Tô ferido. Parece que enfiaram uma faca meticulosamente no meu estômago e o sangue escorreu vagarosamente, frio, seco, estático. Parece que pisaram em minhas mãos e deixaram-nas apodrecer na vala, em alguma cela, em alguma parte do mundo que o demônio escolheu pra explodir. Eu choro agora. Aquela lágrima que você segurou tanto tempo, durante tantos dias, que nem faz mais sentido limpar o rosto com as costas das mãos porque não resolve a cratera imensurável que tomou posse do seu coração. E nessas horas, não há ninguém que te estenda a mão, não há ninguém que alivie. De verdade. Por mais que tentem me reanimar. O tiro atravessou os tecidos, parou no órgão e chorou, refastelou a ordem a calou meu soluço. Tô tão ferido, sozinho. Aquela fera ferida, domesticada, arisca, segundo bethânia. Aquela que atiraram pra não matar, mas pra que ficasse agonizando até que a boca espumasse e não restasse pele. Eu sequei. Eu não quero mais estar aqui, não assim, desse modo febril e doente, nesses dias atordoados e quentes e que sinto vontade de morrer, nessas vontades de dizer verdades e morrer delas, dizer muitas coisas, atirar muitas facas, desengasgar. Dizer que tô cansado do meu próprio corpo, do meu próprio ócio, do meu próprio pesadelo de ser como tenho estado, de agredir como tenho feito, de ser ferido como fazem sem perceber. Tô tão exausto. De nadar contra a maré, de bater os pés para entrar, de respirar e sufocar dentro do metrô; buscar ar e não tê-lo, não poder tocar no que me é, no que me transforma. É tudo tão fatídico e eu só queria um abraço. Sem que me aliviasse, sem que me pedisse trocas, sem que afetasse. Só umas mãos em cima do meu colo, um sufocamento de paz, uma alegria desandada. Tudo que falo agora é porque não consigo dizer ou gritar, nem ao menos esfregar na cara das promessas vãs e inúteis e da fome comiserável que eu não saciei. Comi de tudo: das prostituições, das bebidas, dos peitos vazios, das chacinas. Alimentei as esperanças tolas, as fés inúteis, os vazios ensandecidos, as conversas muitas, as mãos que se cortavam. Feriram-me. Eu choro agora. Só o amor é urgente.