Dentre todas as coisas que Ares aprendera durante os seus vinte anos mal vividos, ele sĂł tinha certeza de uma: quando a sua vida estĂĄ uma merda, ela sĂł tende a piorar. Seja lĂĄ quem fora o idiota que invetara a metĂĄfora do fundo do poço, ele estava mentindo. A tendĂȘncia nĂŁo Ă© subir quando se chega ao fundo; Ă© continuar lĂĄ, ou cavar ainda mais para baixo atĂ© acabar no inferno de uma vez por todas.
EntĂŁo, no momento em que Ares percebeu a situação em que se encontrava naquela noite, teve certeza de que jĂĄ estava quase chegando ao inferno â e ainda com convite vip para tomar chĂĄzinho com o diabo. Soltou um longo suspiro, procurando mais uma vez a chave na mochila. A cena seria cĂŽmica se nĂŁo fosse trĂĄgica: um garoto do seu tamanho com todos os pertences â incluindo roupas Ăntimas e uma camisinha â atirados na calçada enquanto desesperadamente fuçava numa mochila vazia atrĂĄs das chaves de casa que, claramente, tinha deixado no trabalho. Depois de conferir os bolsos tambĂ©m pela centĂ©sima vez, conformou-se do jĂĄ sabia: era um merda e tinha se esquecido delas no seu armĂĄrio, no bar. Do outro lado da cidade.
Jeez, tudo o que ele queria era o conforto da sua casa com o seu gato. Respirou fundo, tentando nĂŁo perder o controle da situação e sair por aĂ gritando e socando paredes. Era tarde; se acordasse os vizinhos poderia acabar sendo preso e ele realmente nĂŁo precisava de mais uma tragĂ©dia para o currĂculo da semana: receber um e-mail sobre o aluguel atrasado, ir ao banco sĂł para dar de cara com a conta mais que negativa, o seu teclado ter estragado do nada naquela manhĂŁ e ele estar sozinho, no meio da rua, sem as chaves de casa ou bateria no celular para pedir ajuda, jĂĄ eram acontecimentos ruins suficientes por um Ășnico dia. De qualquer modo, ele precisava encontrar um meio de entrar em seu apartamento, e isso nĂŁo seria feito com Jesus descendo do cĂ©u para lhe ajudar. Começou a guardar de volta os pertences na mochila, imaginando se seria uma boa ideia arriscar ir atrĂĄs de algum vizinho de boa alma que pudesse lhe dar abrigo pela noite. â NĂŁo â concluiu para si mesmo. NĂŁo falava com nenhum de seus vizinhos e duvidava que alguĂ©m sequer soubesse quem era. Sendo assim, sua Ășnica opção seria escalar a escadinha de incĂȘndio externa atĂ© que chegasse na pequena sacada do seu apartamento â que por sorte ficava bem ao lado dela â e entrasse por ali, pois afinal, o mĂĄximo que poderia acontecer seria ele cair e morrer. Simples e divertido, nada arriscado. Levantou-se e caminhou atĂ© a escada, fazendo uma prece silenciosa para que todos os deuses pudessem ajudĂĄ-lo naquele momento â ironicamente, Ares era ateu. â Se vocĂȘ morrer, seu gato vai ficar sozinho â foram as palavras de encorajamento que encontrou naquele momento para que começasse a subir a escada. Bigode era um gato de rua e perdera uma pata ao ser atropelado. Precisava de Ares.
Ele sempre se perguntara como seria escalar aquelas escadas; se seria cansativo ou nada de mais, e agora tinha certeza de que somente bombeiros com muito preparo fĂsico conseguiam fazer tais coisas sem temer pela prĂłpria vida. Focado em se manter vivo, Ares acabou por se esquecer de contar os andares, e quando a realização de que nĂŁo fazia ideia de onde estava tomou conta de sua mente, ele sentiu o suor das mĂŁos e do rosto aumentar e as batidas do coração acelerarem rapidamente. Se olhasse para baixo para contar as janelas e conferir se aquele era o sexto andar ou algum prĂłximo, provavelmente desmaiaria; jĂĄ estava muito cansado, tinha certeza de que nĂŁo conseguiria continuar subindo. Recolhendo todo o resto de energia em seu corpo, decidiu simplesmente pular na sacada Ă sua diagonal, torcendo para que fosse o seu apartamento. Na segurança da sacada, olhou para baixo somente para dar de cara com mais um azar: estava no quinto andar, precisaria subir mais um atĂ© que chegasse no seu.
