phnecchi:
(( ψ )) —— ❝Sim, sou eu mesmo.❞, odiava ter recebido aquele nome, e vivia se perguntando porque diabos seus pais acharam que seria legal dar ao filho o nome da luta greco-romana. Fora uma escolha de sua mãe, e algo que ela não conseguia entender até hoje, mas, tudo bem, ela sempre foi fascinada por história e o Pancrácio era uma famosa luta grega.
❝Tudo bem, doutor.❞, disse, logo pensando no que haveria de relatar ao psicólogo: eram tantas histórias para um jovem rapaz, tantas coisas o atormentavam. Apenas dezenove anos. Com dezenove anos, já marcou mais presença em velórios do que propriamente em aniversários – lidava com mais frequência com a tristeza da morte do que com a alegria da vida. Ele tinha de saber de tudo que perturbava o Necchi, tudo que tirava seu sono ou o fazia escasso. ❝Eu sou o irmão do meio de três meninos, tenho dezenove anos e nasci numa região suburbana de Nápoles chamada Scampìa.❞, começou ele. Passou a mão no cabelo para aliviar a tensão e reunir forças para continuar a falar.
❝As coisas lá são bem complicadas, doutor. Muito complicadas. Consomem drogas nas ruas, mortes acontecem com frequência. É tudo tão injusto, doutor, tudo tão desigual. Enquanto os ricos ostentam, pessoas morrem a apenas quarenta minutos de lá, e todos ignoram.❞, em um certo ponto, as coisas passaram a sair com facilidade da boca do napolitano. ❝Eu fui diagnosticado com TDAH do tipo combinado bastante cedo, e, para gastar minha energia, meu pai me colocou num projeto social de natação, e é por causa dessa habilidade que estou aqui, já que sou um duplo repetente de péssima reputação.❞, lembrava-se de seu passado. Tudo parecia tão vívido na sua mente, parecia que havia sido ontem. ❝Seja bem-vindo, Necchi. Ouvi que você aprendeu a nadar bastante cedo e sozinho, é verdade?❞, lhe dissera o seu primeiro técnico. ❝Mas, bem, voltando a falar de meu bairro… Eu era bastante novo quando um amigo de rua meu foi assassinado, ele havia morrido pois havia se envolvido com o tráfico. Ele tinha a minha idade, doutor, e fizera aquilo pois seu pai havia saído de casa e sua mãe não tinha condições para trabalhar. A situação lá é tão tensa que as pessoas procuram a Máfia achando que eles são os caras legais, não os vilões. O desespero é o pior sentimento de todos.❞, lembrava-se da morte de sua mãe, um dos piores eventos de sua vida.
❝Tinha treze anos quando o único membro da família que me estimava faleceu. Não, ele foi assassinado. Na minha frente.❞, ele disse, com as lágrimas já enchendo seus olhos. ❝Ricciardo!❞, ele gritou quando viu o primo cair morto no chão. Não havia como salvá-lo. ❝Perdi a minha mãe também, pois meu pai devia aluguel à Camorra.❞, lembrou-se do patriarca totalmente desesperado dentro do pequeno apartamento onde residiam, o mais novo, Zanchi, chorando, e Hector trancado em seu quarto. ❝Eu tinha uma amiga, doutor, uma amiga que era tão parecida comigo que todos juravam que éramos irmãos gêmeos. Nós éramos mais do que isso, um pouco. Tirando os olhos, afinal, eles eram dourados.❞, pegou-se detalhando coisas que eram totalmente inúteis para o trabalho do outro, mas precisava desabafar com alguém. ❝Eu tinha quinze anos quando me envolvi em uma briga horrível com uns traficantes, e eles mataram-na. A culpa foi minha, doutor, a culpa sempre é minha.❞, naquele ponto da conversa, já não tinha como segurar as lágrimas. ❝Ainda temos histórias para escrever.❞, dissera, quando notou que a vida se esvaia daqueles olhos tão dourados quanto medalhas de ouro.
