sobre o caminho percorrido pelo aluno até aquela conclusão. depois disso, mais nada. ergueu-se depressa, procurando os óculos de leitura entre as almofadas antes de voltar os olhos para o relógio da sala. dormira por quase quatro horas.
⠀⠀⠀ depois de dias tão caóticos, aquele fora o primeiro intervalo em que conseguiriam ter um tempo de qualidade juntas e belle desperdiçara metade dele inconsciente no sofá. um ruído procedente de algum outro cômodo a levou a endireitar-se, encontrando a sala vazia e a marca da almofada ainda impressa numa das faces. ❛ clarion? ❜ chamou, já se levantando ajustando as roupas e os cabelos enquanto atravessava o corredor. espiou a cozinha e deteve-se por um instante no arco de entrada. ❛ caso esteja procurando alguma lógica na maneira como organizo este ambiente, recomendo que preserve sua sanidade e desista enquanto ainda é tempo. ❜ aproximou-se mais alguns passos, ainda tentando recobrar a lucidez perdida durante o cochilo. ❛ agora, tenho duas perguntas. por que não me acordou? e, o que exatamente está procurando? dependendo da resposta à segunda, talvez eu consiga perdoar a primeira. ❜
⠀⠀𓂃 havia algo quase cômico na estima que os capulet dedicavam a spencer. yvina sempre lembrava de reservar-lhe a sobremesa preferida para comer na pausa do plantão, enquanto adrian, homem que distribuía aprovação com a parcimônia de quem temia esgotá-la, ouvia as opiniões dele até o fim e por vezes chegava ao grande feito de considerá-las. naquela noite durante o jantar oferecido para algumas das figuras ilustres da política local, o consultou sobre assuntos acadêmicos, investimentos e a reforma do escritório, três assuntos nos quais jamais cogitaria solicitar a contribuição da própria primogênita. yulieta acompanhara tudo em silêncio, entretida demais com a ironia para se sentir verdadeiramente ofendida.
⠀⠀⠀ quando o encontrou sozinho na varanda, surgiu trazendo duas taças retiradas da bandeja antes que fossem servidas à mesa. estendeu uma e acomodou-se contra a balaustrada, de costas para o jardim. ❛ devo avisá-lo de que você está perigosamente próximo de se tornar o ser humano favorito de meu pai. e isso não é algo propriamente bom.❜ levou a taça aos lábios, deixando que o sorriso denunciasse o divertimento. em seguida tornou os olhos para o interior da casa, onde adrian ainda conversava com os convidados, antes de tornar a atenção a spencer. ❛ embora, sendo justa, você não parece em condições de aproveitar a vitória. está com uma aparência terrível. ❜ a provocação perdeu a força ao final, abrandada por uma preocupação sincera. ❛ devia estar descansando, principalmente depois dos últimos dias. ❜
⠀⠀⠀𓂃 durante duas noites consecutivas, uma das câmeras instaladas nos limites da reserva ambiental deixara de registrar por longos minutos os animais que kenai deveria acompanhar para produzir noventa e sete fotografias da mesma admirável criatura: alex horsi. na primeira, não passava de uma mancha na lente. na quinta, o rosto ocupava quase toda a imagem. da décima segunda em diante, parecia ter finalmente localizado a câmera camuflada cujo ângulo deveria ajustar diariamente. não era exatamente a tarefa mais empolgante do mundo, mas naquela fase inicial, kenai precisava ter certeza de que ela aprenderia a identificar e manusear cada aparelho antes de lhe confiar responsabilidades maiores. até então, não considerara necessário acrescentar à orientação de não aparecer totalmente nos registros.
