“Olha, eu tentei te avisar que jogar comigo não era uma boa ideia. Só que como você optou por não me escutar, vai lidar com as consequências sozinho. E além do mais podia ter feito pior, quase desafiei você abaixar as calças e expor sua lua cheia para o mundo. ” Justice apenas tombou para o lado, rindo da tentativa do outro de imitar uma galinha. “Está imitando uma galinha normal ou uma que está no cio?”
“Lua cheia? Mas eu não tenho nenhuma tatuagem assim por baixo da calça, nem marca de nascença.” protestou um pouco confuso, franzindo o cenho. Pietro corou e cobriu o rosto com as mãos, bufando um risinho sem graça. “Uma normal! Não sei imitar uma galinha... no cio.”
“Parece que minha incrível habilidade de comer um pedaço de torta em dez segundos finalmente serviu para algo. Quem sabe depois desse episódio você aprende a nunca mais duvidar de mim? Meus irmãos também vivem quebrando a cara tentando me desfazer. Eu passar vergonha?No freaking way, não me lembro de ter apostado nada. Go Tiger, continue a imitação!”
Não tenho culpa que parecia algo impossível. O que você tem aí dentro, ora essa? Aquele troço era enorme! E-eu não vou continuar sozinho! Você que teria que fazer agora, seguindo a lógica. Além do mais, antes eu só tinha dito que duvidava, nunca apostamos isso.
Esse é o melhor que consegue fazer? Enquanto eu não ver algo realmente digno de vergonha, eu não vou cumprir a minha parte do acordo, deal with it.
Você está brincando, certo? Eu não vou dançar de novo, as pessoas já estão olhando para mim como se eu fosse louco. Já estou meio acostumado mas queria passar despercebido aqui.
“Você é ridiculamente impaciente, sabia? Pronto, eu tô pronto! Where now? Eu devo pegar as chaves do carro ou você vai dirigir?”
Não sou, não! Esperei aqui por dez minutos! E quando eu cheguei já era para você estar pronto, esse era o trato. Não, eu vim de moto, mas se quiser ir me seguindo de carro, tudo bem. É surpresa, a gente não diz o conteúdo da coisa quando diz que surpresa, Enzo.
Louise riu com a dancinha que Pietro fazia e mesmo que tentasse não conseguia fazer isso de forma discreta. “Não, não, quem tinha que fazer isso era você e não eu, Pietro, nem vem.”
“Como assim era somente eu? Eu só aceitei porque achei que você faria também!” ele não perdeu tempo em acusá-la, parando com a dancinha. “Ô Loui, agora tem que fazer mesmo porque está rindo de mim aí.”
Abel se sentou endireitando a postura e se virou para Pietro, ela ainda estava com um ar risonho quando fez isso, seria difícil tirar ela daquele estado - Tudo bem senhor imitação, me diz o que eu preciso fazer que eu faço, provavelmente com mais graciosidade do que isso que você fez né.
Os braços foram cruzados contra o peito conforme o texano tentava impor uma postura ameaçadora, o que em sua atual condição de cabelos bagunçados e bochechas coradas, era em vão. “Você tem que dançar também, já que está zombando tanto de mim!“
Jade gargalhava com o que Pietro fazia e negou com a cabeça. - Sim, era isso mesmo, só não imaginei que fosse fazer tão perfeito assim! Socorro! Minha barriga dói! - Jade se prontificou a dançar de um jeito ridículo, continuando a rir há medida que fazia o desafio. - Vai Pietro, me acompanha nessa dança!
Dançar no meio de um parque público com pessoas desconhecidas em volta definitivamente não estava em seus planos quando aceitou a saída para aquela noite. Pietro, porém, não podia dizer que não estava se divertindo. O loiro soltou uma risada alta, começando a pular numa falha tentativa de dançar. “Não é para rir de mim, Jade! É para rir comigo!”
