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@jwnares
It means…
Se Deus não existe quem é que consegue pichar nomes de gangues no alto desses prédios? Quem dera alguém pudesse me ajudar nesse dilema… Queria muito escrever o nome da minha gangue num desses edifícios gigantescos.
— Uh, eu não acho que seja necessário que Deus exista para você escalar um edifício, y’know... Acho mais fácil os pichadores terem virado híbridos e desenvolvido asas do que Deus ser real. Sem ofensas. Você tem uma gangue? Não sei se consigo acreditar nisso com essa sua cara de certinho humanitário aí, mas vai saber né? Todos temos um lado rebelde.
✿ °. — (무엇을요?) what are you doing here?
( @jwnares )
Após uma tarde exaustiva e prolongada, quando o horário do trabalho expirou, o sol já abandonava o céu sem deixar quaisquer resquícios de mais um dia coloroso. A única companhia ao decorrer da vida de Louise fora, sem sobra de dúvidas, a dança. No entanto, os pensamentos frequentes que martelavam a sua mente eram motivos o suficiente para permanecer abstraída pelo desleixo que a seguia durante o período de trabalho; checava o grande relógio no estúdio de dança, atenta aos ponteiros que movimentavam-se conforme os segundos passavam vagarosamente. Despediu-se das crianças com um enorme – e artificial – sorriso no rosto, sem denunciar a exaustão e a felicidade que crescia dentro de si assim que o expediente encerrou. Todavia, ao amentar que precisava comprar a janta com o dinheiro que ainda lhe restou no mês, deixou um suspiro escapar pelos lábios entreabertos.
Sem muitas possibilidades para o alimento, optou – novamente – por comprar os ingredientes para uma receita da culinária coreana, a qual estava familiarizada, soltando um suspiro de alívio no instante em que conseguiu caminhar até o apartamento. Durante o percurso até o local desejado, os pensamentos incessantes da morena continuavam a trabalhar, aumentando a distração da mesma que, por pouco não passa direto do apartamento e continuava a andar até o final da rua. O apartamento era simples – na cabeça da garota que, não queria ser cruel ao ambiente que morava, entretanto, o local não deixava de ser precário: as tintas desgastas da parede indicava quão descuidado era o estabelecimento. Subia as escadas contando cada degrau mentalmente, era uma mania que elaborou ao decorrer da vida e, um sorriso enorme surgiu nos lábios assim que a placa com o número “cinquenta e dois” era estampado acima da porta, não tardando para abrir a grande madeira com a chave já em mãos e, adentrar o próprio lar.
Um som baixinho e suave era escapado pela garota, fazendo questão de deixar as sacolas do super-mercado em uma bancada na cozinha, por conta do dormitório ser extremamente pequeno, em um passo encontrava-se na sala de estar. Preparada para abrir a porta da sacada, assim conseguiria apreciar a lua como fazia normalmente durante as noites quentes de Los Angeles, a visão fora completamente distorcida: soltou um grito de pavor, não contento o instinto de cambalear para trás, por pouco não caindo no chão pelo impacto. Havia uma imagem em sua sacada, para ser mais sensata, o semblante de um homem. A intenção da morena era correr para fora de casa e pedir ajuda. Porém, ao forçar a visão para enxergar nitidamente, a pessoa passou a ser reconhecida e, ao forçar o cérebro para recordar de onde aquela imagem era familiar, lembrou-se do seu vizinho do andar de cima. O que diabos ele estava fazendo? Pensou Louise, aproximando os passos lentamente até conseguir alcançá-lo. ❛ —— Por favor, não faça eu me arrepender de abrir essa janela. Não diga que é um pervertido e estava me esperando com uma faca na mão, ou sabe-se lá o quê ❜ só então pôde respirar, de forma que seu suspiro alto a cansasse, deixando as bochechas avermelhadas pela falta de ar, não sabendo exatamente o porquê de trancar a respiração por tanto tempo após o susto. ❛ —— Agora me explique, por favor. Eu sei que é o meu vizinho, mas pressinto que não estava parado aí à essa hora da noite para pedir uma colher açúcar. ❜
Dentre todas as coisas que Ares aprendera durante os seus vinte anos mal vividos, ele só tinha certeza de uma: quando a sua vida está uma merda, ela só tende a piorar. Seja lá quem fora o idiota que invetara a metáfora do fundo do poço, ele estava mentindo. A tendência não é subir quando se chega ao fundo; é continuar lá, ou cavar ainda mais para baixo até acabar no inferno de uma vez por todas.
