Carta aberta ao meu cachorro:
hoje fazem 10 meses e alguns dias que você se foi. lembro como se fosse ontem quando você chegou lá em casa e eu te coloquei para dormir no meu colo, igual um bebê. éramos duas crianças e aprontávamos horrores, desde fazer um book com a câmera digital a correr pela casa toda. pois é, você deixou um vazio imenso aqui dentro.
a um ano atrás descobrimos o seu câncer, e aquilo me desestruturou de uma forma que eu jamais imaginei que aconteceria comigo. desde então, eu tentei viver os melhores momentos com você, desde dormir uma sonequinha a tarde, registrar todos os momentos, dividir o quarto com você, sentar no nosso cantinho da varanda para tomar um sol todas as manhãs. a varanda nunca mais foi a mesma, ainda não consegui sentar pra tomar sol lá desde a sua partida.
quando falam que a perca não dói, o que dói são as lembranças é verídico. todos os dias eu ainda olho para o lado direito da cama e torço para que você esteja lá, e que tudo não passe de um sonho.
todos os dias que eu chego do trabalho eu torço para chegar perto de casa e ouvir o seu latido e ao me aproximar, você estar sentadinho no portão esperando para receber colo e carinho.
você me acompanhou desde o primário até a faculdade, você já estava na sua segunda graduação. sinto falta de sentar para estudar e esticar minha mão e você vir pedir colo e carinho.
nos seus últimos dias, eu sempre tentei estar com você ao máximo. te dar todas as medicações para você ficar confortável e tentar fazer as coisas que você mais gostava. no seu último banho, eu registrei ele. o seu olhar já não era mais o mesmo, você estava fraco e cansado. na sua última ida ao sol, você já não queria mais, só queria ficar deitado no conforto da sua cama e no cantinho escuro.
no domingo, foi o almoço de família aqui em casa, e todos mexeram com você, acho que sentiram que era a despedida. te trouxe para o quarto e você dormiu, mas também acordou querendo descer, você sempre foi de estar no meio do povo. a noite, você começou a ter episódios de espasmos, mas te coloquei pra dormir no meu colo e você melhorou.
na terça feira, eu cheguei do trabalho e você estava estranho, se tremendo todo. ao chegar no veterinário, você teve uma convulsão no meu colo, naquele momento meu coração parou. na minha concepção convulsão em pessoa vulnerável poderia matar. liguei imediatamente pra juliana, pois achei que aquela seria sua última noite. após a conversa com a veterinária, tivemos boas notícias, que você só iria precisar passar a noite em observação. ao chegar na quarta feira, vi você de fraldinha e com um adesivo azul em formato de osso na cabeça. você foi para o colo da veterinária e fez muito escândalo quando foi tirar o seu acesso, e em seguida, pediu meu colo imediatamente e depois disso, não desgrudou. confesso que sua fralda pesava mais que você. passei a semana trocando sua fralda, e você fez o seu último passeio na rua, com seu andar desengonçado que me encantava.
passei a semana cuidando de você, mas na terça você decaiu, não queria comer, passava a madrugada chorando, e eu peguei atestado para cuidar de você.
passei todos os dias seus últimos dias grudada em você, trocando fralda, dando medicação, atenção.
na noite de quinta feira, você já estava distante e vomitando muito, porém queria colo, e você acabou vomitando em mim. confesso que fiquei um pouco brava, mas me perdoa.
na madrugada de quinta para sexta, passei a noite em claro com você, achando uma forma de te manter confortável até a clínica veterinária abrir, mas eu já senti que você estava querendo ir, passei a noite com você no colo aos prantos. me doía muito te ver chorando e não poder sentir suas dores.
quando a juliana estava vindo para irmos ao veterinário, eu tentei me manter forte, pela lola, por você e por ela. a lola simplesmente te cheirou e sumiu para a casinha dela, acho que ela já sabia que aquele era o seu momento de partida.
quando conversamos com a veterinária e ela sugeriu a eutanásia, doeu. chorei. chorei. chorei. e disse que era a coisa certa a se fazer, você estava cansado.
ao ficarmos no jardim, você parou de chorar é só recebia carinho, estava bem em paz, iria descansar em paz. após todos nós nos despedimos, fomos para a salinha onde iríamos te sentir fisicamente pela última vez. a irmã ficou com você no colo, e eu como de costume sua patinha direita pra sentir seu coração. na primeira injeção, você começou a relaxar, na segunda o seu corpo ficou duro e você já tinha partido, na terceira você ficou mole e na quarta você ficou gelado. tocar a sua patinha e não sentir o seu coração bater, fez o meu parar por alguns instantes. te colocamos na mesa gelada e você ficou lá, frio e com os olhos abertos. logo você que sempre estava com os olhos fechados, morreu com eles abertos.
peço desculpas por não ter te falado o quanto eu te amava e o quanto queria você pra sempre comigo. sei que você vai estar pra sempre comigo, me guiando e me iluminando, mas não dá forma que eu queria.
eu espero que aí do outro lado, tenha cobertas quentinhas, muitos pedaços de carne e arroz com caldo de frango e batata pra você.
saiba que eu te amei desde o primeiro momento em que te vi, até o último. e hoje em dia, te amo em memória!
obrigada por ter sido a melhor parte de mim, por ter sido meu porto seguro e por ter me amparado quando eu mais precisei.














