Trecho de Cidade das Almas Perdidas
“Clary correu pelo corredor e pisou nos degraus com estrondo, correndo para o andar de baixo, para o ponto na parede onde Jace disse que ficava única entrada e a única saída do apartamento.
Não tinha ilusões de que poderia escapar. Precisava apenas de alguns instantes para fazer o que tinha de ser feito. Ouviu as botas de Sebastian pisando forte na escada de vidro atrás dela e aumentou a velocidade, quase batendo na parede. Encostou a ponta da estela, desenhando freneticamente: um desenho tão simples quanto uma cruz, para o mundo..
.O punho de Sebastian se fechou nas costas do casaco de Clary, puxando-a para trás, e a estela voou da mão da irmã. Ela engasgou quando ele a levantou e jogou contra a parede, deixando-a sem fôlego. Sebastian olhou para a marca que ela tinha feito na parede, e seus lábios se curvaram em uma careta.
— O Símbolo de Abertura? — disse. Inclinou-se para a frente e sibilou no ouvido dela: — E você sequer o concluiu. Não que isso tenha importância. Acha mesmo que existe algum lugar nesse mundo para o qual possa ir onde eu não vá encontrá-la?
Clary respondeu com um epíteto que a teria feito ser expulsa da sala no St. Xavier. Quando Sebastian começou a rir, Clary levantou a mão e deu um tapa na cara dele com tanta força que os dedos doeram. Com a surpresa, ele afrouxou as mãos que a seguravam, e Clary se afastou e soltou sobre a mesa, correndo para o quarto do andar de baixo, que ao menos tinha uma tranca na porta...
E ele apareceu na frente dela, agarrando as laterais da jaqueta e girando-a. Os pés voaram de baixo dela, e Clary teria caído se ele não a tivesse prendido à parede com o corpo, co os braços em ambos os lados, formando uma jaula ao seu redor.O sorriso de Sebastian era diabólico. O menino estiloso que caminhou pela Sena, tomou um chocolate quente e conversou sobre pertencer a algum lugar desaparecera. Os olhos estavam completamente negos, sem pupilas, como túneis.
— O que foi, irmãzinha? Você parece chateada.
Ela mal conseguiu recuperar o fôlego.
— Estraguei... meu... esmalte batendo nessa sua... cara horrível. Viu? — Mostrou o dedo, apenas um dedo.
— Que gracinha — riu. — Sabe como seu que nos trairia? Como sei que não conseguiria evitar? Porque você se parece demais comigo. Ele a apertou ainda mais forte contra a parede. Ela sentiu o peito de Sebastian subir e descer contra o dela. Estava com os olhos na altura da linha afiada e reta da clavícula do irmão. O corpo dele parecia uma prisão em volta do dela, mantendo-a no lugar.
— Não sou nada como você. Solte-me...
— Você é inteligente como eu — rosnou ao ouvido dela. — Infiltrou-se aqui. Fingiu amizade, fingiu se importar.
— Nunca tive de fingir que me importo com Jace.
Clary viu alguma coisa brilhar nos olhos dele naquele instante, um ciúme sombrio e ela sequer soube de quem. Ele colocou os lábios na bochecha dela, perto o bastante para que Clary os sentisse se movendo contra sua pele quando ele falou.
— Você nos ferrou — murmurou Sebastian. Sua mão envolvia o braço esquerdo de Clary como um torno; começou a abaixá-la devagar. — Provavelmente ferrou Jace... literalmente. Clary não conseguiu evitar, se encolheu. Sentiu Sebastian respirar fundo.
— Foi isso — disse ele. — Dormiu com ele. —Soou quase traído. — Não é da sua conta. Sebastian agarrou o rosto dela, virando-a para ele, enterrando os dedos no queixo da irmã.
— Não pode transar com uma pessoa até torná-la boa. Mas belo movimento sem coração, no entanto. — A boca adorável de Sebastian se curvou em um sorriso frio. — Sabe que ele nem se lembra, não sabe? Ele pelo menos te divertiu? Porque eu teria. Ela sentiu a bile na garganta.
— Você é meu irmão.
— Essas palavras não querem dizer nada para nós. Não somos humanos. As regras deles não se aplicam a nós. Leis estúpidas sobre quais DNAs não podem se misturar. São hipócritas, na verdade. Já somos experimentos. Os governantes do antigo Egito costumavam se casar com irmãos, você sabe. Cleópatra se casou com o dela. Fortalece a linha de sucessão.
Ela o olhou com desprezo
.— Sabia que você era louco — disse. — Mas não sabia que estava absoluta, espetacularmente fora de si.
— Oh, não acho que haja loucura nisso. A quem pertencemos, senão um ao outro?
— Jace — disse ela. — Pertenço a Jace.
Sebastian emitiu um ruído de desprezo.
— Pode ficar com Jace.
— Pensei que precisasse dele.
— Preciso. Mas não para o que você precisa. — Se repente estava com as mãos na cintura de Clary. — Podemos dividi-lo. Não ligo para o que fizerem. Contanto que você saiba que pertence a mim.Ela levantou as mãos, com a intenção de empurrá-lo.
— Não pertenço a você. Pertenço a mim.
O olhar dele a congelou no lugar.
— Acho que você é mais esperta do que isso — falou, e beijou-lhe a boca, com força.A boca de Sebastian se moveu na dela, dura e fria como uma navalha no escuro, então ela ficou na ponta dos pés e mordeu o lábio do irmão com força. Ele gritou e girou para longe dela, levando a mão à boca. Clary sentiu o gosto do sangue de Sebastian, cobre amargo; pingou pelo queixo dele enquanto a olhava com olhos incrédulos.
