O pai não muda a rotina. O pai não tem privações. O pai não tem o corpo revirado de dentro pra fora. O pai não acorda a noite, pra vomitar até as tripas. O pai não sofre durante meses, tendo que se adaptar ao mundo todo se refazendo diante dos seus olhos. O pai não tem que refazer toda a vida. O pai não vai ter o corpo violado e abatido como um animal na cama de um hospital, com pessoas indo e vindo enfiando os dedos, ou a mão na sua genitália. O pai não tem o órgão arregaçado pra por a cria no mundo. O pai não tem os seios feridos, chora de dor, e mesmo assim continua, pra saciar a fome da cria. O pai não precisa suportar o peso de ter que criar o filho só. Porque isso é papel da mãe.
Pai, escolhe ser pai. Mãe é escolhida desde que vem pro mundo.
Pai abandona e continua sendo pai. Mãe? Isso não é coisa de mulher.
Pai não é chamado de piranha, puta, coitadinha, ou castigada por ser pai solteiro. Mãe? Ah, “deu porque quis, agora aguenta as consequências.”
Pai, não quer criar? Tudo bem, é coisa de homem.
Mãe deixa um pouco com a avó pra respirar: “Essa não presta, teve filho e jogou pra mãe criar. É vagabunda mesmo.”
Pai não precisa enfrentar o mundo todo, pra ser aceito e respeitado.
Mãe, luta constantemente pra ter no mínino um pouco de paz.
Homem faz. Alguns até se disponibilizam a cumprir suas obrigações.
Mulher? Se vira. Abriu as pernas né?
Filho é da mãe. Ela tem obrigação de ser mãe.
Pai? Pode aparecer uma vez no ano, dar um presentinho, e pronto! Medalha de melhor pai do ano.
Mãe não pode errar, mãe não pode ter tempo pra si. Mãe não pode se cuidar ou abrir espaço pra ninguém além do filho na vida. Mãe é mãe, e só. Não pode ser mais nada além disso. E quer saber? Tudo bem ser mãe. Afinal, eu nasci pra isso. Mas nunca ninguém vai ter abertura na minha vida pra me fazer sentir presa, obrigada a me diminuir, ou sequer infeliz por tudo isso citado a cima. Eu sou mãe. Mas eu escolho como.