⠀⠀⠀ na manhã seguinte antes de começar o trabalho, dispôs as imagens sobre a mesa de observação próxima à entrada da reserva, separadas com primor dos poucos registros que de fato possuíam alguma utilidade. alguns minutos depois, ao avistar alex mais adiante ergueu a mão para chamá-la. ❛ bom dia minha estagiária favorita!❜ quando ela se aproximou o suficiente, ele ergueu e mostrou a fotografia número trinta e quatro. nela, uma sombra disforme sobre sua cabeça poderia ser um galho, um chapéu ou alguma coisa que kenai preferia não compreender nem tão cedo. ❛ antes de preencher o relatório do início do dia, preciso identificar a espécie. ❜ indicou as demais imagens com a ponta da caneta e nesse momento iniciou uma batalha interna, sabia que seria incapaz de sustentar a seriedade por muito tempo, a risada ameaçando a postura. ❛ hábitos noturnos e aparente capacidade de afugentar muçaranhos e filhotes de corça sem perceber. deseja acrescentar alguma característica ou devo classificá-la como uma nova variedade de espécie invasora? ❜
⠀⠀⠀𓂃 kenai não se considerava uma pessoa ansiosa. contudo, construir uma casa na árvore para carrick quando o menino mal conseguia atravessar meio cômodo sem perder o equilíbrio vinha despertando nele uma impaciência difícil de conter. a clareira escolhida ficava além dos trechos mais frequentados do riverside park, próxima a um dos pontos de pesquisa de kenai. ao redor da pequena estrutura, acumulavam-se tábuas retiradas da demolição de um antigo galpão, recuperadas antes do descarte e depois lixadas e tratadas com produtos atóxicos pelo próprio. três das quatro paredes já se encontravam de pé entre os troncos. ❛ não consegui construí-la em cima do pinheiro. ❜ explicou a finnick, analisando o resultado com as mãos apoiadas na cintura. ❛ então será uma casa entre as árvores. é praticamente a mesma coisa, apenas com menos risco de traumatizar a criança antes que ela aprenda a pronunciar meu nome completo. ❜
⠀⠀⠀ afastou-se alguns passos para conferir o alinhamento e bateu as mãos contra as calças, espalhando ainda mais o pó de madeira na atmosfera. ❛ quando ele aprender a subir escadas sem tentar descer de cabeça, fazemos o segundo andar. talvez uma varandinha também. ❜ acrescentou, examinando o espaço entre dois troncos como se a ampliação já houvesse sido aprovada. então se inclinou sobre a última parede, ainda montada no chão e segurou uma das extremidades. ❛ venha cá, preciso que me ajude a levantar isso aqui. ❜ lançou um olhar para finnick e corrigiu prontamente. ❛ apenas levantar. qualquer sugestão será ignorada até terminarmos. ❜
where: escritório da padmé na fundação nalbantoğlu
❝ Antes de entrarmos no assunto do nosso projeto, me fala Keni... você está bem? Como ficou a sua casa depois da tempestade? ❞ Padmé terminou de preparar o chá turco para os dois e levou a bandeja até a mesa com o cuidado. Além do amor pela Fundação, seus pais também ensinaram que uma Nalbantoğlu precisava saber preparar um çay perfeitamente. Era uma tradição da família receber as pessoas daquela forma. ❝ Estou me sentindo em dívida com todos os meus amigos. ❞ Após posicionar a bandeja, Padmé começou a servir. Primeiro o chá concentrado e, em seguida, completou o copo com água quente. Os cubinhos de açúcar também estavam disponíveis caso ele quisesse. ❝ Fiquei tão absorta com tudo o que estava acontecendo e em reorganizar a Fundação para receber as doações que acabei não conseguindo conversar com ninguém. ❞
⠀⠀⠀𓂃 mesmo durante os dias mais caóticos da chuva, kenai não se afastara por completo da fundação e agora, depois do pior ter passado, tentava retomar alguma aparência de normalidade e recordar que aquela visita possuía um propósito anterior à tempestade. ❛ estou bem, sim. ❜ garantiu ao envolver o pequeno copo entre as mãos, deixando o calor alcançar os dedos marcados por pequenos arranhões. ❛ tive a sorte extraordinária de uma árvore escolher justamente a parede da minha sala para cair. da rua inteira, ela foi a escolhida.❜ comentou, pretendendo tornar o estrago em algo menos alarmante. ❛ perdi alguns móveis, a metade da porta da frente e uma janela, mas ninguém se feriu. considerando as alternativas, saí no lucro. ❜ experimentou o chá e deixou o olhar repousar por um instante sobre o líquido. pelos ancestrais, poderia beber litros e mais litros dele.
⠀⠀⠀a ideia expressada por ela em seguida o fez erguer os olhos, o movimento de outro gole parando no meio do caminho. ❛ como? ah, não. não comece com isso, padmé. ❜ advertiu, deixando o copo sobre a mesa. ❛ você manteve este lugar funcionando enquanto metade da cidade precisava de ajuda. ninguém espera que você consiga estar em todos os lugares ao mesmo tempo como se fosse o mestre dos magos. ❜ inclinou-se um pouco sobre a mesa, estreitando os olhos. ❛ além disso, eu estive aqui. se tivesse precisado de alguma coisa, teria te falado. ❜ uma breve pausa antecedeu o princípio de sorriso que lhe suavizou as feições. ❛ então, se está mesmo procurando uma forma de compensar essa dívida imaginária aí, pode começar me contando como você está.❜
