A continência da memória humana é um de exíguos fatores passíveis de definir-se como incomensuráveis. Em oposição a diversos aparatos tecnológicos, inexistente é a maneira de auferir asserção quanto à dimensão de armazenamento do cérebro. Tão potente mecanismo, contanto, jamais há de ver-se vago de cincas. A cardeal destas sendo, indubitavelmente, o olvido. Remembranças aquelas que, por incertas vias do que é ciência, diz-se não serem extinguidas perpetuamente mas, sim, deslocadas à impérvia esfera no pertinente ao que é consciente. Todo indivíduo carente do que é eidético referente à memória, portanto, é suscetível a obliterar ditas remembranças; já sendo por meio de natural processo seletivo do que é imprescindível quando trata-se de informação ou, em não tão inusuais conjunturas, acidentes tanto de cunho físico quanto psicológico, que terminam por afetar dita área das faculdades e, consequentemente, bloquear certos fragmentos de informe. Contanto, em paralela maneira ao fato, é existente oposta projeção. O indivíduo está, também, sujeito a armazenar recordações em permanente maneira, a intensidade sendo variante. De acordo com o que é lógico, teórico e simples, o alento de um sucesso é determinante a como esta há de ver-se ínsita à uma específica psique. Por dita razão, muito mais fácil é esquecer —em primeiro plano— um mar de incógnitos randômicos cujos caminhos fenderam ao próprio, antes que oprimir reminiscências de rostros que cargam certo grau de protagonismo em marcos específicos da vida de um. Ditos marcos, contanto, por vezes, hão de apresentar-se como acólitos de ciclópico dissabor, sendo passíveis de alcançar designação de veiculadoras de perenais injúrias à uma intelecção. Em tão efêmera charla com criatura aquela, Immanuel já vira-se passível de constatar que todo o pretérito do jovem Necchi encaixava-se impecavelmente em seio de elucidação tal.
O prateado auscultava cada sentença, cada oração. Tão cargados de dolor vocábulos largados por aquele frente a si, a expressão a explicitar, inconscientemente, suplício padecido em já prévias à hodierna instância, contanto, sem jamais serem apartadas. Como se jamais abandonassem alheia epiderme. Um incessante tormento. Uma lógica explanação para que criatura tão jovem estivesse ali, estagnada, no escritório de um empático alcoólatra funcional. O esquadrinhar do psicólogo jamais era apartado de alheio rostro, próprio semblante suave e imutável a acolitar robótico gesto paralelo, a mão a guiar caneta por sobre vaga peça de papel, incessantes as tomadas notas sobre já percebidos pormenores de tão cargada mente. Não haveria de permitir-se abraçar o que ali era exposto, tão imenso o acometimento daquele em cessar tormentos de outrem que, por vezes, terminava como integrante terceiro de tais. O descontrole do garoto já fazia-se palpável, atingindo ápice ante despontar das primeiras lágrimas. Em já tão usual gesto, Immanuel estendera ao italiano a pequena caixa de lenços, incontáveis vezes já utilizada por distintos indivíduos. Ante cessar de breve exposição, o argentino suspirara. Uma das mãos passara a tamborilar, com extrema suavidade, vagaroso ritmo sobre a superfície de madeira do escritório. Golpe. Um, dois, três. Repetição. Impassível era de cessar contato visual. Primais abstrações laçavam-se diretamente ao reconhecimento facial que, ainda em inexato e curto estado, outorgava-lhe certeza de familiaridade. Os rasgos da criatura, certamente, eram os de alguém que, mais de uma vez, esquadrinhara as próprias parcas.
Demasiada história era por aquele cargada, em especial, para tão verde ser. Exploração de tal, o desenterrar da médula de tormento aquele, contanto, jamais ocorreria por simplórias vias. Explorar aprazíveis facetas de trajetória aquela, portanto, não consistia viável método. Haveria de recorrer ao bálsamo em vindouras instâncias, sendo indispensável a sevícia. O homem teria de romper por dolorosas vias barreiras da psique de outrem, expondo-o ao martírio. Necessitava auscultar mais tanto quanto Pancrázio necessitava libertar mais. Não se atrelaria à convencionalidade, tão tola quando colocada em evidência. Não focaria no início, não perscrutaria as primícias. Cicatrizes, portanto, haveriam de ser reabertas. ❝Noto já três raízes. As temes, certamente, ainda que em forma que sequer és passível de perceber. Não as nomeaste, ainda que seja nítida a central posição destas em tua história. E é sobre estas que quero saber. Fale-me sobre vosso pai, vosso primo e vossa mãe.❞ Com absoluta neutralidade, vocalizara.
