me perco
em teus labirintos. saídas entradas esqui n a s dobradas.
em você pensei que eram apenas becos mas são e s r d s. t a a
Pêagá Machado
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me perco
em teus labirintos. saídas entradas esqui n a s dobradas.
em você pensei que eram apenas becos mas são e s r d s. t a a
Pêagá Machado
Alguém vai conhecer o seu caos pisar nos seus cacos de vidro sentar nos seus escombros respirar suas roupas cheias de mofo ler seus poemas cheios de remorsos e vai decidir ficar.
Pós-verdade
Sempre que eu começo com uma mentira o texto não anda. A literatura necessita de uma verdade primeira e fundamental para conseguir embalar. Algo que significa muito e que seja real mesmo que todo o restante seja puro delírio e imaginação. Mas as primeiras palavras têm que pisar no chão da história. Tem que encontrar ressonância com o peito. O negócio é enterrar uma verdade e deixar que as mentiras possam vir e devorar a carne do cadáver.
Eu tinha uma mania escrota de observar urubus devorando carniça e não me ressentia por isso. Achava o máximo um bando de aves famintas sobrevoando boi, cachorro, gato mortos. Era uma mania mórbida e sem nexo. Eu ficava estrategicamente posicionado perto de um aglomerado de lixo e esperava. Primeiro eles sobrevoavam em círculos numa altura considerável. Progressivamente iam baixando a altura do voo. Depois pousavam em um poste ou em uma área próxima. Nunca um urubu vai direto à podridão. Ele rodeia até se sentir seguro. Eu achava aquilo realmente um espetáculo. Um balé. Depois vinha o banho de sol. Abriam as asas de forma imponente e ficavam estáticos curtindo aquela carne se desmanchar por dentro. Acho que observar urubus devorando comida podre e pousando sobre sacolas de lixo foi minha primeira experiência lírica. Eu via beleza naquilo. Sabia que haviam aves mais nobres mas que não tinham aquele bailado. O importante é ter charme e desenvoltura. Até mesmo quando o banquete é carniça.
Baía de poucos santos
Nunca, em hipótese alguma, classifique o mar na maré alta. O sol refletindo gerando o belo reflexo é pura miragem, ilusão. Serve apenas para pequenas frações das tardes. Nada mais. O lixo, os móveis velhos, demais entulhos e até os esqueletos dos peixes só ficam aparentes quando as coisas esvaziam, quando o que sustenta a beleza, as aparências e as gaivotas vai em embora. Quando a gente cria coragem e tira a rolha que mantém o tanque cheio, redemoinhos transformam as paisagens dos quadros do Monet em aterros sanitários cheios de urubus.
Passei a não dar mais adeus para quem vai embora. Quem dá adeus ainda sente alguma coisa ainda guarda uma esperança e deixa uma porta entre-aberta. Mantem-se apegado. Substituí por um singelo “obrigado”. Entendi que agradecer é o melhor caminho. Fiz isso semana passada. Por telefone mandei em alto e bom som um “obrigado” seco. Me senti leve. Fui ao banheiro. Lavei o rosto e vi o fantasma da mágoa indo embora pelo ralo.
Chega uma hora que as prateleiras do nosso peito já estão arriadas de tanto guardar coisas, enclausurar palavras. A vida não costuma perdoar quem carrega muito peso. É necessário colocar tudo pra fora. Expurgar os excessos. Exorcizar os traumas. Jogar ao vento as folhas secas acumuladas no último outono.
Pago insultos com silêncios. Responder ofensa é abrir crediário com juros alto.
Quanto tempo que não passo por aqui, to até assustada! Boa noite
Assustada pq? Boa noite!
Necrose
Chega uma hora que parece que estamos em um pântano atolados até o pescoço. Nada que façamos adianta mais. Nada que digamos pode reverter a situação. Sua imagem flácida e esquizofrênica perante o outro só fica mais retorcida. Você é um esquecimento apodrecendo. Um cigarro intragável. Um caminhão que só derrapa ao tentar dizer algo que possa salvar o relacionamento. Mas tudo cai no vazio. Esforços, súplicas, frases feitas, “eu ainda te amo”, “fica mais um pouco” soam como xingamento e repelente. Chega uma hora que você fica necrosando no peito dos outros. Pedro Machado
Tenho escrito sobre fracasso e isso tem despertado a atenção das pessoas. Esse lance de falar que tudo é sucesso é muito irreal. Viajante demais. Sabemos que nem tudo dá certo. Sabemos dos tropeços, do tiro que masca e dos relacionamentos abusivos. Sabemos dos copos vazios e da solidão num domingo a noite. Sabemos das falhas genéticas, dos amigos depressivos, da aids consumindo a África e dos crimes ambientais das grandes corporações. Estou pensando em ser coach do fracasso. Fazer o caminho inverso. Somente escrever coisas indesejadas e que não passam no comercial da TV. O mundo está mais para a falência do que para alta em bolsas de valores. Nós insistimos no paraíso mas somos dívida ativa. Fiquei ontem pensando em como tirar meu nome do SPC e comprar meu Chevette 1992.
Pedro Machado
Ontem fui a um evento de empresários. Comida boa. Música ao vivo de excelente qualidade. Mas ninguém levantou da mesa para dançar. Aí pensei que o dinheiro abre lojas e compra carros mas enrijece a alma.
Pedro Machado
Preencha-te mas com qual substância mesmo?
Quadris
Visitar seus avós e presenciar deus fazendo malabarismo ouvir histórias de seu pai e outros parentes saber que um tio distante faleceu que o atrito dos ossos maltrata sua tia conversar sobre cubos mágicos com seu primo de 13 anos onda oitentista cheia de truques mergulhar nas memórias de pé de acerola e balanço na varanda o tempo é cruel demais com a gente enrijece as coisas, as pessoas, os quadris. Pedro Machado
Vamos fingindo demência com a indiferença alheia. Empurrando rusgas, atritos e aborrecimentos com a barriga. Vamos procrastinando as mágoas que um dia se tornarão lembranças em papel almaço ou em asilos escondidos de todos os olhos. Vamos acariciando as depressões e todas as outras misérias de nossa sociabilidade torta. Estamos envelhecendo e as ressacas estão cada dia mais amargas e as drogas só ficam mais ruins. A pureza se foi. Agora é só mistura de bicarbonato de sódio com ácido bórico nos pulmões. Cigarros falsificados. Carnes com papelão. Verduras, frutas e legumes mergulhados no veneno. Vamos postergando as tristezas. Vamos nos anestesiando contra as covardias. Mas tive uma ideia. Vou chamar meus ex amores e desafetos para assistir ao nascimento de tartarugas. Ver o sol brilhar e o mar engolir pequenos seres. Sinto que essa é a hora perfeita para o perdão. Quando faltam palavras e sobram esperanças.
Pedro Machado
Ácido
A privada entupiu. Ranquei uma das folhas de meu caderno cheio de lirismo, amassei e joguei lá naquela merda toda. Pronto. Resolvido. Tem poema que é muito ácido e serve para desentupir e abrir caminhos.
Pedro Machado
Nuclear
A discussão ontem na aula de iluminação foi sobre a propensão humana ao desenvolvimento do câncer. Pensei nos poemas que escrevi nesses últimos meses. Um mais cancerígeno que o outro. Escrever tomando por base ressentimentos é manter uma usina nuclear no peito.
Pedro Machado