Então, no momento em que Ares percebeu a situação em que se encontrava naquela noite, teve certeza de que já estava quase chegando ao inferno — e ainda com convite vip para tomar cházinho com o diabo. Soltou um longo suspiro, procurando mais uma vez a chave na mochila. A cena seria cômica se não fosse trágica: um garoto do seu tamanho com todos os pertences — incluindo roupas íntimas e uma camisinha — atirados na calçada enquanto desesperadamente fuçava numa mochila vazia atrás das chaves de casa que, claramente, tinha deixado no trabalho. Depois de conferir os bolsos também pela centésima vez, conformou-se do já sabia: era um merda e tinha se esquecido delas no seu armário, no bar. Do outro lado da cidade.
Jeez, tudo o que ele queria era o conforto da sua casa com o seu gato. Respirou fundo, tentando não perder o controle da situação e sair por aí gritando e socando paredes. Era tarde; se acordasse os vizinhos poderia acabar sendo preso e ele realmente não precisava de mais uma tragédia para o currículo da semana: receber um e-mail sobre o aluguel atrasado, ir ao banco só para dar de cara com a conta mais que negativa, o seu teclado ter estragado do nada naquela manhã e ele estar sozinho, no meio da rua, sem as chaves de casa ou bateria no celular para pedir ajuda, já eram acontecimentos ruins suficientes por um único dia. De qualquer modo, ele precisava encontrar um meio de entrar em seu apartamento, e isso não seria feito com Jesus descendo do céu para lhe ajudar. Começou a guardar de volta os pertences na mochila, imaginando se seria uma boa ideia arriscar ir atrás de algum vizinho de boa alma que pudesse lhe dar abrigo pela noite. — Não — concluiu para si mesmo. Não falava com nenhum de seus vizinhos e duvidava que alguém sequer soubesse quem era. Sendo assim, sua única opção seria escalar a escadinha de incêndio externa até que chegasse na pequena sacada do seu apartamento — que por sorte ficava bem ao lado dela — e entrasse por ali, pois afinal, o máximo que poderia acontecer seria ele cair e morrer. Simples e divertido, nada arriscado. Levantou-se e caminhou até a escada, fazendo uma prece silenciosa para que todos os deuses pudessem ajudá-lo naquele momento — ironicamente, Ares era ateu. — Se você morrer, seu gato vai ficar sozinho — foram as palavras de encorajamento que encontrou naquele momento para que começasse a subir a escada. Bigode era um gato de rua e perdera uma pata ao ser atropelado. Precisava de Ares.
Ele sempre se perguntara como seria escalar aquelas escadas; se seria cansativo ou nada de mais, e agora tinha certeza de que somente bombeiros com muito preparo físico conseguiam fazer tais coisas sem temer pela própria vida. Focado em se manter vivo, Ares acabou por se esquecer de contar os andares, e quando a realização de que não fazia ideia de onde estava tomou conta de sua mente, ele sentiu o suor das mãos e do rosto aumentar e as batidas do coração acelerarem rapidamente. Se olhasse para baixo para contar as janelas e conferir se aquele era o sexto andar ou algum próximo, provavelmente desmaiaria; já estava muito cansado, tinha certeza de que não conseguiria continuar subindo. Recolhendo todo o resto de energia em seu corpo, decidiu simplesmente pular na sacada à sua diagonal, torcendo para que fosse o seu apartamento. Na segurança da sacada, olhou para baixo somente para dar de cara com mais um azar: estava no quinto andar, precisaria subir mais um até que chegasse no seu.