Qual foi o problema? Só porque eu sou a prefeita não significa que eu tenho que ficar fazendo discursos e falando coisas bonitas 24 horas por dia, eu também tenho uma vida, uma casa pra cuidar, tenho que ter tempo pra descansar, e é isso que eu to fazendo agora.
Como é que você consegue se desdobrar para fazer isso tudo? É quase impossível, sabia? Achei que teria alguém para cuidar da sua casa e essas coisas assim.
Abel estava sentada no grupo de pessoas, finalmente um tempo para se divertir com alguns amigos e amigos de amigos e estava deitada na grama rindo dos desafios alheios - Nem olha pra mim, eu to muito bem aqui vendo vocês todos passar vergonha, talvez na próxima geração quem sabe?
O olhar de Pietro recaiu sobre a morena e ele, com a melhor feição de indignação, passou a tentar fitá-la, ignorando as risadas das pessoas mais próximas. “Não tem essa de que não vai fazer! Isso não é nada justo! Abel, é a sua vez, não enrole.”
Por mais que quisesse desistir, agora era tarde demais. Mesmo estando no meio do Central Park aquela hora da noite, algumas pessoas caminhavam envolvidas em conversas descontraídas pois o local se encontrava iluminado por causa de algum evento. Pietro suspirou, frustrado. “Não acredito que vou fazer isso, esse desafio é o mais ridículo do universo! O que tens na cabeça, afinal? É... era assim? Feliz? Sua vez de passar vergonha.”
Não querendo ser uma menina mimadinha e nem nada mas olha a situação das minha unhas! Uma delas está até roxa porque fechei meus dedos na porta hoje mais cedo. Da para acreditar em quão desastrada sou?
Eu não sou muito melhor, sempre tem algum machucado que, às vezes, até aparece do nada em mim. Minha irmã me fazia pintar as unhas dela... quer que eu pinte as suas?
“Sabe o que você poderia fazer ao invés de ficar com essa cara de tacho? Ajudar una signorina, que no caso sou eu, a encontrar ou indicar o melhor restaurante desta região. Faz tanto tempo que não coloco meus pés nesta cidade que acabei esquecendo-me de cada pedacinho e cada entrada por aqui.”
Eu não sei o nome do restaurante porque nunca parei para perceber. Sempre que vou a fome já está me vencendo então é minha prioridade. Aliás, lá é melhor! Mas eu sei o caminho e posso dizer para que direção fica, ‘tá?
even the children can be bad;; p.o.v #2 { flashback }
Estava chovendo quando Pietro acordou para ir à escola.
Isso não era um bom sinal, não quando a irmã se encontrava doente e conseguia ganhar a manhã de folga. Todos os dias da semana, o menino levantava-se cinco minutos antes da mãe passar para chamá-lo; com os olhos claros focados no teto cheio de estrelas que brilhavam durante à noite, esperava pacientemente a batida na porta antes de sair do ninho confortável de seus cobertores e correr para o andar de baixo, contando os degraus à medida que pulava de dois em dois. Uma rotina, uma rotina que não poderia ser quebrada. No entanto, por causa da chuva, acabou perdendo a hora e despertou com a irmã caçula cutucando-lhe o braço com o indicador como se estivesse receosa em tocá-lo. Pietro, por mais que quisesse dizer para ela que estava tudo bem em fazer, seria uma mentira e mentir para sua família nunca foi viável.
Já emburrado, acabou esquecendo de contar os degraus e precisou subir tudo novamente para poder descer contando. Como se já não bastasse os dois imprevistos, o garoto, ao chegar na sala de aula, precisou aguentar os risos dos colegas de classe pois dessa vez não tinha o irmã para o defender. Estava sozinho. Se a sua política de ser contra mentiras não existisse, teria fingindo estar doente também, assim não teria que suportar toda aquela pressão. Seus pais sempre diziam que estava tudo bem caso ele quisesse estudar na fazenda, professores seriam contratados e ia correr tudo mais fácil. Porém, com seus doze anos de pura teimosia, Pietro discordava. Em momentos como aquele acabava se arrependendo, sim, mas em breve, no intervalo, teria a única amiga para o ajudar a lidar com tudo.
