Fazer algo inusitado é engraçado. Nunca saberemos se nós realmente vamos, enfim, conseguir aquilo que realmente queremos. Tentar é a mais próxima realidade de descobrir duas importantíssimas coisas: a primeira é se nós realmente estamos satisfeitos com a tentativa de alcançar aquilo que julgamos correto, pois, muitas vezes, é fogo de palha. Queima rápido e, quando você para e olha, já se foi tudo. Trazendo isso para a vida: é comum nós querermos algo, mas, infelizmente - ou felizmente -, na hora H, nós percebemos que não era aquilo que esperávamos; a segunda coisa é se nós, com nossas capacidades cognitivas de sermos seres altamente complexos, iremos alcançar aquele tão almejado desejo de possuir algo. Mas nem sempre a vida é tão agradável assim. Na verdade, na grande maioria das vezes, ela não te entrega aquilo que você quer. Não tem como saber qual vai ser o resultado de tentar. Eu gosto de metaforizar o ato de tentar a um episódio que aconteceu com um amigo meu, recentemente: ele estava em minha casa, de partida para a dele. Porém, chuviscos começaram a cair de leve. O problema maior é que a viagem dele seria feita de bicicleta e, apesar de ele morar perto da minha casa, iria tomar chuva. Logo, ele esperou os chuviscos irem embora para que ele pudesse fazer o mesmo. E assim fez. Quando os chuviscos passaram, ele tomou o rumo para a casa dele, ainda receoso da chuva, pois o céu ainda estava bem nublado. Perguntou-me, então, em um breve momento antes de partir: "será que vai chover?". Mandei-o ir. E foi. O ato de tentar é a mesma coisa do que aconteceu com esse amigo. Há dois aspectos da história contada da chuva: o primeiro diz respeito que a tentativa faz-te arriscar por algo que você deseja, mesmo que, não querendo, você tenha que acabar "tomando chuva"; o segundo aspecto é que você não sabe se vai chegar ao seu destino intacto que, no caso do meu amigo, seria chegar seco em casa. Ou seja: não há como prever se você chegará bem ou mal ao seu destino, nem mesmo saber se você vai levar muitas quedas na travessia. Essa incógnita que existe no ato de tentar é que o transforma em algo que nos propulsiona a querer fazê-lo, mesmo sabendo que podemos perder mais do que ganhar ao chegar onde queríamos. É difícil descrever essa sensação, pois é tudo tão incerto. Talvez seja essa a graça da vida, o fato de ela ser uma eterna interrogação. Viver seria responder a essa interrogação. Caso contrário, acho que não estamos vivendo. - BUSCHINELLI, João