Leitor: uma questão de devir
“Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio.” (Kafka – Carta a Oscar Pollak, 1904)
“Um pouco de possível, senão eu sufoco.” É com essa frase dilacerante que Gilles Deleuze descreve o sopro secreto que conduziu a fase derradeira do pensamento de Michel Foucault, inclinada para o que ele chamaria - se me permitem o abuso de um vocabulário técnico da filosofia -, de “processos de subjetivação.” Mas por que evocar esses termos – “processo”, “subjetivação” - tão estranhos e que despertam a suspeita de serem abstratos? Acontece que o debruçar-se detido sobre a subjetividade diz respeito a todos nós, enquanto sujeitos que não cessamos de nos tornar através das instituições, das nossas recusas e assimilações, dos nossos amores e nossos ódios. Tal atitude consiste em doar expressão e sentido à nossa própria transformação e evanescência; ou, como declarara outrora Nietzsche, naquela verve sibilina que lhe é própria, é posicionar-se em relação à imperativa e quiçá mais difícil e desafiadora exclamação: torna-te quem tu és! E minha vida entre os livros não poderia ter começado senão sob o signo desse apelo, dessa exigência.
A paixão pelos livros atingiu-me tardiamente, findos os anos de minha adolescência, como quando o frio do inverno prolonga-se mais do que deveria e a primavera parece ter se atrasado. Contudo, aqui se faz preciso observar que não foram os livros de literatura, quais sejam, os romances e os poemas, que primeiro despertaram minha sensibilidade dormitante nos confins do puro desinteresse. Foram livros ainda mais improváveis: os de filosofia. Entre Nietzsche, os pré-socráticos, Espinosa, Deleuze, Foucault, e outros tantos amigos de horas turvas e solitárias, encontrei a restauração do possível que ansiava com tanta angustia durante os anos mais agrestes de minha vida: uma abertura para pensar, para sentir, para ser e deixar de ser. Foi como achar uma fresta, um rasgo pelo qual tornara-se novamente possível respirar, e com isso reencontrar a leveza e a suavidade.
Para mim, que mantive (e mantenho) com a filosofia uma relação menos intelectual do que amorosa, pensar jamais tratou-se de uma questão de teoria, mas de vida. Livros são canais, meios, passagens. Como escreve Deleuze, esse autor que nunca esqueci e com o qual descobri toda a doçura, fragilidade e inocência do mundo, “não há obra que não indique uma saída para a vida, que não trace um caminho entre as pedras.” Que me perdoe Kant, e os eruditos também, mas pouco importa-me como são possíveis os juízos sintéticos a priori; as questões e os problemas, em filosofia, interessam apenas na medida em que buscam libertar a vida lá onde ela se encontra aprisionada. Pensar verdadeiramente é liberar fluxos, como quando se rompe uma tubulação e a vida transborda por todos os lados. Lendo, cheguei à conclusão de que a filosofia não tinha outra finalidade que não romper com as amarras do pensamento e da sensibilidade que nos tornam tão baixos, vis, fracos, impotentes, tristes: aprender a ver de outra maneira, a sentir de outra maneira, em suma, engajar as forças que animam o espírito e a matéria na invenção de uma outra vida possível.
Foi também graças ao meu encontro com a filosofia que tornei-me sensível à arte em geral. Com os livros de filosofia experimentei a infernal claustrofobia do Processo e a agonizante metamorfose de Gregor num inseto monstruoso. Fui arrebatado pela selvageria de Cézanne, pela delicadeza de Monet e pela vertigem de Van Gogh com seus delirantes girassóis. Imobilizei-me diante do horror e crueldade das telas de Francis Bacon, com seus corpos rompidos e deformados. Embriaguei-me com o ímpeto explosivo e cáustico da literatura americana e com a divina heresia de William Blake, esse escritor tanto mais diabólico quanto sublime. Tornei-me um esteta. Descobri a beleza. A literatura, sobretudo, passou a ocupar um lugar central em minha vida; tornando-me leitor busquei também tornar-me escritor e essa busca não chegou, tampouco chegará, espero eu, a termo. Pela arte um homem pode resistir a tudo, à solidão, à loucura, ao silêncio, à ruína. Deleuze terá sempre razão em ter pronunciado estas palavras revolucionárias: “A arte é o que resiste: ela resiste à servidão, à morte, à infâmia, à vergonha.” A arte estará lá mesmo quando o homem não estiver mais.
Eis um breviário do que aprendi com os livros. Eis o que justifica a única crença cravejada em minha alma ausente de deuses.