— Primeiro, descanso— murmurou, sentindo as costas doerem pela força que fizera na escalada. O interior do apartamento onde se encontrava parecia vazio. Sabia que uma garota morava ali, o que o levou a deduzir que ela não estaria em casa. Foi então que teve a ideia mais sensata da noite inteira: esperaria até que a moradora chegasse e pediria ajuda à ela. Tinha cruzado com a menina de manhã, portanto imaginava que ela voltaria para casa alguma hora. Ou algum dia. Resolveu aguardar sentado uma vez que não fazia noção de quando ela chegaria e, tendo dificuldade em acomodar o corpo no lugar pequeno, recostou-se contra a vidraça, tirando a mochila das costas para procurar o caderno de composições e uma caneta. Sempre o levava para onde quer que fosse; era o seu único e fiel companheiro. Forçando os olhos com a pouca iluminação da rua, passou a rabiscar sua próxima música em uma página, acabando por perder totalmente a noção do tempo. Minutos que não pareceram mais que meros segundos se passaram e Ares foi tirado de sua transe quando houve um barulho e as luzes se acenderam no interior do apartamento. Sentiu o coração bater mais forte no peito e a ponta dos dedos se tornarem gélidas — como diabos explicaria à garota a sua situação sem que ela resolvesse sair correndo e gritando, atrás da polícia? Pôs-se de pé, ponderando se deveria mesmo bater no vidro e pedir ajuda… Antes que pudesse fazer sua escolha, foi surpreendido pela janela sendo aberta e a moradora falando com ele, parecendo assustada. — Não, não! Juro que não é isso — disse rapidamente, encarando-a. — É uma longa história — suspirou, levantando a cabeça para o céu e se perguntando o porquê de sua vida só tender a piorar. — Esqueci minhas chaves no trabalho e como o meu celular está sem bateria e eu não pude pedir ajuda a ninguém, decidi escalar a escada de incêndio até o meu apartamento. Eu costumo deixar a sacada aberta, então poderia entrar numa boa. O problema é que fiquei cansado e parei por aqui antes que eu caísse ou algo do tipo — explicou-se, tentando soar o mais gentil e normal possível. Primeiras impressões são tudo. — Eu sei que nunca nos falamos, mas você poderia me deixar entrar e me deixar usar a tomada para carregar meu celular? Eu vou pedir para o meu colega me trazer as chaves até aqui. Só preciso de bateria. Por favor?
✧❝ CAN I HELP YOU? ❞✧ (a&l)
lexiedeyes:
“E como você sabe quantos anos eu tenho?” Argumentou de volta, semicerrando os olhos. “Posso ser uma quarentona muito bem cuidada. Nos dias de hoje, nunca se sabe, especialmente em Hollywood.” Sorriu marotamente. Era meio que verdade. Sua mãe era a prova viva de tal argumento, considerando que as duas já foram confundidas como irmãs mais de uma vez. Mas, até aí, Lexie já havia perdido as contas de quantas cirurgias plásticas haviam sido realizadas em Cassandra Deyes. “Você me perdeu em cuecas sujas, pode ficar com sua mochila de odor fedorento masculino.” Brincou, sentindo-se estranha em manter uma conversa tão leve com um desconhecido, mas Lexie não estava reclamando.
A loira lhe ofereceu um sorriso torto à menção de sua banda, achando graça porém certamente mais interessada ao aprender o estilo de música que seria tocado. “Não, apenas não estava esperando ser isso sobre o que o panfleto se tratava. Parece… conveniente demais.” Lexie perdeu-se em seus próprios pensamentos por alguns segundos, e então percebeu que, fora de contexto, o que havia dito não faria muito sentido para o garoto. Estava prestes a se explicar quando ele lhe questionou sobre sua caminhada noturna, e a menina riu pelo nariz, puxando uma mecha de cabelo para trás da orelha. “Ninguém mexe comigo. Além da minha faixa preta, eu tenho um metro e meio de atitude, chutes que não vão tão alto mas chegam na virilha, e um spray de pimenta no fundo da bolsa.” Listou, dando tapinhas na bolsa que, de fato, possuía uma lata para auto-proteção. Nunca se sabe. “Mas eu saí porque precisava de um cigarro. Eu sei, uma menina tão bonita fumando…” Brincou, utilizando o mesmo tom de voz que sua avó usara quando descobrira um maço de cigarros em seu bolso. “E antes que pude perceber, já estava aqui… procurando oportunidades.”
Lembrou-se então de seu interesse na banda do rapaz, mordendo levemente o lábio inferior enquanto formava coragem para mencionar. “Uh, sabe, eu meio que canto.” Fez um gesto de falsa modéstia, sorrindo em seguida. “Se bem ou mal, não posso te garantir. Mas isso…” Ela assentiu, fitando o panfleto. “É meio o que eu precisava. Você está organizando audições, ou algo do tipo? Porque, sabe, se você tiver sorte posso até tentar me aplicar.” Levantou as sobrancelhas uma vez, perguntando-se qual seria a resposta do rapaz. Talvez ele estivesse procurando por uma banda inteiramente masculina, como a garota aprendera que era muito comum em Los Angeles. Ainda assim, foi incapaz de recuar um pontinho de esperança que crescera em seu peito.