como alguém que já conhecia, no mínimo, metade do pedido de sempre dos moradores de westbridge, katy poderia começar a preparar o espresso martini de velma muito antes que ela completasse seu pedido. porém, antes que pensasse em se mover para pegar a taça e começar a preparar o drink, foi surpreendida pela mudança de opinião. katyayani não fez questão de esconder o sorriso de canto nos lábios, achando graça do comportamento alheio. apoiou os cotovelos no balcão e aguardou, pacientemente, enquanto ela pensava. ❝ mas não é nenhum crime optar pelo confortável, velma. eu acho legal experimentar coisas novas, mas as vezes, você não está com vontade de acordar arrependida da quantidade de álcool monumental que resolveu inventar de beber e, sério, está tudo bem. ❞ a bartender deu de ombros, despreocupada. era adepta ao inesperado, principalmente quando mais jovem. costumava ser inconsequente e gostava de fugir das expectativas, mas entendeu com o tempo que aquela não era a praia de todo mundo. ❝ tem certeza? ❞ katy questionou, arqueando a sobrancelha, enquanto dava à velma mais trinta segundos para mudar de opinião novamente. o último pedido era bem diferente de um espresso martini. tinha zero gosto de café. na verdade, era uma opção tropical e com a cliente fazendo questão de exigir que a bartender o preparasse com açúcar extra. ❝ o quanto você gosta de abacaxi e coco? ❞ a pergunta que veio em seguida, fez a mulher rir. ❝ eu adoraria receber um extra pelo sistema monetário tradicional, não posso negar... ❞ se afastou para começar a pegar as frutas que faziam parte da piña colada que velma provaria naquela noite. ❝ mas não acho que a gerente vai gostar de saber que estou extorquindo os clientes. então podemos deixar esse momento por conta da casa. ❞
⠀⠀⠀𓂃 a explicação de katyayani deveria ter encerrado o assunto ali mesmo. era sensata, perfeitamente razoável e para o profundo desgosto de velma, difícil de refutar sem que sua própria insistência começasse a parecer desproporcional à situação. ❛ eu sei que não é crime. ❜ respondeu, aproximando-se mais do balcão. ❛ no entanto, não é exatamente assim que hábitos nascem? começam como escolhas convenientes, repetem-se o suficiente até ficarmos confortáveis e quando percebemos, já estamos presos num ciclo interminável. faz sentido? ❜ como era difícil para dinkley considerar todas as possibilidades e não conseguir escolher ao menos a uma. a pergunta seguinte fez seus olhos se estreitarem atrás das lentes, certeza era algo que não possuía desde que atravessara a porta de entrada, mas confirmou veemente com um aceno de cabeça. manteria sua decisão até o fim. e... arrependeu-se no instante em que reconheceu a combinação que katy começava a separar.
⠀⠀⠀ ❛ separados, lembram o verão dos países tropicais. já os dois juntos, me lembram da minha turma de toxicologia forense. olhos cor de mel, deliniador gatinho, cabelos castanho claro com mechas azuis, brincos de ouro branco, botas vermelhas, gloss labial de cereja e o pior ghosting da minha vida. ❜ a recordação surgiu com tamanha nitidez que velma inclinou a cabeça, incomodada com a quantidade de espaço que seu cérebro ainda reservava para detalhes absurdamente inúteis. certas coisas realmente nunca mudavam. contudo, uma vez iniciada a explicação, abandoná-la pela metade lhe pareceu falta de educação, sem contar que sendo uma grande admiradora de história, não poderia jamais deixar aquela pela metade. ❛ ela pediu uma piña colada no primeiro encontro. no segundo, pediu três e passou quarenta minutos explicando por que era um espírito livre e formas de comunicação “convencionais”, como mensagens de texto e ligações, não combinavam com ela. ❜ os lábios se comprimiram enquanto as lembranças prosseguiam em flashs bem à sua frente. ❛ três dias depois, desapareceu. considerando o discurso anterior, talvez eu devesse ter previsto.❜
⠀⠀⠀ seu olhar após vagar pelos arredores, regressou para katy. ❛ em minha defesa, essa foi uma associação totalmente involuntária. portanto, talvez eu tenha motivos justificáveis para não gostar muito dessa combinação. ❜ apesar da conclusão, não fez qualquer movimento para cancelar o pedido. desistir naquele ponto equivaleria a encerrar o experimento antes mesmo de começar. ❛ esse já pode ser considerado a primeira solicitação de conselho da noite? ❜ logo em seguida a gratuidade da consultoria arrancou um breve riso. ❛ pensando bem, talvez você devesse cobrar. sou uma mulher da lei e te garanto que não é extorsão de forma alguma. ❜ piscou os olhos e os dedos bateram duas vezes contra o balcão. ❛ já não consigo escolher uma bebida sem transformar a situação inteira em um problema. imagine o que faço com as decisões realmente importantes da minha vida? ❜ inclinou-se um pouco mais, acompanhando o preparo com mais interesse, forçando a si mesma a relaxar e aproveitar o ambiente. ❛ antes de qualquer coisa, quero saber se a sua piña colada é boa o bastante para desfazer uma associação de anos. seria um argumento considerável a favor das mudanças de hábito. ❜
a chuva havia sido infernal para qualquer um que morasse num buraco de eastline, como era o caso de jose. dentre tentar salvar seus próprios bens pessoais, ajudar vizinhos e sobreviver, houve pouco tempo para que ele pudesse parar e pensar em dar notícias para os conhecidos. viu seu celular sumir em meio a água e soube que aquela noite não teria paz ao mesmo tempo em que o sentimento de desistência o inundou: estava fudido! o pouco das tralhas que possuía estavam se desfazendo. por qual motivo continuar tentando ir contra o inevitável? em determinado ponto ficou anestesiado e foi quando decidiu sair de casa para evitar olhar o estrago. não tinha o que fazer e ele precisava trabalhar isso mentalmente, como o terapeuta pago por seus pais na infância reforçava. por sorte conseguia sair com maximus, seu único bem material que se recusava a perder. e foi sobre a moto, passeando pelo bairro, que pode se preocupar com outras coisas.