(( ψ )) —— Eis o que ele sempre detestou em conversar com psicólogos: eles pareciam sempre tão neutros que Pancrazio queria gritar ‘’você não nota que eu não estou bem’’ pra ver se geraria qualquer tipo de alteração às expressões do outro. Seu pai lhe dizia que era uma questão de profissionalismo, eles não podiam demonstrar emoções – e justamente por isso, PH nunca nem considerou a ideia de trabalhar com aquilo. Suas emoções eram sempre tão visíveis que todos faziam piada delas: se homem não chora, Pancrazio está longe de ser um. Suas emoções são tão fortes, e, em sua maioria, não são de raiva, e sim de tristeza. Suas reações sempre foram condenadas por todos, e isso afetava o napolitano. ❝O meu pai se chama Bernardo, tem quarenta anos e é o mais novo de seis irmãos.❞, ele começou, pegando a caixa de lenços que o outro havia estendido. ❝Ele é um homem corajoso e bastante inteligente, eu o admiro muito, doutor.❞, se tivesse de escolher dois heróis da sua vida, esses dois seriam o patriarca Necchi e o nadador Michael Phelps. Sabia que nunca teria metade do caráter ou paciência do pai, ou metade das vitórias do estadunidense (tanto nas Olimpíadas quanto contra o TDAH), mas era sempre bom ter inspirações para a vida. ❝Ele leciona Literatura no Ensino Médio de um colégio particular em Nápoles, onde, por bolsa, eu estudei minha vida inteira.❞, o progenitor costumava incentivar a leitura do filho do meio, e deu-lhe de presente ‘’As Aventuras de Tom Sawyer’’, o seu romance preferido.
Talvez tivesse terminado bruscamente o raciocínio sobre o patriarca, mas Pancrazio nunca foi conhecido por ter pensamentos que não fossem interrompidos por si próprio. ❝A minha mãe nasceu em Dortmund, na Alemanha, mas, quando tinha nove anos, mudou-se para Nápoles.❞, Roch era uma mulher determinada e forte, afinal, não era fácil sobreviver em Scampìa. Sonhava alto, era apaixonada pelo que fazia, e seus discursos lembravam muito o esquerdismo de Pancrazio. Pode-se dizer que ele herdou isso da mulher. ❝Casou-se com o meu pai quando tinha dezoito anos, ela já estava grávida de meu irmão mais velho, Hector.❞, o jovem casal passou por poucas e boas, e se havia algo que PH temia era passar pela mesma situação. Seu pai fizera sua obrigação e não abandonou Roch como a maioria dos homens de Scampìa faziam: o jovem sempre viu mães solteiras que haviam sido deixadas por namorados que decidiram não assumir o filho – covardes, covardes. Aquilo irritava profundamente o napolitano, e, por muito, via-as recorrerem, por causa do desespero, à Máfia e acabarem mortas, era um roteiro típico, um filme que ele já havia assistido inúmeras vezes. ❝Ela lecionava História na mesma escola onde meu pai trabalhava, era uma profissional competente, mas nunca conseguiu ganhar muito dinheiro. Acho que os dois, somados, ganhavam dois mil e cem euros todo mês.❞, eles eram considerados uma família de classe média baixa, pois cada membro sobrevivia com pouco mais de 13 dólares por dia. Isso quando Roch ainda era viva, pois quando ela faleceu, as coisas tornaram-se bem mais difíceis. ❝A minha mãe era uma mulher brilhante, que, infelizmente, nunca teve metade do reconhecimento que merecia. Era batalhadora e corajosa, além de inteligente demais.❞, foi então que começou a se lembrar da morte dela, os motivos que se deram. Naquele momento, já não conseguiu segurar as lágrimas de dor: elas corriam pelo seu rosto branco, suas orbes já começavam a ficar vermelhas. ❝No entanto, a escola onde ela lecionava estava passando por momentos difíceis, por causa da crise da Itália. Ela foi demitida, e nossa renda caiu drasticamente. Com o meu pai tendo de manter a casa sozinho, ele passou a dever aluguel para a Camorra e... mataram ela.❞, passou o lenço no rosto, para secar as lágrimas.
❝O meu primo Ricciardo era um dos poucos familiares que me estimavam.❞, era um nadador talentoso, tão apaixonado pelas raias quanto o próprio Pancrazio. Perdê-lo da maneira que aquilo aconteceu, foi um trauma, algo que ele jamais esquecerá. ❝Ele botava muita fé em mim, me encorajava a treinar quando eu pensava em desistir, me levava para treinar, ria das minhas piadas e não me repreendia quando eu demonstrava meu comportamento TDAH.❞, por muitas vezes, PH tinha essas vontades súbitas de simplesmente jogar todo o sonho olímpico para cima, mas Ric o mantinha com os pés no chão e dizia que ele tinha de continuar para realizar seus sonhos, não importava se os outros lhe diziam que era impossível, que ele era incompetente demais para conseguir chegar ao patamar Phelps. ❝Eu tinha treze anos quando tudo aconteceu. Meus pais haviam o chamado para jantar conosco, e eu estava o esperando na porta de casa, e o vi morrer.❞, lembrava-se dos olhos castanhos de Ricciardo se apagando, seus gritos desesperados por ajuda, mesmo sabendo que não tinha como salvá-lo. ❝Todos me dizem para fazê-los orgulhosos – Ricciardo, minha mãe, Elisa. Mas os mortos não sentem orgulho, doutor. De que adianta?❞, completou, as emoções o atingindo com força.