Acabou soltando uma risada com o que ela dizia sobre seus métodos de auto-proteção. — Uau, com certeza eu não mexeria com você. You’re very… Intimidating — falou a última palavra com dois tons a mais de deboche, deixando ainda mais óbvio pelo sorriso maroto que tinha estampado. — Well, não espere que eu te dê uma lição sobre como cigarros são prejudiciais e você vai morrer por consumi-los porque eu também fumo. We’re all gonna die one day anyway, so why stress about it? — deu de ombros, imaginando o que, de fato, teria trazido a atenção da garota até ele; ou melhor, atenção ao que ele fazia por ali.
Fitou-a, esperando que terminasse de formular o que tentava dizer. Uma expressão de surpresa tomou conta de suas feições ao perceber que as “oportunidades” e “conveniências” se tratavam da sua banda. Parecia muito surreal para ser verdade — ele tinha recém colado a primeira leva de panfletos caseiros! —, a vida dele nunca tomava rumos tão bons assim; sem mais nem menos, simplesmente por força do destino. Mas, fosse como fosse, de jeito maneira ele poderia deixar escapar a chance de conseguir alguém para a EX1T, especialmente uma vocalista. Ares era um bom cantor, porém não pretendia usar da sua voz com a banda. Ficaria na produção musical e no teclado. — Baixinha, lutadora de jiu-jitsu, fumante, cantora, carrega um spray de pimenta. Estou impressionado. Mais alguma coisa que você queira adicionar ao seu currículo? — continuou com as brincadeiras anteriores, em seguida deixando os ombros caírem e um sorriso brotar no canto dos lábios. — Eu meio que estou organizando audições, por que eu meio que quero montar essa banda já que eu meio que curto música, então eu meio que aceitaria se você quisesse tentar — virou-se para o muro e arrancou um dos vários panfletos que colara ali, oferecendo-o para que a garota pegasse. — Brincadeiras à parte, eu não tenho um lugar para organizar audições, então se você quiser me mandar um áudio cantando ou algo do tipo, tá aí meu número — confessou de maneira séria. Não podia convidar ninguém até sua casa, seria trágico, e ainda precisava encontrar um lugar para os ensaios da banda; sua única opção era recorrer pela tecnologia. — E, uh, espero que você saiba que essa banda é um projeto um pouco… Uh… Não é nada profissional, sabe? Nada chique, ou promissor. Sendo sincero, não tenho dinheiro nem para conseguir um lugar para a banda ensaiar ainda, se essa banda for existir, mas seria muito legal se você quisesse tentar… — desceu os olhos até os pés, sentindo-se um tanto quanto envergonhado por basicamente admitir sua condição financeira em frente à uma completa estranha. Não fazia ideia de que tipo de pessoa ela era e, morando em Los Angeles, não duvidaria se fosse uma socialite milionária com um reality show. Enfim, levantou a cabeça, tentando animar-se com o fato de que as coisas, talvez, pudessem dar certo pela primeira vez na vida dele. — Digamos que eu sei tocar os instrumentos, e digamos que eu sei cantar, produzir, compor e fazer arranjos também, mas não posso ter uma banda sozinho — falou rapidamente, só então percebendo que, provavelmente, soara muito convencido. Passou a mão por de trás do pescoço, nervoso. — O que eu quero dizer é: seria uma honra tê-la na EX1T — sorriu timidamente, evitando fazer contato visual com a menina. — Juro que não teremos controle de altura e você e seus um metro e meio podem entrar.
Daphne havia acordado com a mente vagarosa, os olhos ardidos e a audição sensível, a bebedeira com as amigas na noite anterior havia lhe rendido uma ressaca irritante, a qual ela pretendia se livrar com boas doses de café, alguns biscoitos e academia. Quando entrou na cafeteria acabou esbarrando contra alguém, o que fez com que ela desse alguns passos incertos para trás enquanto praguejava. “Shit! Damn! So many moves… para um sábado de manhã.” Reclamou antes de lentamente se firmar.