a mente foi para longe. para alguém em específico que ele, felizmente, sabia que estava segura. westmere era um paraíso naquela cidade e pela primeira vez não invejou os moradores de lá ou desejou que passassem pelo o que os demais bairros passavam. porque sabia que ela estaria bem e segura. ao menos ele torcia para que ela não estivesse se aventurando por aí bem no pior momento possível — então a possibilidade o afetou de verdade. o universo não faria isso. ele não colocaria yulieta bem no olho do furacão. quando percebeu, estava acima da velocidade permitida, a noite e se arriscando em meio a poças de água e possíveis obstáculos criados pela chuva. no caminho, percebeu que não poderia ir até a casa dela; não sem ser hostilizado pelo pai de yulieta. jose estava irritado e sem nada a perder o suficiente para estar disposto a mandar aquele homem ir a lugares que nunca pensou que existiriam. apesar da satisfação que iria sentir, não queria irritá-la ou dificultar ainda mais as chances de vê-la.
ele era estúpido, como muitos apontaram em sua vida. ou talvez preocupado demais. assustado demais com possibilidades que o assombram há anos. eles tinham um lugar só deles. parecia que maximus o levava automaticamente, pois já ia no caminho correto sem perceber. não tinha relógio, celular ou qualquer coisa que pudesse ver as horas, mas quando chegou no cemitério pode ver o relógio da capela. estava atrasado e não iria demorar mais, apressando os passos até praticamente correr. quem visse de longe poderia até achar que se tratava de um espírito inquieto. uma dessas coisas era verdade. quando enfim pode vê-la, suspirou aliviado — um peso sumindo de suas costas automaticamente. “ ei… ” a chamou, os pés o levando na direçao da figura feminina. “ desculpa o atraso. peguei uma chuvinha sem vergonha no caminho. ” os lábios puxaram num sorriso misto: sem jeito, feliz, tranquilo e culpado. estava encharcado como um gato de rua enquanto yulieta parecia um anjo, e por mais que o ambiente fosse fúnebre, quando na companhia dela, parecia o verdadeiro paraíso e jose se sentia digno de ir para tal lugar. ou talvez desejasse ir para lá, sabendo que era para onde ela iria iria. sem desgrudar o olhar do dela, retirou algumas folhas do banco antes de se sentar. “ espero que nenhum fantasma tenha te incomodado. ”
⠀⠀⠀𓂃 o pedido fora atendido com tamanha prontidão que yulieta questionou a própria sanidade. a voz que se aproximava era real ou mais um truque da mente exaurida? para sua sorte, a providência pela primeira vez em muito tempo, lhe concedeu exatamente aquilo que pedira no momento: josé vivo. vivo e caminhando até ela. assim que abriu os olhos, a inquietação que até então lhe consumia começou enfim a ceder, o ar deixando os pulmões em um suspiro longo e trêmulo. um alívio que por fim seria passageiro, aquela angústia acompanhava yulieta havia muito. estava escondida na cautela com que evitava pronunciar o nome dele em voz alta, naquele segredo que guardava apenas para si, no receio constante de que um descuido bastasse para fazer a fúria desmedida de adrian capulet recair sobre josé como uma condenação mortal. queria sair correndo pelas ruas de westbridge rompendo o silêncio até ser ouvida por ele, mas não podia. por mais inconsequente que fosse em muitos aspectos de sua vida, aquele era um risco que não estava disposta a fazer ryder correr.
⠀⠀⠀ por um instante apenas o observou em silêncio, receosa que qualquer movimento precipitado que fizesse pudesse dissolver aquela imagem e devolvê-la ao vazio. mal lhe concedeu tempo para ocupar o espaço ao seu lado, assim que ele se aproximou o suficiente, ela lançou os braços ao seu redor, o puxando para junto de si com uma urgência que não deixou espaço para medir o pudor do gesto. a água atravessou o tecido de suas roupas de imediato, espalhando um frio cortante que fez yulieta o apertar ainda mais. precisava senti-lo de verdade entre seus braços. o alívio então entranhou-se com outro sentimento que não conseguira distinguir no momento; culpa? vergonha? ainda assim, por mais egoísta que lhe parecesse, não conseguia lamentar totalmente que ele estivesse ali.