â Primeiro, descansoâ murmurou, sentindo as costas doerem pela força que fizera na escalada. O interior do apartamento onde se encontrava parecia vazio. Sabia que uma garota morava ali, o que o levou a deduzir que ela nĂŁo estaria em casa. Foi entĂŁo que teve a ideia mais sensata da noite inteira: esperaria atĂ© que a moradora chegasse e pediria ajuda Ă ela. Tinha cruzado com a menina de manhĂŁ, portanto imaginava que ela voltaria para casa alguma hora. Ou algum dia. Resolveu aguardar sentado uma vez que nĂŁo fazia noção de quando ela chegaria e, tendo dificuldade em acomodar o corpo no lugar pequeno, recostou-se contra a vidraça, tirando a mochila das costas para procurar o caderno de composiçÔes e uma caneta. Sempre o levava para onde quer que fosse; era o seu Ășnico e fiel companheiro. Forçando os olhos com a pouca iluminação da rua, passou a rabiscar sua prĂłxima mĂșsica em uma pĂĄgina, acabando por perder totalmente a noção do tempo. Minutos que nĂŁo pareceram mais que meros segundos se passaram e Ares foi tirado de sua transe quando houve um barulho e as luzes se acenderam no interior do apartamento. Sentiu o coração bater mais forte no peito e a ponta dos dedos se tornarem gĂ©lidas â como diabos explicaria Ă garota a sua situação sem que ela resolvesse sair correndo e gritando, atrĂĄs da polĂcia? PĂŽs-se de pĂ©, ponderando se deveria mesmo bater no vidro e pedir ajuda⊠Antes que pudesse fazer sua escolha, foi surpreendido pela janela sendo aberta e a moradora falando com ele, parecendo assustada. â NĂŁo, nĂŁo! Juro que nĂŁo Ă© isso â disse rapidamente, encarando-a. â Ă uma longa histĂłria â suspirou, levantando a cabeça para o cĂ©u e se perguntando o porquĂȘ de sua vida sĂł tender a piorar. â Esqueci minhas chaves no trabalho e como o meu celular estĂĄ sem bateria e eu nĂŁo pude pedir ajuda a ninguĂ©m, decidi escalar a escada de incĂȘndio atĂ© o meu apartamento. Eu costumo deixar a sacada aberta, entĂŁo poderia entrar numa boa. O problema Ă© que fiquei cansado e parei por aqui antes que eu caĂsse ou algo do tipo â explicou-se, tentando soar o mais gentil e normal possĂvel. Primeiras impressĂ”es sĂŁo tudo. â Eu sei que nunca nos falamos, mas vocĂȘ poderia me deixar entrar e me deixar usar a tomada para carregar meu celular? Eu vou pedir para o meu colega me trazer as chaves atĂ© aqui. SĂł preciso de bateria. Por favor?
A desconfiança crescia dentro de si, os significados extensos que a tornaram em uma pessoa receosa era o motivo de raramente conquistar a confiança por um outro indivĂduo. A adaptação para conseguir â ou pelo menos, tentar â socializar como um cidadĂŁo civilizado tornou-se possĂvel assim que abandonou o paĂs de origem para seguir uma vida em direção Ă Los Angeles. Pessoas dissemelhantes e desconhecidas que, aos olhos de Myung Hee tornavam-se uma verdadeira incĂłgnita era capaz de despertar o pavor que guardava no fundo do seu Ăąmago.
As reaçÔes jĂĄ familiarizadas para si restabeleceram em seu corpo. Primeiro, conseguiu sentir perfeitamente o sangue que percorria pelas veias efervescer, como consequĂȘncia tornando as bochechas em um tom afogueado devido ao sĂșbito calor que a invadiu. As Ăłrbes negras acompanharam cada movimentação minuciosa que era feita pelo rapaz considerĂĄveis centĂmetros mais alto que a estatura da jovem. Em uma tentativa de investigar peculiaridades distintas no rapaz (um hĂĄbito costumeiro que carregava consigo), acabou por identificar a venustidade especĂfica do vizinho recĂ©m conhecido; ele era propetĂĄrio de traços fortes que constituĂam a aparĂȘncia elegante. A respiração falhou ao escutĂĄ-lo  â finalmente  â quebrar o silĂȘncio constrangedor que estabeleceu-se no cĂŽmodo apĂłs os longos segundos encarando um ao outro. â ââ Longa histĂłria? Eu tenho a noite toda. Ou, pelo menos, acho que tenho â expressou o sentimento que a rondava na Ășltima sentença, afinal, por mais apreciĂĄvel que fosse o semblante do moreno, ainda nĂŁo descartava as fortes suspeitas que apresentava contra ele. O medo era uma das Ășnicas sensaçÔes banal, apĂłs longos anos percorrendo com o terror que a acompanhava desde os primeiros suspiros durante a manhĂŁ. Em meio aos pensamentos, recuou trĂȘs para trĂĄs em uma direção mais afastada e, deveras saudĂĄvel. â ââ VocĂȘ escalou⊠tudo