Desde que um funcionário fora demitido do bar, seus horários de trabalho estavam totalmente incertos. Às vezes era chamado para trabalhar logo de manhã cedo até à noite, em outras, como esta, só começaria o seu turno depois do meio-dia. Infelizmente, isso não significava que Ares poderia dar-se ao luxo de dormir até mais tarde: morava longe de mais do local de trabalho e, como precisava pegar dois ônibus pra chegar até lá, teve que estar de pé às oito. Com as olheiras e o cansaço de estar lidando com dois empregos ━ sendo um deles noturno ━, arrastava-se pelas ruas de Los Angeles em direção ao segundo ponto de ônibus. Totalmente avulso aos seus arredores por estar imerso em pensamentos sobre a banda que, finalmente, parecia estar dando certo na procura de membros, só percebeu que o ônibus partia quando já era tarde para que corresse e pedisse ao motorista que parasse. Soltou um suspiro exasperado ━ teria que esperar o próximo; por sorte, havia tempo de sobra. Ainda à caminho do ponto, passou por uma cafeteria que cheirava bem em demasiado para alguém que não comia nada em muitas horas: a ideia de parar ali por alguns minutinhos e pegar um café e um lanche lhe parecia extremamente tentadora se colocasse de lado a falta de dinheiro por pelo menos um dia... ━ Screw it ━ murmurou para si mesmo, ignorando a voz da razão, que lhe dizia que não deveria gastar com baboseiras, e adentrando no estabelecimento. Não demorou muito para escolher o seu café da manhã: um cappuccino e um sanduíche simples; nada mais, afinal, estava realmente quebrado e com muita dificuldade para pagar o aluguel. Esperou até que o seu pedido ficasse pronto para levar e então caminhou até a porta da loja, onde acabou por, acidentalmente, esbarrar em uma garota; deixando a embalagem com o café e o sanduíche cair no chão. ━ Droga ━ queixou-se assim que seus olhos se firmaram na bebida totalmente derramada e o sanduíche destruído. Teve vontade de chorar com a cena. Por que essas coisas tinham que acontecer com ele justamente quando estava vivendo na merda? Respirou fundo, levantando o olhar para a menina em quem esbarrara a fim de se desculpar pela bagunça. Ela era bonita e lhe parecia familiar, mas, honestamente, Ares não tinha tempo para pensar sobre quem era ou de onde a conhecia. ━ Uh, desculpe. Acho que respingou um pouco de café no seu sapato.
“Dude, num é por nada, mas eu acho que esse aí é meu café. Okay, actually I’m pretty sure of it.”
— Well, man, eu só estou fazendo o meu trabalho de garçom. O copo estava na mesa, você não estava ali, can you really blame me? Eu sou pago pra fazer essas coisas — deu de ombros, colocando de volta o copo de café na mesa do cliente. — Prontinho — entregou ao rapaz um sorriso forçado; o mesmo que era obrigado a portar todos os dias naquele bar. Em qualquer situação. — Gostaria de mais alguma coisa?
A boate estava movimentada e naquela noite a indiana queria se divertir, conversava com algumas pessoas até um desconhecido oferecer pagar sua bebida e ela aceitara. O homem pediu um whiskey para ela e assim que ele saiu, ela provou a bebida, cuspindo de volta ao copo. - Como alguém consegue beber uma coisa dessas? Vocês são loucos. - ela falava tentando se recompor antes do desconhecido voltar.
Com ajuda de um anúncio no jornal, Ares tinha conseguido um trabalho temporário como bartender numa boate aos finais de semana, cobrindo o cargo de um ex-funcionário que havia pedido demissão. Não estaria recebendo muito, mas somando com o salário do seu atual emprego no bar, poderia pelo menos ver-se tranquilo quanto ao aluguel. Era o seu primeiro dia por lá e apesar de ter experiência com drinks e tudo o mais, sentia-se pressionado no ambiente. A música eletrônica alta o incomodava; o ritmo que parecia ser sempre o mesmo já fazia seus ouvidos doerem, e o movimento de pessoas bêbadas em demasiado sempre pedindo um copo a mais começava a deixá-lo cansado. Tudo o que queria era estar em casa, no conforto de sua cama e, provavelmente, abraçado em seu gato. Soltou um suspiro, parando para observar as pessoas sentadas nos banquinhos à beira da bancada, bebendo ou conversando, imaginando se elas não estariam tão exaustas quanto ele. Distraído em pensamentos, quase deixou passar por despercebido quando uma mulher se engasgou por ali, cuspindo toda a bebida de volta no copo. Ares franziu o cenho com a cena, aproximando-se por de trás da bancada para que pudesse escorar-se e conferir se ela estava bem. — E o que seria “uma coisa dessas”? — perguntou, levantando as sobrancelhas. — Tenho certeza que essa bebida aí não foi minha. Meus coquetéis são bons de mais para serem cuspidos.