— Você...
Clary girou e o chutou com força na barriga, torcendo para que ainda estivesse dolorida do soco de antes. Enquanto Sebastian se curvava, ela passou disparada por ele, correndo para a escada. Estava na metade do caminho quando o sentiu agarrá-la pelo colarinho. Ele virou a irmã, como se estivesse girando um taco de beisebol, arremessando-a contra a parede. Ela bateu com força e caiu de joelhos, perdendo o ar. Sebastian foi em direção a ela, as mãos flexionadas nas laterais, os olhos brilhando, negros como os de um tubarão. Sebastian esticou o braço para ela, e ela empurrou o próprio corpo contra o chão, movimentando as pernas de lado enquanto levantava, dando uma rasteira que levantou Sebastian do chão. Ele caiu para a frente, e ela rolou para fora do caminho, levantando-se. Não perdeu tempo tentando correr desta vez. Em vez disso, pegou o vaso de porcelana da mesa e, enquanto Sebastian se levantava, lançou-o contra sua cabeça. O vaso estilhaçou, entornando água e folhas, e ele cambaleou para trás, sangue brotando em seus cabelos branco-prata. Ele rosnou e saltou para cima dela. Foi como ser atingida por uma bola de demolição. Clary voou para trás, destruindo a mesa de vidro, e caiu no chão em uma explosão de cacos e agonia. Ela gritou quando Sebastian aterrissou nela, empurrando seu corpo contra o vidro quebrado, os lábios retraídos em um rosnado. Desceu o braço em um movimento inverso e bateu na cara dela. O sangue a cegou; Clary engasgou com o gosto na boca, o sal ardeu em seus olhos. Ela levantou o joelho, acertando-o na barriga, mas foi como chutar uma parede. Sebastian agarrou as mãos da irmã, forçando-as nas laterais do corpo.
— Clary, Clary, Clary — disse. Estava ofegante. Pelo menos, tinha dado um cansaço nele. Sangue corria em um rastro lento de um corte na lateral da cabeça, manchando os cabelos de vermelho. — Nada mau. Você não era uma grande combatente em Idris.
— Saia de cima de mim... Ele abaixou o rosto para perto do dela. Botou a língua para fora. Ela tentou se afastar, mas não conseguiu ser rápida o suficiente quando ele lambeu o sangue do seu rosto e sorriu. O sorriso abriu o lábio de Sebastian, e mais sangue escorreu pelo queixo.
— Você me perguntou a quem pertenço — sussurrou. — Pertenço a você. Seu sangue é meu sangue, seus ossos, meus ossos. Na primeira vez em que me viu, pareci familiar, não foi? Exatamente como você pareceu familiar a mim.
Ela o encarou.
— Você está louco.
— Está na Bíblia — falou. — O cântico de Salomão. “Tu violentaste meu coração, minha irmã, minha esposa; violentaste meu coração com um de teus olhos, com uma corrente do teu pescoço.” — Os dedos de Sebastian esfregaram sua garganta, se enrolando no cordão ali, o cordão do qual se pendurava o anel Morgenstern. Ficou imaginando se ele a enforcaria.
— “Eu durmo, mas meu coração desperta: é a voz da minha amada que bate, dizendo, Abra para mim, minha irmã, meu amor.” — O sangue de Sebastian pingou no rosto dela. Ela manteve a face imóvel, o corpo chiando com o esforço, enquanto a mão escorregava para a garganta, pela lateral, até a cintura. Deslizou os dedos para dentro da cintura da calça. Tinha a pele quente, ardente; Clary pôde sentir que ele a queria.
— Você não me ama — disse ela. Sua voz soou fraca; ele estava forçando para fora o ar de seus pulmões. Lembrou-se do que a mãe tinha dito, que todas as emoções demonstradas por Sebastian eram forjadas. Os pensamentos de Clary estavam claros como cristais; ela agradeceu silenciosamente à euforia da batalha por fazer o que tinha de ser feito e mantê-la concentrada enquanto Sebastian a enojava com seu toque.
— E você não liga para o fato de eu ser seu irmão — declarou. — Sei como se sentia em relação a Jace, mesmo quando achou que ele fosse seu irmão. Não pode mentir para mim.
— Jace é melhor do que você.
— Ninguém é melhor do que eu. — Sebastian sorriu, todo dentes brancos e sangue. — “Um jardim anexo é minha irmã” — falou. — “Uma fonte fechada, um chafariz selado.” Mas não mais, certo? Jace cuidou disso. — Ele mexeu no botão da calça jeans de Clary, que se aproveitou da distração para pegar um pedaço grande e triangular de vidro e enfiar a ponta no ombro dele. O vidro deslizou pelos dedos de Clary, cortando-os. Ele gritou, indo para trás, mais por surpresa do que por dor — o uniforme o protegera. Ela apunhalou, desta vez com mais força, a coxa dele com o vidro. Quando Sebastian recuou, ela enfiou o cotovelo do outro braço na garganta dele. Ele caiu de lado, engasgando, e Clary rolou, prendendo-o sob ela enquanto puxava o caco da perna dele. Abaixou-o na direção da veia pulsante do pescoço dele — e parou. Sebastian ria. Estava embaixo dela, rindo, a risada vibrando pelo corpo de Clary. Estava com a pele suja de sangue — sangue dela, pingando nele, e o dele escorrendo do corte, os cabelos branco-prateados manchados. Ele permitiu que os braços caíssem para os lados do corpo, abertos como asas, um anjo quebrado, caído do céu. Ele disse:
— Mate-me, irmãzinha. Mate-me e matará Jace também.
Ela usou o caco."