isso? â era difĂcil esconder a entonação espantada ao repetir uma pequena parte dos dizeres em forma de questionamento e, conforme os minutos se prolongavam, mais Louise conseguia acreditar na histĂłria fresca que o coreano a informou. â ââErm⊠okay! Posso acreditar em suas palavras, perdĂŁo por pensar que era uma pessoamuitoruim. NĂŁo que eu tenha medo da morte, sĂł nĂŁo gostaria de ser assassinada. Prefiro falecer por causas naturais â fechou brevemente as pĂĄlpebras antes de abrĂ-las, visualizando atentamente o semblante estĂĄvel Ă sua frente, passando a sentir um leve formigamento na ĂĄrea superficial da cabeça, recordando que os fios negros permaneciam presos Ă um elĂĄstico, puxando o cabelo de forma dolorosa. Imediatamente, levou os dĂgitos atĂ© a borracha e, soltou os fios para conseguir voltar a missĂŁo de mirĂĄ-lo.  â ââ Tudo bem! Pode usar a tomada, tem uma ao lado da televisĂŁo, se o interessar. â
Perdida. Era a palavra que poderia esclarecer melhor os pensamentos e desconforto repentino. Myung Hee era habituada a tentar escapar de qualquer ocasiĂŁo que colocasse em risco ainabilidadede manter uma conversa. Um suspiro desprendeu dos lĂĄbios, murmurando um âjĂĄ voltoâ para o garoto  â que no instante aparentava distraĂdo demais com o celular  â antes de seguir atĂ© a outra parte do cĂŽmodo minĂșsculo. O olhar percorreu por cada objeto indiferente da cozinha, a mente bombardeada com pensamentos excĂȘntricos, quando decidiu abrir a porta da geladeira para servir um copo de ĂĄgua. AtĂ© mesmo o som emitido do barulho do lĂquido preenchendo o recipiente vazio era capaz de instigar a jovem naquela ocasiĂŁo.  Os passos eram curtos e silenciosos, afinal Louise encontrava-se excessivamente concentrada em equilibrar o copo com os dĂgitos sem deixar evidente a mĂŁo trĂȘmula devido ao nervosismo. â ââ TscâŠ. erm⊠ â coçou a garganta discretamente para chamar a atenção do moreno, concluindo os passos somente ao estacionar o corpo prĂłximo do semelhante.  â ââ Eu trouxe ĂĄgua, quer dizer, vocĂȘ deve estar cansado apĂłs escalar essas escadas, provavelmente. â estendeu o objeto preso Ă destra no aguardo ansioso de ele aceitar o seu agrado. Estaria sendo inconveniente? O receio repentino fez questĂŁo de manifestar-se. Por incrĂvel que pareça, a garota considerava a si prĂłprio um incĂŽmodo dentro daprĂłpria casa.
â ââ Sou My⊠digo, Louise. Sou a Louise! â completava mais de um ano que a morena havia adotado âLouiseâ como nome, no entanto, a dificuldade tornava-se presente nos momentos mais inoportunos, especialmente quando o nervosismo a atingia em um nĂvel tĂŁo alto como acontecia no instante. â ââ E vocĂȘ? Quem Ă©? â puxou o lĂĄbio inferior  â  o tecido da pele jĂĄ danificado devido aoutra mania  â e, prendeu o carnudo entre os dentes com uma força desnecessĂĄria, apenas soltando-o quando sentiu a necessidade de prolongar a sentença.  â ââ VocĂȘ por acaso jĂĄ se alimentou? Eu vou cozinhar, entĂŁo se caso quiser ficar⊠Sei como Ă© ter um dia cheio. â os olhos que continham um brilho natural passaram a encarĂĄ-lo, dessa vez decorosamente, nĂŁo desejava ser julgada como louca ou estranha, por mais acostumada que encontrava-se com tais adjetivos e, soubesse da sua falta de sanidade mental.  â ââ A nĂŁo ser que nĂŁo goste da culinĂĄria coreana, eu provavelmente guardo macarrĂŁo instantĂąneo. Tudo bem se nĂŁo quiser,argh. PerdĂŁo. â torceu o nariz, ainda era incompreensĂvel a justificação por nĂŁo estar surtando desde o instante que observou um completo desconhecido em sua casa, porĂ©m, uma voz na cabeça gritava que a menina precisava esforçar-se para aparentar normal. A situação que era estabelecida no momento  nĂŁo poderia ser considera comum, o que a fazia navegar em suas teorias e concepçÔes sobre o destino. Talvez um amigo havia caĂdo em sua casa, fortalecendo cada vez mais os sinais que interpretou atĂ© o perĂodo. A necessidade de erguer o olhar e, consequentemente a cabeça â  por conta da diferença de altura â tornava a missĂŁo de encarĂĄ-lo sem deixar rastros cada vez mais difĂcil, fazendo a temperatura corporal elevar-se gradativamente quando ambos mantinham contato visual por, pelo menos, dois segundos. Era parte da sua personalidade situar-se constrangida mesmo durante os momentos simplĂłrios.