ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ𝔦𝔫𝔞𝔢̂ 𝔞𝔯𝔞𝔲́𝔫𝔞 𝔡𝔞 𝔠𝔬𝔰𝔱𝔞 ⏾
A história nos conta que todo clã carrega a sua sombra, no caso dos Araúna: é o silêncio. Entre o manguezal e as águas barrentas do rio Guamá, muito antes dos prédios engolirem o horizonte, eles já eram conhecidos como a família que nunca empunha a lança, mas que decidia onde ela deveria ser fincada. Belém do Pará foi o berçário de Inaê e também o lugar onde a tradição da família se moldou. Os Araúna vinham de uma linhagem de lobos ancestrais, observadores e silenciosos, estrategistas e sempre assertivos em seus conselhos. Foi ainda menina que Inaê aprendeu, com a floresta, que o mundo não falava em palavras, mas em sinais.
Nos anos 90, quando a mata foi rasgada a dentes e fogo, que a família entendeu que a guerra havia mudado de território. Alguns ficaram para lutar e morrer junto às suas raízes, outros, como os Araúna, atravessaram o oceano em busca de novos propósitos, se fixando anos mais tarde em Nova York. Dentro dos Fenris, o pai de Ianê foi o primeiro Consigliere, e de dentro da selva, ela passou a crescer nos bastidores, sobrevivendo entre o concreto e o sangue. Desde muito nova, ela sabia que o posto um dia seria seu. Era obstinada, calculista, até mesmo o seu olhar era frio e atento, captando tudo que pudesse memorizar sobre os ensinamentos e conselhos do próprio pai.
Quando herdou o posto, Inaê não quis ser somente uma sombra fria. Havia nela algo ainda mais perigoso, uma espécie de instinto materno. Ela cuidava dos lobos, oferecia conselhos e consolo. Aprendeu a se camuflar, a agradar a todos, nem se deu conta quando sua máscara havia sido criada. Para cada, um novo rosto. Ela entendia que as pessoas não queriam ser contrariadas, mas agradadas. Gostavam de ouvir o que precisavam ouvir mas da maneira certa e Inaê, como uma boa observadora, aprendeu com os anos a lidar com cada um deles. Com alguns, a fala parece vir de uma mãe, com outros, de uma fera. Ela molda a sua voz, o seu olhar, sua própria personalidade, tudo para se encaixar ao que cada um deseja e precisa. No final, ser verdadeira tornou-se irrelevante perto de conseguir o que queria.
Para manter seus olhos em cada esquina da cidade, Inaê comprou o antigo bar Irlandês. Assumindo por debaixo dos panos o The Dead Rabbit, ela selou um acordo entre primeiros donos. Inaê entraria com o dinheiro e a administração, eles permaneceriam com a fachada. Era um lugar discreto, afinal, todos da Dante passavam por ali. Por entre as paredes escuras e os copos sempre cheios, Inaê podia ouvir sobre os Fenris, sobre a Dante e sobre inimigos que talvez ela nem soubesse ainda que eram inimigos. Nada passava por entre seus dedos. E se o bar não bastasse, ainda haviam as suas alianças ocultas, os acordos murmurados e os favores trocados.
Com Bernado, sua relação foi marcada por silêncios cúmplices. Ele a ouvia como quem escuta a própria consciência. Sabia de tudo sobre o antigo Alpha, enquanto ele conhecia apenas o que ela queria que ele soubesse. Nunca quis o seu trono, embora é claro, em alguns momentos sentisse a falta do menor dos reconhecimentos. Ainda assim, a sua perda foi como um golpe certeiro. Mas não forte o suficiente para desnorteá-la.
Agora, Inaê continua como a tecelã invisível da alcateia. Sorrateira, viva como uma sombra que atravessou gerações. Sempre camuflada, moldada aos quereres dos outros, ganhando a confiança dos novos e antigos, mas nunca deixando de permanecer a espreita, decidindo por entre sussurros em ouvidos alheios cada novo passo dado pelos crias dos fenris.