⠀⠀⠀ uma risada baixa se perdeu entre os cabelos dele, abafada pelo abraço, fazendo seu corpo se mover contra o dele em uma momentânea perda de equilíbrio. os dedos se fecharam no tecido ensopado às costas de josé, como se ainda temesse que ele desaparecesse ao menor descuido. ❛ não se preocupe, nenhum fantasma ousou se aproximar. ❜ murmurou, sem demonstrar qualquer intenção de soltá-lo. ❛ suponho que o gasparzinho tenha percebido que eu já estava ocupada demais sendo atormentada por um vivo. ❜ deixou transparecer o afeto inevitável por aquela capacidade dele de tornar suportável até aquilo que deveria fazê-la desabar em lágrimas por horas a fio. no entanto, o pranto foi impossível de conter, sufocado por um soluço baixo que estremeceu-lhe o corpo. apenas quando foi parcialmente controlado, yulieta afrouxou os braços e afastou o rosto com certa relutância. examinando as feições mais de perto, levou uma das mãos até a face de josé para retirar os fios molhados que lhe caíam sobre a testa. o olhar percorreu olhos, lábios, desceu até os ombros, dorso e braços, demorando-se em cada parte visível a procura de algum ferimento.
⠀⠀⠀ ❛ você está bem? ❜ a pergunta saiu apressada, carregada por todas as outras que se acumulavam. ❛ está machucado em algum lugar? e a sua casa? ❜ os dedos permaneceram junto ao rosto dele, incapazes de renunciar inteiramente o contato. ❛ eu procurei seu nome em todos os lugares possíveis. no hospital, nos abrigos e em todas as listas que consegui encontrar... cheguei a desejar encontrá-lo escrito em qualquer lugar que fosse, mesmo sabendo que poderia não gostar do que viria ao lado. ❜ a impotência perante a situação, agravada pelas circunstâncias externas tornara a espera ainda mais cruel. até o direito de temer o pior precisava ser vivido em silêncio. ❛ fiquei com medo de nunca mais ouvir sua voz. ❜
Inspirou fundo e sorriu de lábios fechados, compreendendo de cara o que ela queria dizer, apontando o dedo como pistola em um silencioso "Aaaa, pode deixar". As roquinhas de coco até eram saborosas, e tentou por uns 15 segundos ficar parado na poltrona. No segundo 16 parou de comer e ficou encarando a mulher com um ar de "Olha, estou conseguindo". No segundo 20 ele lhe mostrou o polegar. No segundo 23 as pernas começaram a balançar. No segundo 31... - Será que já passou a chuva?
⠀⠀⠀𓂃 belle mal tivera tempo de se virar para alcançar o café sobre a mesa quando a pergunta de naveen fez o riso escapar baixo, acompanhado por um breve movimento de cabeça, aqueles poucos segundos confirmando precisamente tudo o que suspeitara. ❛ ainda não. mas não está tão forte agora. ❜ serviu sem pressa em um dos copos de isopor dispostos na mesa. ❛ você ainda tem pouco mais de oito minutos. está tudo bem, tudo está consideravelmente controlado e o mundo não vai acabar se você parar um pouco. se continuar desse jeito, quem precisará de ajuda em breve será você. ❜ ao tornar-se para ele, estendeu o copo em sua direção por um reflexo hospitaleiro. ❛ quer um pouco de- ❜ a oferta morreu no meio do caminho, os olhos passaram das pernas inquietas ao semblante desperto e belle recolheu o café para junto do próprio corpo antes que uma gota de cafeína agravasse aquele estado. ❛ pensando melhor, isso seria uma grande irresponsabilidade de minha parte. ❜ naveen já parecia movido por alguma engrenagem interna incapaz de cessar, alimentá-la seria correr o risco de vê-lo tentar subir no telhado em meio a chuva, para consertar uma goteira. ❛ você toma chá? ❜ perguntou, inclinando ligeiramente a cabeça. ❛ acho que ainda tem uns saquinhos de chá de camomila por qui, você está precisando. de bastante, por sinal. ❜
Depois de encher a masterbola de beijos excessivamente barulhentos. Nem comece a pensar onde essa bola estava, não valia à pena. Alex deu mais um de boa sorte e o guardou dentro da bolsa, bem enrolado no suéter que não usaria tão cedo. A vitória e a comemoração tinham sido explosivas demais e a adrenalina... Por Deus, estava tão quente assim? O abafado da chuva com a euforia não faziam combinações nem um pouco agradáveis. —— Veja uma coisa, minha querida e maravilhosa Velma. Você pode pedir para não colocar pressão em você, mas também- Tá me acompanhando? Não pode ficar indecisa. Em nenhum momento. Absolutamente em nenhum momento. Por quê? Eu te explico agora. Porque eu vou querer ganhar as duas e você vai dizer que não precisa e eu vou dizer que não tudo bem eu posso conseguir e você vai insistir que tá tudo bem e eu vou levar para o pessoal de conseguir as duas porque a masterball é a minha preferida e você conseguiu de primeira e- — A voz falhou antes de completar a frase. A Horsi bateu as palmas e repuxou o ar com força, quase como um aspirador. Seus olhos fixos em Velma enquanto movia a cabeça, tossindo com a falta de ar e quase afogamento com oxigênio. —— Eu vou conseguir as duas para você. Calada. Nem um pio. Eu preciso me concentrar.