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lexiedeyes:
Lexie Deyes estava fumando novamente. Ela se recusava a admitir que o vício havia voltado, eramapenas alguns cigarros por dia, apenas para aliviar o estresse. E ela tinha muito estresse acumulado em si. O problema era que o ridículo do Mr. Carl — síndico do seu prédio — não parava de importuná-la sobre fumar dentro do apartamento, mesmo quando ela o fazia na sacada. Então, toda vez que quisesse acender um cigarro, tinha que descer e fazê-lo no meio da rua. Naquela noite, a garota já se encontrava ansiosa, e nem mesmo o cigarro aceso dentre os dedos parecia estar ajudando. Sabia que era tarde, e que Los Angeles não era exatamente uma cidade pequena e segura, mas decidiu sair para uma caminhada noturna.
Era uma noite especialmente quente, e Lexie arrependeu-se da decisão não muitos minutos depois de começar a andar. Queria encontrar algum lugar aberto para uma bebida ou quem sabe apenas um sorvete, mas todas as lojas e restaurantes estavam fechando, e ela sabia que não iria querer entrar em um bar no meio da semana — apenas pessoas muito estranhas frequentavam bares à meia-noite no meio da semana. Ela começava a sentir-se ansiosa novamente, e seus dedos já estavam pescando dentro da bolsa pelo maço de cigarro quando notou que passava por uma parede cheia de anúncios. Lexie precisava de um emprego. Bem, ela não precisava, realmente. Sabia que seus pais poderiam sustentá-la se quisesse, mas era aí é que estava o problema, ela não queria. Fazia parte do tal do “se virar sozinha”, e ela estava determinada a cumpri-lo. Varreu os olhos pelo muro enquanto andava, encontrando anúncios para garçonete, atendentes de cinema, babás de cachorros (Hollywood era esquisita), e até mesmo ofertas para audições de estúdios muito, muitosuspeitos. Estava prestes a desistir quando avistou alguém pregando novos anúncios na parede. Talvez ele tivesse alguma opção melhor, ou talvez fosse apenas um viciado pregando um anúncio sobre a melhor maconha da cidade.
Percebeu que ele não lhe ofereceria nenhum perigo quando o garoto congelou no lugar ao vê-la. Lexie quis rir, ele estava com medo dela. A garota levantou às sobrancelhas quando ele lhe dirigiu a palavra, observando por cima de seu ombro para garantir que estava falando com ela, e então voltando-se para ele com uma expressão quase que cômica. “Já se olhou no espelho hoje?”Questionou, nem mesmo conseguindo-o enxergar de tal distância e escuridão porém meio ofendida pelo “baixinha e magrela”. “Você não me conhece. Posso ser faixa preta em jiu-jitsu e você pode nem saber.” Ela pausou por um segundo, incerta se faixa preta seria algo bom e se era jiu-jitsu o esporte que se usava faixas. “Passa a mochila.” Disse, em um tom nem um pouco convincente e carregado de sarcasmo para que ele soubesse que ela não estava realmente falando sério.
Aproximou-se do rapaz, lendo os panfletos que ele havia grudado ali. Lexie levantou uma sobrancelha, notando que se tratava de uma banda. Parecia quase coisa do destino que a trouxera até ali, mas a loira não estava convencida. Primeiro, porque os panfletos haviam sido escritos à mão. Segundo, porque não conhecia o garoto, ele poderia muito bem ser um lunático que conhecia dois acordes no violão e já se achava uma estrela do rock. “Você tem uma banda?” Questionou, incapaz de conter o tom irônico das palavras.
— Nice try, sweetheart, mas nem acho que você tenha idade suficiente para conseguir faixa preta em jiu-jitsu — virou de corpo todo para ela, arqueando uma sobrancelha com o comentário. Sem que quisesse, escapou uma risadinha. Com a pouca iluminação da rua à noite, era difícil vê-la cem porcento, mas tinha noção de que era, pelo menos, bonitinha. — Quer mesmo, huh? Só tem cueca suja, panfleto, escova de dentes e desodorante aí dentro. Não sei se você faria bom uso de alguma dessas coisas, mas né. Como posso saber se não é uma dessas pessoas estranhas que coleciona, sei lá, escovas de dentes usadas?
