Caos: Eu sou muito indeciso.
Eros: E quem não tem medo de perder, não é?
Caos: Acho que você não me ouviu direito.
Eros: Talvez eu tenha escutado certo.
Caos: Você está me confundindo.
Eros: Achei que já estivesse confuso desde o princípio.
Caos: Sim, mas você piora assim sem falar nada com nada.
Eros: Eu falar nada com nada te incomoda por que você quer tudo com tudo?
Caos: Aff! Vamos parar por aqui!
Eros: Está bem. Não quer mais conversar então?
Caos: Quero, mas não disso.
Caos: Agora vai ficar mudo? Não vai mais falar nada?
Eros: O que quer que eu fale?
Caos: Não sei. Só não me deixe nesse silêncio, sozinho.
Eros: Eu estou aqui, você não está sozinho.
Caos: Não é suficiente apenas estar... tem que estar por inteiro, sabe?
Eros: Uhm, acho que não... Inteiro como?
Caos: Oras! Conversando comigo, me ouvindo e não desviando do assunto.
Eros: Acho que entendi... Bom, há pouco você me dizia que é indeciso... quer explicar melhor pra mim?
Caos: Aí ó, agora está me ouvindo! Então... sempre que tenho que escolher travo. Terrível! Desde o sabor do suco até o número de parcelas de uma compra.
Eros: Ah sim, bem indeciso mesmo.
Caos: Você está seco. Parece indiferente.
Eros: Não era a intenção, desculpe-me. Estou ouvindo. Apenas parei de escutar.
Caos: Acho que te preferia escutando...
Eros: Afinal, o que você prefere, meus ouvidos ou minha escuta? Não dá pra ter os dois.
Caos: Quero você inteiro!
Eros: Como me quer inteiro se me corta pela metade?
Caos: Metade?! Não me venha falar de metades! O que você sabe sobre isso?! Eu estou sempre partido ao meio, disperso! Sempre! Sempre tendo que abrir mão de metade de mim. É perda atrás de perda! Eu só queria ser escutado!
(Breve e profundo silêncio)
Eros: Estou inteiramente te escutando agora. Inteiro. Mas devo dizer, você acaba de perder meus ouvidos. Tudo bem?
Caos: Tudo? Tudo é muita coisa. Apenas estou bem.
Eros: Concordo. Tudo é muita coisa... e talvez por isso perder seja necessário.
Seria um caos não abrir mão de nada?
O desejo de (man)ter tudo não tratar-se-ia de um reflexo de nossa onipotência primitiva, infantil? Assim como para o mundo a origem de todas as coisas é o caos primordial?
Seria o vazio de cada um que une as pessoas?
O vazio humano possivelmente é como um buraco negro - ninguém escapa dele. À ninguém é cedido o “privilegio” da completude.
Mas me pergunto, quão pesado seria ser completo, ser todo? O que nos move não é justamente esta falta inquietante?
O que une é o devir, não o fazer.
O que une está sempre lá, alhures, não aqui.
O que une é a potência de cada coisa, não coisa em si.
O que une é o que não vemos, que não podemos ver, e não o visto.
Afinal, o mesmo ventre que dá a luz, age e gera, sobretudo, na escuridão.
Não é porque não vemos, que não está acontecendo... Pois digo: Você está acontecendo.
Então não tente sabotar a escuridão espiando com uma vela.
A mitologia já nos ensinou que isto não leva a bom desfecho.