Eu sempre tive muito medo de nunca me curar da ferida que alguém deixou ao passar pela minha vida.
Sem dúvidas, essa história me rendeu muitos argumentos emocionais por vários anos. Falar dele envolvia profundidade, porque houve sentimento sincero, e assuntos viscerais costumam ser emocionantes. Não foi fácil superar.
Durante muito tempo eu achei que me curar significava esquecer. Então evitava tocar no assunto, porque alimentava a esperança de que um dia ele desapareceria completamente da minha memória e só então eu estaria curada.
Mas toda vez que ele voltava aos meus pensamentos, um sentimento de pânico me invadia. Eu pensava: "Como eu posso amar tanto alguém que me fez tão mal? Alguém que não me escolheu, que não quis estar comigo?"
Às vezes acreditava que estava fadada à solidão por permanecer presa naquele fosso emocional. Achava que aquela dor me tornava menos merecedora do amor que outra pessoa pudesse me oferecer. Como se carregar aquela história fosse uma prova de que eu estava quebrada demais para ser amada novamente.
"Fui amaldiçoada", eu pensava.
Mas os anos passaram.
No início, tudo era visceral. Meu corpo adoecia junto com a minha alma. A dor era tão intensa que parecia ocupar todos os espaços da minha vida. Com o passar do tempo, porém, ela foi mudando de forma. É claro que houve dias em que chorei mais do que outros. O choro não foi diminuindo de maneira linear. Algumas vezes as lágrimas vinham aos berros; outras, silenciosas. Em certos dias ficavam apenas entaladas na garganta, como um nó no estômago.
Mas, enquanto tudo isso acontecia dentro de mim, a vida continuava girando lá fora.
E a minha vida também.
As estações mudaram. As pessoas mudaram. Os meus sonhos mudaram. E, sem perceber, eu também mudei.
Quando me dei conta, já não era uma ferida aberta, sangrando e inflamada. Era uma cicatriz.
E cicatrizes não são esquecidas.
Elas são marcas concretas daquilo que sobrevivemos. São lembranças silenciosas do que não devemos aceitar novamente em nossas vidas.
É claro que eu vou lembrar. Foi profundo. Doeu. Fez parte do meu amadurecimento como mulher e como ser humano.
Mas algo havia mudado.
De repente, eu lembrava e não sentia vontade de ligar. Não sentia vontade de mandar mensagem. Não imaginava reencontros. Não criava cenários. Eu simplesmente não fazia nada com aquela lembrança.
Ela existia, mas já não me governava.
E foi nesse momento que percebi que estava curada.
Porque a cura não era esquecer.
A cura era lembrar e continuar em paz.
Era perceber que a memória já não me atravessava como uma faca. Que ela não moldava mais minhas escolhas, não definia meu valor e não me fazia acreditar que eu estava condenada a viver presa ao passado.
E isso é a cura.
Não apagar o que aconteceu.
Mas finalmente deixar de viver como se aquilo ainda estivesse acontecendo.











