Percebeu que soou babaca não explicar seu pensamento, Cedric esquecia que ninguém (exceto talvez Casper Kane) era tão desgraçado de viciado em tecnologia quanto ele. “O desenvolvedor do Linux, na minha opinião o melhor sistema operacional. Uma máquina com Linux é uma máquina com possibilidades infinitas” expressou sua opinião. Trabalhou na Apple por necessidade e tinha o MacBook que foi presente do seu tempo lá mas considerava a qualidade do iOS e macOS igualável ao de uma torradeira com Wi-Fi. Concordou com Patie enquanto ela falava sobre quem levaria pra jantar, mesmo que não tivesse ideia de quem era, a explicação dela foi suficiente. “Isso te interessa pra caramba né? Pensa em seguir isso na faculdade?” perguntou e por mais que isso parecesse algo tirado do roteiro do Google, Martin estava interessado no que Patie tinha reservado pra si mesma. Sempre falaram só do anônimo, Eloise e Camille, sobrou pouco espaço para o resto. “Acho que quando ela aconteceu era só uma coisa normal. Depois se tornou minha preferida. Agora. Por causa de tudo” explicou mas não se aprofundou. A memória em questão era de um Natal em família, naquele em que pai, mãe e filha se juntaram para dar a Cedric um computador novo. Foi a primeira vez que quase chorou na frente de alguém, mesmo assim segurando ao máximo e fazendo alguma piada para disfarçar. Agora qualquer lembrança que envolvesse Romain, Valerie e Camille junto dele entrava como favorita. Agradeceu Patie por pincelar o momento com humor e tirar sua cabeça do sentimentalismo. Fingiu bater palmas. “Quase perfeito, dou 8 de 10, senti falta de uma contextualização melhor, não acreditei muito. Qual era o nome do cachorro? Onde isso aconteceu? Esse tipo de detalhe” brincou de volta. Se colocou a pensar em mais um assunto para continuar a sequência de conversas que até agora foi bastante divertida. “Acho que essa deve ser a parte do roteiro que eu pergunto as coisas que tu gosta. Qual sua cor preferida? Série preferida? Livro preferido? Comida preferida?” ironizou, mas ficou surpreso ao pensar que não sabia muita coisa de Patie mesmo que a conhecesse por um tempo considerável levando em conta o número de interações deles.
Linux... Linux... “Ah, aquele do pinguim” pensou em voz alta. E, mais uma vez, era tudo que sabia sobre o sistema. Embora já tivesse lido textos a respeito das semelhanças entre a programação de computadores e a do DNA, Hypatie não possuía muito interesse pela área, apenas o suficiente para conseguir prestar atenção em Casper e Cédric quando falavam no assunto. “É, eu acho que sim” confirmou, a respeito da faculdade, e se questionou se havia conversado sobre aquilo com alguém. Vinha pensando nos próximos passos há meses, apesar dos contratempos, e concluído que seria melhor ficar em sua zona de conforto. Criminologia era interessante, sim, porém as falhas humanas — vistas frequentemente no caso de Eloise e Camille — a estressavam demais. Quanto ao cinema, talvez fosse melhor manter como um hobby. “Decidi aplicar pra medicina. Se eu não gostar da prática, sempre tem a opção de fazer pesquisa.” Por algum motivo, sentia-se envergonhada em compartilhar aquele plano. Ela, médica? Parecia não ser uma combinação boa considerando o imaginário popular, contudo, sabia que possuía as características essenciais para se tornar uma boa profissional. Isto é, contanto que não seguisse a carreira de pediatra. “Você vai fazer faculdade?” questionou. Pelo pouco que sabia sobre os cursos de computação e as habilidades de Cédric, podia imaginar que seria redundante ficar em uma sala de aula por quatro anos aprendendo o que provavelmente já sabia. Se Casper havia conseguido um emprego na área sem educação formal, por que não ele? “Aconteceu no parque, claro, aqui em Cannes e o cachorro se chamava Lule.” Não se lembrava bem de onde havia ouvido aquele nome associado à Cédric, provavelmente na casa da vidente que tanto frequentava, ela sempre fazia comentários peculiares e ricos em detalhes a respeito das vidas paralelas de Hypatie e seus amigos. Talvez não fosse o cachorro... Enfim. Com o bombardeio de perguntas, não conseguiu evitar soltar uma risada alta. Pensando bem, não era nada surpreendente que Cédric tivesse aquelas dúvidas, apenas esquisito. Ele conhecia seu histórico com drogas e ela os detalhes sobre o caso de Camille, já havia até mesmo o visto chorar, porém não sabia responder questões básicas sobre o amigo. “A gente não se conhece mesmo, né?” brincou, recuperando o ar. Pelo visto, a ideia de Margot não havia sido tão ruim assim. “Eu não tenho coisas preferidas, não consigo escolher. Mas vou tentar pelo bem maior. As primeiras que vem na minha cabeça agora são furta-cor, Doctor Who, Harry Potter e a Ordem da Fênix, comida indiana. E você?” Harry Potter? Devia ter escolhido o Guia do Mochileiro das Galáxias. Ou 1984. O Conto da Aia, Garota Exemplar... Não, tinha mais apego emocional a Orgulho e Preconceito... Mas aquele era um guilty pleasure.