Observou-a se aproximar, tornando-se um pouco mais visível a seus olhos, e logo notou que ela encarava os panfletos que tinha recém colado no muro com uma expressão de surpresa. De repente, Ares se sentiu extremamente envergonhado pelo trabalho. Não tinha dinheiro para imprimi-los e teve que escrever tudo com a sua própria caligrafia horrorosa. Imaginava que os anúncios chamariam pouca atenção, mas precisava de um improviso até que recebesse seu salário e pudesse ir em uma gráfica. — Por quê? Acha que bonitões como eu não podem ter uma banda de indie rock? Pois saiba que o meu objetivo com a EX1T é revolucionar a ideia de que esse tipo de banda só tem caras feios e de cabelo oleoso — falou, mantendo o tom irônico da desconhecida com uma ponta de divertimento. Virou-se novamente para o muro e decidiu que já havia adesivado panfletos de mais por ali, começando a guardar as coisas de volta na mochila de maneira desorganizada. Enquanto socava os papéis lá dentro, levantou os olhos em direção a menina, perguntando-se o por quê dela estar andando sozinha àquela hora da noite em plena Los Angeles. — Não que seja da minha conta, mas o que te traz a esse muro tão tarde da noite? Não tem medo de andar sozinha por aí? — questionou-a, levantando-se após fechar a mochila com seus objetos pessoais dentro e colocá-la nas costas. — Ah, pera. Esqueci que você tem faixa preta em jiu-jitsu. My bad — entregou à ela um sorriso maroto. De certo modo, estava se divertindo com a troca de palavras. A loira era uma completa estranha para ele, mas, se fosse honesto: e quem não era? Ares não tinha muitos amigos além do seu gato e os parentes de Heejun, que eram alguns trinta anos mais velhos que ele.
kchwa:
— Erm… N-não tinha a intenção de roubar, apenas pensei que havia esquecido e… aish. Me desculpa por isso, por favor! Na verdade, eu tenho dezenove anos, sabe, mas isso não faz diferença agora, acho. Yah, estou arrependido pelo que fiz. Só não me chame de mimado, pois você nem me conhece e… — ergueu o olhar para encará-lo ao conseguir aglomerar os resquícios de coragem que restava para dizer tais palavras e, logo recuou, com medo e os ombros encolhidos. — Podemos almoçar juntos, se quiser. É por minha conta! Ou posso apenas pagar pelo chocolate. Você vai me bater? Chesongamnida… — fez questão de sussurrar a última palavra da maneira mais sincera que conseguiu e, logo desviou o olhar assustado, tentando controlar o comportamento naquele instante.
Ares revirou os olhos ao assistir a reação super dramática do menino. A proposta não era ruim, seria extremamente burro se recusasse um convite para almoço de graça... Soltou um suspiro, encarando-o com uma sobrancelha erguida. — Para de drama, garoto, eu não vou te bater. Tenho mais o que fazer do que ficar comprando briga com alguém como você — declarou, ainda um pouco irritado com ele mesmo que já tivesse se redimido da melhor maneira possível: oferecendo comida. — Tudo bem. Mas que seja por sua conta mesmo. Vai me pagar um hambúrguer grande, fritas e milkshake, e se eu quiser repetir a dose, vai pagar também. Se não... — deu um passo à frente de maneira ameaçadora, cerrando o punho e incorporando a sua melhor “cara de mau”. Fazia aquilo brincando, é claro. Jamais seria capaz de bater em alguém por motivos tão fúteis; mas não podia negar que a situação estava começando a diverti-lo, em especial as reações do garoto.
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@lexiedeyes
O relógio marcava ser quase meia-noite quando Ares terminou o shift no bar, largando o avental de bartender no armário da sala de funcionários e tirando a mochila do mesmo lugar. O cansaço consumia o seu corpo e tudo o que ele queria era ir para casa, deitar-se na cama improvisada e dormir. Tinha começado a trabalhar horas extras devido à falta de dinheiro; e sabia que precisava arranjar outro emprego, especialmente se queria manter uma banda, mas a sua exaustão física pelos turnos dobrados no bar o impediam de fazer qualquer coisa. Chegava no pequeno apartamento quase às duas da manhã todas as noites, só conseguia pegar no sono lá pelas três e meia, e depois era obrigado a acordar às nove porque começava no bar às onze. O tempo não era seu amigo e o dinheiro também não. Era quase capaz de escutar a voz de Heejun em sua mente, rindo dele enquanto Ares reclamava das dificuldades que passava: “E você diz que dinheiro não compra felicidade!”. Não compra, pensou, ciente de que estava mil vezes mais feliz daquele jeito do que na vida que levava antes com os pais.