Segurou Velma pelos ombros e a afastou um pouquinho.Só o suficiente para circular pela máquina como uma ave de rapina. Alex rodou e rodou, e achou. —— Isso aqui tá impossível. Olha aqui! A garra naõ vai conseguir entrar nesse espacinho. Não é? — Ah, ela falava enquanto, discretamente, abraçava a máquina em amor desmedido. Quer dizer, não tinha nada discreto nisso, nem no som que a máquina fez quando foi sacudida com força. Alex pulou para longe, esfregando o joelho numa imagem dramática. —— Deus, como sou desastrada. DESCULPE! — Gritou para ninguém em particular, só pelo... Para cobrir sua base caso investigassem. Agora? Agora era a missão de honra. Três moedas para dentro e tentativas. Sim, no plural. O nervosismo foi melhor na primeira, aquela maldita garra tendenciosa na segunda e o suor na terceira. A testa brilhava e escorria, tanto que precisou limpar com as costas da mão. Vamos lá, murmurou consigo mesma. E... —— NEST BALL. TOMA ESSA, SUA MÁQUINA SLOWPOKE! Não fala nada. A heavy ainda tá aí dentro. — O que ela não tinha calculado era, pelas outras tentativas, a heavy ficou mais livre. Tão exposta que era só... A garra fechar ao lado. Alex ouvia as recomendações de Velma e ajustava, indo de um lado para o outra até a posição perfeita. A máquina emitia os bipes finais da duração da rodada quando desceu. Desceu. Segurou a heavy, a pokebola tremeu, a garra balançou, Alex teve uma síncope e ela caiu no buraco de saída. Não saiu nenhum grito de si, mas a comemoração estava em seu rosto. No peito estufado, na pose durona, em tudo. —— Me chame de Eternatus, seu Joltik. Aqui é Campeã experiente.
⠀⠀⠀𓂃 a objeção já estava perfeitamente formulada quando alex começou a recitá-la, antecipando cada argumento com uma precisão impressionante. não, velma não precisava das duas e sim, insistiria naquilo. e evidentemente, seria ignorada em qualquer tentativa de negativa. abriu a boca para tentar falar algumas vezes e viu a própria resposta ser engolida, na última, o protesto cedeu o lugar a uma súbita apreensão. segurou por reflexo o antebraço da outra, enquanto a mente percorria uma lista de procedimentos para engasgo, hiperventilação e desmaio (por excesso de entusiasmo). ❛ calma, respira! puxa o ar devagar pelo nariz e solt-... devagar alex. o oxigênio do ambiente não vai fugir de você. ❜ a recuperação veio antes de qualquer desespero maior e quando velma finalmente pensou que ela cederia, o argumento permanecendo retido atrás dos lábios comprimidos quando foi afastada da máquina. muito bem, permaneceria calada. cruzou os braços e fechou a cara em uma carranca, fazendo todo o esforço possível para parecer irritada, agora ela que levaria para o pessoal por pura birra. nada mais irritante do que parecer previsível, pior ainda quando previam sua previsibilidade e isso, alex fazia com uma maestria impressionante. estava irritada veridicamente? obviamente que não, contudo, não poderia deixar de apresentar sua insatisfação fazendo uma cena com uma atuação duvidosa.
⠀⠀⠀ no momento em que a máquina foi envolvida em um ato de amor incondicional, o ruído lhe arrancou um breve sobressalto, seguido por um riso alto que tentou miseravelmente ocultar. ❛ alex! vão acabar expulsando a gente daqui. caso os funcionários daqui também estejam rendidos ao sistema e defendam com unhas e dentes os patrões que não estão nem aí para eles, devo avisar que meu orçamento para advogados já atingiu o limite! ❜ advertiu tentando manter a seriedade, olhando de relance para os lados verificando se havia alguém próximo. ainda assim, poucos segundos depois já estava novamente junto ao vidro quando as primeiras moedas foram inseridas, incapaz de sustentar qualquer cara feia. as instruções começaram ser passadas automaticamente, reflexo de uma criança que recebia dos primos mais velhos o controle desligado e acreditava participar ativamente da partida. foi então que percebeu que estava sorrindo de orelha à orelha outra vez, o mundo diminuindo até caber entre as luzes coloridas, os bipes apressados e a voz de alex. logo ela que passava tanto tempo tratando o seu entusiasmo público como algo que precisava ser moderado, viu-se tomada por ele. levou as duas mãos à boca, a exclamação lhe escapando assim que viu a nest ball cair no compartimento de retirada.
