eu estava aqui me lembrando de uma coisa
que me aconteceu há trinta anos atrás,
alguns dias depois da morte do meu pai...
minha tia chegou na minha casa dizendo
que trouxera consigo um presente,
algo pra me distrair e consolar...
ela também me disse que só me entregaria
se eu conseguisse descobrir o que era,
tipo aqueles jogos de adivinhação
que a vida faz com a gente...
para mim, era um jogo sério,
pois, assim como qualquer brincadeira,
eu levava os jogos muito à sério...
eu só tinha sete anos de idade!
chutei inúmeras possibilidades sobre o presente oculto,
todas sem nenhum sucesso...
podia ver, no rosto da minha tia,
quase que um prazer em torturar crianças:
e as negativas enfáticas todas as vezes em que eu errava.
depois das inúmeras tentativas (e erros)
ela passou a me dar dicas,
pistas sobre o misterioso presente:
1 - podíamos segurar com a mão,
2 - era uma boa companhia,
e outras, as quais não me recordo mais,
porém, dentre todas, eu me apeguei
a uma com a maior crença de acerto:
foi aquela que fez meu coração pular,
fez meus olhos cheios de esperança,
ainda que um pouquinho desconfiados da minha própria resposta,
e senti uma alegria filha da puta dentro do peito,
era tanta que nem esperei muito para gritar "já sei!"
e fui todo afoito, cheio de certeza, sussurrar ao ouvido dela:
tão rápido falei que não me dei conta da merda que tinha dito...
foi, então, que vi aquele inesquecível olhar, cheio de pena, da minha tia,
e logo veio a negativa que acabara com a minha empolgação
(a mesma empolgação também durara alguns segundos)
e ela resolveu me presentear mesmo sem eu ter acertado,
ou por solidariedade à minha ingenuidade infantil,
ou porque esse era o plano dela desde o início:
ela revelou, mostrando a mão que estava atrás das costas, todo esse tempo,
um pequeno rádio de pilha
que em 1985 nem tocava mp3
se ela fizesse comigo o mesmo jogo de adivinhação,
com certeza aquela centelha de esperança
de que eu estava certo sobre o presente que me seria dado,
Em 1º de setembro de 2015