Terminou de arrumar suas coisas dentro da mochila e se deparou com os panfletos que havia feito manualmente anunciando que estaria montando uma banda, a “EX1T” e precisaria de membros. De membros e de um espaço para praticarem, porque de resto, já tinha tudo: desde instrumentos à materiais de produção musical. Soltou um suspiro, considerando se aquela seria uma boa hora para sair colando os anúncios pela cidade, em postes e muros, ou se deveria esperar um dia em que não estivesse tão cansado. Após alguns segundos ponderando, decidiu que não poderia mais prolongar: precisava de membros para começar oficialmente os trabalhos com a EX1T, e estes não cairiam do céu. Colocou a mochila nas costas e com os panfletos em mãos, saiu pela porta dos fundos do bar, deparando-se com o choque térmico ao sair do ambiente climatizado. Odiava o quão quente Los Angeles era.
Respirou fundo, caminhando pela rua à procura do primeiro lugar onde poderia colar os panfletos. Por sorte, não muito longe do bar, Ares encontrou um muro cheio de anúncios de trabalho, cachorros e gatos perdidos, aulas de espanhol, viagens em grupo e entre outros; parou à frente dele, colocando a mochila no chão e procurando a fita adesiva em meio às roupas e outras inutilidades que sempre trazia consigo. Assim que a encontrou, levantou-se para começar a adesivar alguns dos papéis contra a parede, tapando descaradamente outros panfletos ali.
A rua estava quase vazia, salvo alguns carros e pedestres passando de vez em quando por ele, então Ares demorou para perceber que estava sendo observado. Seu coração pulou e ele sentiu a respiração ficar pesada. A última coisa que precisava naquele momento era ser assaltado, pois além de carregar praticamente toda a casa na mochila, também levava o dinheiro do aluguel daquele mês. Contado certinho. Congelado no lugar, deixou soltar a respiração que estava segurando e virou o rosto lentamente até a presença que o acompanhava, rezando para todos os deuses que não estivesse prestes a ser roubado. Suas sobrancelhas se ergueram e uma onda de alívio percorreu-lhe o corpo quando percebeu que o seu “assaltante” não passava de uma garota, provavelmente da sua idade. — Posso ajudar? — perguntou, ainda um pouco desconfiado. Não sabia o que ela poderia estar escondendo; talvez tivesse uma arma ou um canivete e ele não pudesse contornar a situação. Semicerrou os olhos, analisando-a da cabeça aos pés. — Você é muito baixinha e magrela para me assaltar, então desembucha aí o que você precisa. Se é o meu número que quer, então saiba que não vai rolar. Não tenho tempo nem para cuidar do meu gato, quem dirá de uma namorada baixinha como você.
— O quê…? Está me acusando sem provas? Pois saiba que isso é muito errado. Eu não seria capaz de comer o seu doce enquanto esperava você ir ao banheiro. Já disse que uma criança passou por aqui, arrancou a comida da minha mão e saiu correndo. Ei, não me olha assim! É sério!
— Primeiramente que você nem me conhece, então não faria sentido algum estar me “esperando sair do banheiro”. Segundo, eu o vi me assistindo comprar esse doce. Sua mãe não lhe ensinou que é errado roubar? Estamos no meio de um shopping! Criança? A única criança que estou vendo por aqui é você. Quantos anos você tem, treze? Olha, eu estou sem paciência para lidar com ladrõezinhos de comida, especialmente famosinhos mimados. Só saiba que aquele doce era o meu almoço, porque eu simplesmente estou sem dinheiro para poder fazer uma boa refeição por aqui. Ao contrário de você, Kwon Chinhwa. Ou por acaso acha que eu não sei quem é? Algumas pessoas passam dificuldades para pagar o aluguel e não podem se dar ao luxo de comer doces por aí todos os dias. Não acho que essa seja a realidade que você vive, queridinho da Ásia.