A continência da memória humana é um de exíguos fatores passíveis de definir-se como incomensuráveis. Em oposição a diversos aparatos tecnológicos, inexistente é a maneira de auferir asserção quanto à dimensão de armazenamento do cérebro. Tão potente mecanismo, contanto, jamais há de ver-se vago de cincas. A cardeal destas sendo, indubitavelmente, o olvido. Remembranças aquelas que, por incertas vias do que é ciência, diz-se não serem extinguidas perpetuamente mas, sim, deslocadas à impérvia esfera no pertinente ao que é consciente. Todo indivíduo carente do que é eidético referente à memória, portanto, é suscetível a obliterar ditas remembranças; já sendo por meio de natural processo seletivo do que é imprescindível quando trata-se de informação ou, em não tão inusuais conjunturas, acidentes tanto de cunho físico quanto psicológico, que terminam por afetar dita área das faculdades e, consequentemente, bloquear certos fragmentos de informe. Contanto, em paralela maneira ao fato, é existente oposta projeção. O indivíduo está, também, sujeito a armazenar recordações em permanente maneira, a intensidade sendo variante. De acordo com o que é lógico, teórico e simples, o alento de um sucesso é determinante a como esta há de ver-se ínsita à uma específica psique. Por dita razão, muito mais fácil é esquecer —em primeiro plano— um mar de incógnitos randômicos cujos caminhos fenderam ao próprio, antes que oprimir reminiscências de rostros que cargam certo grau de protagonismo em marcos específicos da vida de um. Ditos marcos, contanto, por vezes, hão de apresentar-se como acólitos de ciclópico dissabor, sendo passíveis de alcançar designação de veiculadoras de perenais injúrias à uma intelecção. Em tão efêmera charla com criatura aquela, Immanuel já vira-se passível de constatar que todo o pretérito do jovem Necchi encaixava-se impecavelmente em seio de elucidação tal.
O prateado auscultava cada sentença, cada oração. Tão cargados de dolor vocábulos largados por aquele frente a si, a expressão a explicitar, inconscientemente, suplício padecido em já prévias à hodierna instância, contanto, sem jamais serem apartadas. Como se jamais abandonassem alheia epiderme. Um incessante tormento. Uma lógica explanação para que criatura tão jovem estivesse ali, estagnada, no escritório de um empático alcoólatra funcional. O esquadrinhar do psicólogo jamais era apartado de alheio rostro, próprio semblante suave e imutável a acolitar robótico gesto paralelo, a mão a guiar caneta por sobre vaga peça de papel, incessantes as tomadas notas sobre já percebidos pormenores de tão cargada mente. Não haveria de permitir-se abraçar o que ali era exposto, tão imenso o acometimento daquele em cessar tormentos de outrem que, por vezes, terminava como integrante terceiro de tais. O descontrole do garoto já fazia-se palpável, atingindo ápice ante despontar das primeiras lágrimas. Em já tão usual gesto, Immanuel estendera ao italiano a pequena caixa de lenços, incontáveis vezes já utilizada por distintos indivíduos. Ante cessar de breve exposição, o argentino suspirara. Uma das mãos passara a tamborilar, com extrema suavidade, vagaroso ritmo sobre a superfície de madeira do escritório. Golpe. Um, dois, três. Repetição. Impassível era de cessar contato visual. Primais abstrações laçavam-se diretamente ao reconhecimento facial que, ainda em inexato e curto estado, outorgava-lhe certeza de familiaridade. Os rasgos da criatura, certamente, eram os de alguém que, mais de uma vez, esquadrinhara as próprias parcas.
Demasiada história era por aquele cargada, em especial, para tão verde ser. Exploração de tal, o desenterrar da médula de tormento aquele, contanto, jamais ocorreria por simplórias vias. Explorar aprazíveis facetas de trajetória aquela, portanto, não consistia viável método. Haveria de recorrer ao bálsamo em vindouras instâncias, sendo indispensável a sevícia. O homem teria de romper por dolorosas vias barreiras da psique de outrem, expondo-o ao martírio. Necessitava auscultar mais tanto quanto Pancrázio necessitava libertar mais. Não se atrelaria à convencionalidade, tão tola quando colocada em evidência. Não focaria no início, não perscrutaria as primícias. Cicatrizes, portanto, haveriam de ser reabertas. ❝Noto já três raízes. As temes, certamente, ainda que em forma que sequer és passível de perceber. Não as nomeaste, ainda que seja nítida a central posição destas em tua história. E é sobre estas que quero saber. Fale-me sobre vosso pai, vosso primo e vossa mãe.❞ Com absoluta neutralidade, vocalizara.