⠀⠀⠀ ❛ oh, você conseguiu! outra vez!!!❜ a constatação saiu carregada de uma admiração que não se limitava somente ao objeto. alex decidira que ela teria as duas e transformou a vontade em uma missão praticamente impossível, com a mesma devoção que parecia dedicar a tudo que amava. se fosse um pouquinho mais emotiva, velma poderia até considerar liberar algumas lágrimas. ❛ ah, não fala assim deles, por favor. slowpokes são lentos? um pouco sim. mas não deliberadamente desonestos. essa máquina está mais para um meowth. um meowth treinado para furtar moedas de crianças indefesas. ❜ houve tempo suficiente para defender o pokémon, mas não para qualquer tentativa de compostura. a ação seguintea acontecer rápido demais até para seu cérebro acompanhar. agarrou o braço de alex e o sacudiu, rindo com vivacidade ao ver a heavy fazer a mesma descida para a liberdade, parando ao lado de sua irmã nest. mal pôde acreditar no que estava vendo ao retirar as duas do compartimento. ❛ aceitarei o joltik, pois ele no nível cem é capaz de fazer um belo estrago. e também por você é a primeira pessoa do mundo a realizar tal feito. você conseguiu não uma, não duas, mas três prêmios da máquina supostamente manipulada. esse é sem dúvidas o feito mais raro dos últimos tempos, essas preciosidades irão morar em caixas de acrílico hermeticamente fechadas. ❜ acomodou as duas lado a lado, comparando sob a luz colorida os detalhes de cada uma. eram perfeitamente esféricas. ❛ admito que foi uma atuação digna de campeã. imprudente, barulhenta e estatisticamente improvável, mas digna de uma excelente campeã.❜
⠀⠀⠀ então, foi sua vez de abraçar em um agradecimento pequeno demais para demonstrar a dimensão do afeto que lhe aquecera o espírito. ❛ existe alguma coisa que você não seja capaz de fazer, horsi? ❜ reajustou os óculos, tornando a encará-la seriamente, a postura assemelhando-se a de alex minutos antes. ❛ agora temos um pequenino impasse. você conseguiu os prêmios sozinha; apenas você seus métodos pouco convencionais e sua sorte. em consequência disso, acabou de me colocar uma obrigação moral de retribuir. caso contrário, passarei o restante do ano tentando calcular uma maneira de equilibrar isso, o que será extremamente inconveniente para nós duas caso você insista em negar. ❜ nada mais assustador do que o sentimento de gentileza não retribuída, aquilo iria corroer todos os seus mínimos pensamentos. ❛ por favor alex. não me torture com isso. preciso retribuir de alguma forma e necessito de sua ajuda para me dizer como. você sabe que sou extremamente indecisa. ❜
⠀⠀⠀𓂃 ❛ num grande quarto verde, havia um telefone, um balão vermelho e um quadro de uma vaca saltando sobre a lua... ❜ a voz de belle difundia-se baixa pelo salão, acompanhando o avançar vagaroso do crepúsculo até que a noite se firmara além das janelas do centro comunitário. algumas crianças acolhidas após a tempestade se reuniam ao redor dela entre colchões e sacos de dormir. ❛ boa noite, quarto. boa noite, lua. boa noite, vaquinha pulando sobre a lua. boa noite, luz e balão vermelho. ❜ talvez nenhuma delas reconhecesse naquele espaço o próprio quarto, mas belle empenhava-se em lhes oferecer, ao menos por algumas páginas, a ilusão de que o mundo continuava inteiro e cada coisa permanecia em seu devido lugar. ❛ boa noite, estrelas. boa noite, ar. ❜ foi então que, acima das cabeças sonolentas, seu olhar encontrou a figura familiar junto aos poucos adultos que haviam se demorado nas proximidades.
