Mensagem no ponto
escrito em maio de 2019
Enquanto aguardava na fila da kombi, pus reparo na senhora em questão:Cabelos bem presos, pra lá da meia idade, e um olhar triste que só vendo. Estava assim sentada no veículo parado, com um olhar nas lonjuras. E nessa hora, juro, vi uma lágrima rolar do seu rosto. Algo ali em mim se amoleceu de tal forma, que iniciei um assunto com Ela.
— Você tá bem?
— Eu tô muito triste moço — e parou pra chorar mais.
Pela expressão irremediável logo vi ali todo o contexto do luto. Me aproximei da desconhecida e indaguei, num tom mezzo piano.
— Que que houve? — …Lá na minha terra a gente está mais ligado nisso… — disse-me enxugando algumas lágrimas num paninho amarelo — Foi minha mãezinha que morreu lá em Pernambuco, visse? Bem que eu devia ter prestado mais atenção. Fazia uns dias que eu estava esquisita, com uma sensação ruim. Como um nó na garganta. Aí numa terça-feira eu saí no quintalzinho pra estender roupa e estava ele lá!
Dei até uns passos pra trás.
— Ele quem?
— Um beija flor preto, com rabo igualzinho uma tesoura. Lá na nossa terra a gente sabe que isso é um sinal. Aquele rabo preto, em forma de tesoura
A mulher disfarçou a mágoa olhando por entre as janelas da Kombi estacionada. Apertou as comprar contra si. Disse me então, num tom mais ameno.
— Aí quando foi hoje minha irmã ligou lá pra casa ás 5 horas da manhã. Moço quando telefone toca nessa hora, coisa boa não pode ser. Chegou a dar um arrepio, Porque pensei nisso na hora. E foi batata. Minha Mãezinha tinha morrido naquela madrugada.
O motorista da Kombi, Ouvia também a conversa encostado numa cadeira de ferro mal fundida. Atirou longe o cigarro que saboreava entre as pausas, e dirigiu-se a todos solenemente
— Vamo lá, gente?









