Propagandas sobre a conveniência da tecnologia
Propagandas que supervalorizam tecnologias e suas possibilidades de simplificar e simular diversos eventos da vida cotidiana não são novas.Lembro de uma que passava no final dos anos 1990, na MTV. Era uma propaganda da UOL e mostrava um carteiro indo entregar uma carta no apartamento de alguém. Uma velhinha abria a porta e o carteiro saía correndo. Ela, desesperada, subia as escadas atrás do carteiro para tentar pegar a carta. O carteiro fugia em um helicóptero e a velhinha ficava pendurada nele implorando pela correspondência. Pois é, a mensagem era simples: mandar um email é mais seguro e fácil do que mandar uma carta.
Recentemente vi uma propaganda nova mais ou menos nessa linha. Era uma propaganda da Claro Tv que mostra um casal no cinema, sendo que a mulher reclama com o marido que o filme não dá pra "dar um pause" e que se eles tivessem contratado um serviço de tv a cabo eles poderiam gravar o filme e assistir do jeito que quisessem.
Eu entendo que existem pessoas que não gostam de ir ao cinema e, pra essas pessoas, assistir a um filme em casa deve ser realmente bem melhor. Mas o que a propaganda faz de maneira infeliz - além de vangloriar a tecnologia e suas conveniências de um jeito estúpido - é julgar que o público da tv a cabo é um tipo de público que só vai ao cinema se não tiver tv a cabo. Ou seja, o cinema é um quebra-galho pra quando não dá pra ver um filme na televisão. Mas isso, obviamente, não faz sentido.
Em primeiro lugar, ver televisão e ir ao cinema são coisas muito diferentes. Muitas vezes a ida ao cinema é por um motivo social (saída com os amigos, namoro etc.) ou então é para experienciar uma qualidade de imagem e som que normalmente não se tem em casa (meu caso). Além disso, quem assina a tv a cabo geralmente acaba fazendo que nem eu: tenho dezenas de canais de filmes, mas não uso pra quase nada. Pra não dizer que eu não vejo filme de jeito nenhum na tv eu até que assisto, mas só umas poucas cenas de cada um, enquanto fico zapeando pra lá e pra cá, esperando o tempo passar e o sono aparecer.
O que propaganda da Claro tenta deixar subtendido é que ter a facilidade e o comodismo do controle na mão vai proporcionar mais vantagens em relação a assistir as coisas que eu gosto. Mas pra mim isso está errado. Essa comodidade traz, apenas, mais probabilidades de você se tornar um especialista em ver uma centena de trechos de muitas coisas, sem foco nenhum.
Pra não ficar só no exemplo da tv a cabo, posso dizer que o mesmo acontece em relação a serviços como o Netflix. A conveniência de você poder desligar o videogame, desligar a tv e no outro dia voltar a assistir ao filme de onde parou parece um grande benefício, mas não é. Uma coisa é quando acesso o Netflix pro meu filho ver um desenho do Esquadrão de Heróis (horrível!) enquanto ele lancha um biscoitinho lá na casa. É uma assistida marota, sem compromisso com o que tá passando. E aí o Netflix é sensacional, porque é muito mais prático do que ficar trocando os DVD's de meia em meia hora. Mas outra coisa é a ilusão de que eu vou ver todos aqueles filmes que estão disponíveis lá (e são muitos!).
Até hoje só vi dois filmes inteiros no Netflix: Era uma vez no Oeste e O Professor Aloprado (com Jerry Lewis, claro), mas não foi legal. Demorei uns três dias pra ver cada um deles. É tão tentador parar no meio filme e continuar depois em outro momento que você acaba invariavelmente fazendo isso sempre. Da mesma forma que é muito tentador mudar de canal do intervalo de um programa na tv, o que te faz encontrar outra coisa que é interessante e assistir um pouquinho, depois mudar de canal de novo e se deparar com uma terceira coisa legal e assistir um pouquinho, depois voltar pro primeiro programa e... Dispersão é a palavra que resume isso.
Quando eu vou ao cinema eu vou pelo filme. Só. Não é igual a ver na tv.
Descobri recentemente que existe uma palavra pra descrever quem é avesso às tecnologias novas: ludista. Lendo esse texto você pode pensar que eu sou isso, mas não é verdade. Adoro tecnologias novas e suas possibilidades. Mas que a conveniência excessiva atrapalha um pouco atrapalha. Vai dizer que não?
Por Marcos Ramon, em 05/12/2013