⠀⠀⠀quando a última página se encerrou, não restavam olhos abertos. acomodou alguns cobertores sobre os pequenos, recolheu o livro e permaneceu de pé pensando por alguns segundos, embora já soubesse aonde os passos a conduziriam. havia deixado escapar oportunidades demais de atravessar aquela distância sob o pretexto de que "o momento não era adequado". não foi muito difícil achá-la, uma pergunta aqui, outra ali e lá estava katy. belle aproximou-se devagar quando alcançou o lugar onde ela se encontrava e se acomodou ao seu lado, apoiando sobre o colo o livro que ainda carregava consigo. ❛ sempre achei curioso que ele se despeça de tudo o que ocupa o quarto, até das coisas mais... insignificantes. ❜ havia uma melancolia encravada naquela constatação. voltou o rosto em sua direção, conservando na voz a mesma suavidade que oferecera às crianças. ❛ não é a melhor das circunstâncias, mas de qualquer forma, estou feliz em te ver novamente, katyayani. ❜
⠀⠀𓂃 a energia ainda oscilava em boa parte de westbridge quando velma chegou a casa de nancy, trazendo consigo duas sacolas de mantimentos e sua enorme bolsa de trabalho. depois de um dia interminável, deveria ter regressado ao próprio apartamento para descansar, contudo, a ideia sequer sobrevivera ao instante em que lhe passaram a lista das ruas de ashgrove que já estavam acessíveis. algumas decisões dispensavam análise profunda, porque haviam sido tomadas muitos anos antes. em algum lugar do passado, duas meninas ainda acreditavam que bastava permanecerem juntas para que qualquer noite se tornasse menos assustadora. ainda na porta, suspirou de alívio em vê-la, de imediato a envolveu em um abraço demorado. ❛ queria ter vindo antes. eu tentei, de verdade. mas passei o dia sendo enviada de um lado para o outro. ❜ explicou-se, ainda com a culpa da ausência no semblante. ao entrar, acomodou as duas sacolas sobre a mesinha de centro, dispondo-as lado a lado. ❛ acho que isso deve ser suficiente para aproximadamente quarenta e oito horas. talvez mais, considerando que passei na casa dos meus pais antes e minha mãe abarrotou a sacola de biscoitos. ❜ somente permitiu que os ombros cedessem ao cansaço quando ouviu a porta fechar às suas costas. bastou encontrar nancy e reconhecer a familiaridade da sala para que toda a tensão acumulada ao longo do dia começasse a enfim, abandonar seu corpo.
⠀⠀⠀𓂃 ❛ tudo bem, rosie. preciso que você seja mente aberta, expanda seus horizontes. 'tá bom? ❜ kenai principiara daquele modo porque qualquer explicação oferecida depois pareceria menos absurda do que a visão que a aguardava. convidou rosetta para ajudá-lo “numa coisa” e se recusara a oferecer explicação mais precisa durante todo o caminho, até que mais alguns metros andados a margem do braço mais tranquilo do rio alder revelou um cisne de pedais. ❛ esse camarada pertencente ao ancoradouro recreativo que é montado no parque, durante os meses de verão. foi arrancado das amarras pela força da correnteza, quase que não consigo salvar ele. ❜ ainda trazia no casco branco as marcas da lama e preso ao pescoço, um colete salva-vidas infantil que certamente não serviria a nenhum dos dois. ❛ entre todas as rotas para chegar em um dos pontos de pesquisa, essa é a única embarcação pequena o bastante para atravessar o trecho mais estreito do rio sem ficar presa nos galhos e estável o bastante para levar o equipamento. só precisamos alcançar o ponto de pesquisa lá embaixo. é totalmente seguro. ❜ repetira para si mesmo numerosas vezes durante a confecção do plano que independente de como seria, estava fazendo de tudo para ajudar, mesmo que fosse de uma maneira exótica. ❛ e antes que você diga qualquer coisa, ele flutua, os pedais funcionam e eu já confirmei que não existe nenhum regulamento proibindo o uso deles em uma enchente. ❜ apoiou a mão sobre o flanco da criatura. ❛ a gente vai, pega o material e volta. ❜
⠀⠀⠀𓂃 tão logo todo o material fora recolhido, yulieta afirmara com a veemência e a confiança que tantas vezes lhe precediam os infortúnios, que conseguiria transportar sozinha todos os tecidos até o fim da rua. a doação viera de um dos figurinistas do teatro: rolos de pano, retalhos e algumas peças de roupa, parte destinada ao orfanato, parte ao hospital. depois de pedir a rosetta que seguisse adiante com as vestimentas, yulieta convenceu-se nos primeiros metros de que a tarefa era perfeitamente possível. equilibrava os volumes entre os braços e avançava com cautela pela ladeira, até que o maior deles lhe escapou do abraço. ❛ ah, não! ❜ o plástico que o protegia começou a desprender-se enquanto o rolo ganhava a descida, desenrolando-se sobre o calçamento úmido como uma cauda interminável, recolhendo folhas e lama da rua mais íngreme de ashgrove. ❛ não, não, não! volta aqui! ❜ exclamou, abandonando depressa os demais itens junto à calçada antes de partir em perseguição. o rolo adquiriu velocidade e o tecido azul do interior começou a surgir por entre o plástico desfeito. no meio da corrida, yulieta ainda precisou deter-se por alguns segundos para recuperar um dos tênis, que lhe escapara do pé e permanecera para trás, o segurando numa das mãos enquanto tentava alcançar com a outra, a faixa que serpenteava entre as poças. quando ergueu os olhos, viu rosetta no extremo da rua, exatamente onde deveria reencontrá-la depois de provar que não necessitava de ajuda alguma. ❛ rosetta! ❜ chamou, sem interromper a perseguição. com muito custo conseguiu prender a extremidade sob o sapato, mas o restante continuou a deslizar ladeira abaixo, quase levando seu equilíbrio junto. ❛ pega a outra ponta! ❜