Foi então que ele entrou. Na sua humilda opinião, George era o garoto mais adorável da turma. Com seus cachinhos ruivos e bochechas sardentas, o menino exibia sorrisos para todos, até mesmo para ele, o que era algo surpreendente. Sua respiração fraquejou quando o viu aproximar-se para sentar ao seu lado, era uma das pouquíssimas cadeiras vazias; geralmente apenas a irmã a ocupava e, quando ela não vinha, permanecia sem ninguém. Afinal, quem sentaria perto do garoto que tirava todos os lápis do estojo e os colocava por ordem de tamanho na carteira? George, aparentemente.
Fazia alguns dias que o garoto começara a ser bastante cordial, oferecendo-lhe ajuda com as notas tomadas na aula quando sem querer acabava distraído, apanhando seus lápis quando alguém derrubava de propósito, até mesmo emprestando o livro quando o seu foi sujo com um suco de um dos rapazes que o perturbavam. Isso deveria significar que George gostava dele, não? Era isso que sua irmã fazia com os meninos que chamavam sua intenção e eles gostavam dela de volta. Então não tinha nada de errado gostar do ruivo também, certo?
Acontece que não. Não podia estar mais errado.
E oh, céus, descobriu isso do pior jeito. Naquela mesma manhã, na terceira aula, decidiu juntar toda a coragem que tinha — pouca, muito pouca, quase inexistente, para então encarar o coleguinha e soltar um pequeno suspiro antes de perguntar se ele queria ir lanchar consigo. O olhar confuso que recebeu não era bem o que esperava.
“Por que eu iria lanchar com você e sua amiga?” George perguntou, ainda o encarando sem entender.
Com as bochechas coradas e uma expressão tímida, Pietro encolheu levemente os ombros. “Ela não vai se importar. Porque, uh, eu gosto de você. Você é legal… e bonito.” murmurou em resposta, oferecendo-lhe um sorriso.
Todavia, o que aconteceu a seguir não estava nos seus planos. O rosto do ruivo contorceu-se de um jeito estranho para então ele começar a rir. Alto e em bom som no meio da sala de aula. Todas as crianças viraram um olhar para os dois e Pietro sentia-se pequenino ali, corando, as mãozinhas fechadas apoiadas na carteira. George ria com tanta, tanta força que seu rosto ficou tão vermelho quanto seus cabelos. O menino então tomou algumas respirações por entre o riso e maneou a cabeça em negação. “Eu sabia que você era estúpido e estranho. Mas também é um viadinho? Ora, Pietresquisito! Como se eu, ou melhor, qualquer pessoa fosse gostar de você dessa forma.” ele zombou ainda falando alto, atraindo a atenção dos colegas que agora riam também. “Cara! Eca! Você é nojento!” o menino concluiu, levantando-se da cadeira já tomando seus pertences para sentar-se com outros garotos que quase choravam de rir enquanto ignoravam os protestos da professora.
Foi com uma rapidez inimaginável que o pequeno garotinho, com suas pernas esguias, fininhas e desengonçadas, correu para fora da sala. Os olhos cheios de lágrimas e o peito apertando assim como sua garganta. Queria esquecer aquilo, mas a memória quase impecável nunca o deixaria. As mãozinhas tremiam, os soluços escapavam altos. Pietro não voltou para a sala, ele também não voltou para a escola no dia seguinte. As aulas particulares foram, finalmente, aceitas. Desde aquele dia, o moreno fechou-se em torno de si ainda mais como quando se toca um pequeno gongolo e este encolhe-se, protegendo-se. As palavras do ruivo ressoavam em sua mente quase todos os dias, mesmo depois de mais de uma década. Desconfiava que nunca estaria livre delas.