Episódio 3 - Mergulhando de cabeça
Levantei da cama, preocupado. Como eu pude me esquecer de algo tão simples como usar camisinha? O tesão havia sido tão grande ao ponto de eu cometer essa insanidade? Pensei se seria necessário tomar PEP, a profilaxia pós-exposição. Perdi o sono, todo cansaço da noitada pareceu desvanecer.
Fui até a geladeira e servi-me um copo de leite, esquentei no micro-ondas, sentei no sofá e forcei para quietar a cabeça, pesquisei no Google e vi que a PEP era indicada em casos de urgência e devia ser tomada entre duas horas após a exposição e no máximo até 72 horas depois.
Enquanto eu lia o whatsapp vibrou com uma mensagem de Eric:
“Já estou em casa gatinho, foi muito bom ter te conhecido, espero te ver de novo”.
Aquelas palavras fizeram meu coração empolgar-se e virei de uma vez o leite que ainda sobrava, o que esquentou mais meu peito, pulei do sofá pra pia e deixei o copo, voltei pra cama ainda mais feliz. Logo dormi.
Despertei sem nenhuma ressaca, mais acordei tarde, mais de meio-dia, e como de costume a primeira coisa que fiz foi tatear o criado-mudo ao lado da cama em busca de meu celular, havia uma mensagem de Isabela:
“Tá pronto pra outra?”
“Vivo pronto.”
“E o rapaz que você levou pro seu apê?”
“Ele é lindo não é? Foi ótimo miga!”
O domingo pós-balada passou como de costume preguiçoso, coloquei as roupas sujas pra bater na máquina e criei coragem pra lavar o banheiro. Fiquei o dia todo trocando mensagens com Eric. Não me recordo exatamente em que momento Edu pegou os contatos de todos nós, mas ele criou um grupo de whats onde estava presente eu, Isa, Rodrigo e Eric, todos que estavam no carro na hora de ir embora, a conversa também estava animada por lá, falando besteiras nada haver como de costume em um grupo de desconhecidos que se viram pela primeira numa noite de balada.
Na segunda à tarde eu tive que ir pro trabalho, eu era operador de caixa em uma grande loja de roupas do shopping Iguatemi aqui em Campinas, estava um pouco cansado psicologicamente do trabalho, mas isso é assunto que eu vou falar mais tarde, o que eu quero dizer aqui é que apesar do meu esgotamento mental no emprego o que me dava um descanso eram as amizades de lá, em especial a da Bianca, era uma garota hétero, pelo menos até onde eu sabia, tinha um relacionamento de cinco anos com um rapaz e eu e ela pegávamos todos os dias o mesmo ônibus o que permitiu que crescesse uma amizade e confiança entre nós para abrirmos nossos sentimentos e questões pessoais, omiti pra ela também que não havia usado camisinha.
_ Bianca, porque você não vai comigo qualquer dia pra balada?
_ Tenho que ver com o meu namorado se ele topa.
_ Ele não deixa você ir sozinha? É balada gay poxa.
_ Melhor não.
Ela tinha o cabelo tingido de vermelho, apenas 19 anos, e um relacionamento já tão longo, teve sorte de encontrar alguém tão rápido.
A semana foi transcorrendo normalmente, na quinta era minha folga e combinei com Eric depois que ele saísse do trabalho de darmos um passeio, eu estava animado em ver ele novamente, em ter a certeza que realmente não foi um casinho de uma noite de curtição, tivera sim um algo a mais, aquela coisa além da pegação.
Marcamos de dar um passeio no Parque Ecológico Monsenhor José Salim. Caminhamos pelas trilhas de lá observando os ipês, os enormes eucaliptos, as capivaras que ficavam zanzando pelo parque, e tudo isso de mãos dadas bem à vontade como um casal de namorados, não soltávamos a mão nem quando outra pessoa passava por nós, não tínhamos vergonha de demonstrar nosso afeto.
Subimos até algumas pedras que ficam ao lado de pequenas palmeiras na parte alta do parque, onde tem uma vista linda dos bairros em volta, do distrito de Sousas. Ele sentou em uma das pedras e me envolveu num abraço, corpo a corpo, senti a barba roçando minha nuca, a respiração em meu ouvido, foi tão bom estar nos braços dele ali naquele linda paisagem, sentindo o sol queimar nossa pele, afastado de todos, só o barulho do vento.
_ Que droga! _ cochichei.
_ O que foi Oliver?
Admirei os olhos castanhos bem claros dele refletidos com a luz.
_ Não estava nos meus planos se apaixonar agora.
_ Você está apaixonado?
_ Acho que estou ficando. Me ferrei né?
_ Talvez não.
Ele sorriu e me beijou. Ai Eric, Eric, Eric...
Nos despedimos e combinamos de sair juntos no fim de semana, outra noite de balada.
Eu estava feliz, sai cantando depois que sai do ônibus até a porta do meu kitnet, já tinha decorado a letra de “Seu Costume”, do Bruno Gadiol com Gabriel Nandes.
Liguei pra Isabela.
_ Miga, acabei de voltar de um encontro com o Eric.
_ E como foi?
_ Maravilhoso! Acho que encontrei o par perfeito.
_ Migo, você não está sendo muito precipitado? Não faz nem uma semana que vocês se conheceram.
_ Mas ele é tão legal, tão fofo, sei lá estou deixando rolar.
_ Só toma cuidado viu, pra não ir mergulhando de cabeça e depois se dar mal.
_ Mas eu confio nele miga. Até transamos sem camisinha!_ não sei que raciocínio meu cérebro teve que confessei daquela forma.
_ O que? Quando?
_ Na primeira noite, quando você nos deixou aqui em casa depois da balada.
_ Assim logo de cara? E depois você tomou PEP?
_ Não.
_ Você é louco!
_ Louco de amor.
_ Para de ser piegas. Que horas você entra pro trabalho no sábado?
_ Uma e meia da tarde.
_ Vamos almoçar juntos antes de você entrar?
_ Pode ser.
_ Te pego no Largo do Pará às onze horas.
_ Fechado!
Eu estava sentando no banco debaixo de uma árvore, observava do meu lado o ponto de táxis e o movimento agitado da manhã de sábado. O dia já estava planejado, eu ia almoçar com Isabela, trabalhar, voltar pra casa, tomar um banho e me arrumar pra sair com Eric, dessa vez eu tinha que vir embora mais cedo, no outro dia também iria trabalhar.
Vi Isa estacionar o carro e vir até mim caminhando. Abracei minha amiga e beijei seu rosto.
_ Tem um restaurante aqui no Centro que gostaria de te levar. _ ela afirmou.
_ Tá bom!
Fomos caminhando, conversando sobre o trabalho e a menina com quem ela tinha ficado no último fim de semana, ela parecia não estar muito animada de desenvolver um romance com ela, a garota era de Americana e ia precisar gastar tempo e dinheiro pra se verem, relacionamento à distância... Isa já tinha passado por isso com a ex que morava na minha cidade natal e não estava nem um pouco com vontade de viver algo parecido.
Tocamos novamente no assunto de eu ter feito sexo sem camisinha.
_ Você é louco Oliver, podia ter pegado alguma coisa, não tô falando de HIV, mas alguma DST qualquer.
Eu fiquei quieto, sabia que ela tinha razão. Foi quando paramos em frente a um prédio.
_ Antes de irmos ao restaurante migo, achei melhor passarmos aqui.
_ E o que é aqui Isa?
_ É o Centro de Referência DST/AIDS daqui de Campinas. Migo você fez sexo sem camisinha, não é melhor fazer um exame de detecção?










