Tinha passado dias em casa com a porta trancada, a cara inchada pelo choro, o espelho já quebrado pela raiva, e nem assim, Laura queria sair do seu quarto. Ludmila, mesmo sendo exigente com os estudos da filha sabia que seria necessário um tempo, e ela estava dando, o silêncio nesse momento entre as duas era necessário. Laura estava passando pelo o que ela passará e não por desejar assim como fora com ela, mas por um acidente no salão de beleza.
Ludmila assumirá seus cachos e seu cabelo natural junto com outras mulheres negras em um movimento estudantil da escola, foi mais fácil passar por aquilo coletivamente, a partir daquele dia em diante se assumiu, se sentiu, olhava pra ela e sabia quem era. Mais cedo ou mais tarde Laura iria se sentir assim, e isso a confortava, apesar de seu peito arder enquanto escutava o choro da filha.
Laura estava desolada, um erro tonto, colocou seus anos de alisamento por água abaixo, ela nunca quis escutar os conselhos da mãe, de que adiantava ela deixar os cabelos como da mãe se todas as amigas da sua escola tinham cabelo liso! Com todo o esforço para se adequar como qualquer adolescente que procura seu grupo, ela ainda sentia que nem o relaxante mais poderoso a deixaria com os cabelos como o de Melina. Nenhum menino olhava para ela, meninos não gostam de meninas que rebatem, que tem argumentos, pelo menos nenhum menino da roda em que andava. Isso ela puxará da mãe, não levava desaforo dentro da mochila, os deixavam ali mesmo, muitas vezes até no tapa, porém isso fazia com que outras mães associassem a sua “tal” violência a sua cor. Indignada por isso, ela argumentava que era uma defesa, as outras meninas também davam tapas quando os meninos davam beliscões em lugares indesejados, mas ela tinha sempre que se controlar, sempre que se calar, mas não o fazia.
- Você precisa comer, insistia a mãe.
- Eu preciso é de um cabelo novo, vociferou Laura.
- Para com isso, ele vai crescer, enquanto isso nós podemos ir ao salão fazer umas tranças.
- Você mesma disse que não existem salões que fazem cabelo pra negros nessa cidade.
- Eu te levo na casa da Pagú, ela é Angolana, sabe fazer tranças como ninguém. Venha comer pelo menos, de estômago vazio você só sentirá mais raiva.
Laura saiu do quarto com um lenço na cabeça, era só ela e a mãe em casa desde que o pai tinha ido embora pra morar com outra, sabia das dores da mãe e sua mãe sabia das suas, se calavam e se entendiam nos silêncios.
- Vou fazer um resumo dos três dias que você perdeu, como naquele filme “Como se fosse a primeira vez.”
- Filme meloso e chato, mãe.
- Meloso e chato, porém a ideia servirá certinho.
Ela viu a mãe pegando uma câmera, se postando como repórter e começando a descrever as notícias de três dias atrás, caiu na risada, ficou mais leve, conseguiu comer.
“Está uma delícia, meu prato predileto com meu suco predileto”. Ela sorriu pra mãe, gostava da maneira boba como sua mãe a agradava.
- Com sua sobremesa predileta, só virar a mão e abrir a geladeira, acrescentou Ludmila.
- Quando podemos ir à Morena?
- Agora mesmo, ela já está esperando.
- Eu posso pegar um ônibus, você tem que trabalhar à tarde.
- Você não percebeu? Estou ardendo em febre, tenho que descansar.
As duas riram, ela sabia que a Mãe estava nervosa com a situação, mas queria que tudo fosse leve. Sentiu vontade de ligar a Melina ou a Sabrina, mas sabia que pra elas a situação iria ser “dramatização,”assim como, elas sempre diziam quando Laura se ofendia com alguma coisa relacionada a sua cor: “Deixa disso Laura, você se ofende com qualquer coisa, é brincadeira;” e Melina questionava ela para ter mais espírito esportivo. Tinha dias que ao ouvir essa palavra: espírito esportivo, ela tinha vontade de distribuir socos e ponta pés, “Tá vendo? Não doí! Para de drama, tenha mais espírito esportivo,” reafirmava Sabrina.
A música pop do rádio preencheu o silêncio do carro, Laura segurava o lenço contra o vento da janela, ela mesma não tinha mais olhado pro cabelo havia três dias, como quem espera um milagre. Porque aquilo importava tanto pra ela, se indagava. Talvez não importasse pra ela, importasse para os outros.
Morena era uma negra linda, o apelido pegou logo que desembarcou no Brasil, só ouvia “Morena” daqui, Morena de lá, às vezes com tons sensuais, às vezes em vozes femininas tentando suavizar, ela não entendia o porquê de ser chamada assim, já que era Laura. Se divertia com o fato das pessoas acharem que chamando ela de “morena” iria clarear a pele, e deste modo, clarear o preconceito dessas pessoas. Nada afetava Pagú, era do tipo sorrisos pra tudo, estava sempre em outro estado de espírito, muitas vezes Ludmila falava para Laura que morena já tinha alcançado o carma, e por isso em tudo via felicidade. Laura se irritava às vezes com esse excesso, mas sabia que era natural.
- Coisa linda, sente-se aqui. Quer um suco?
- Qual suco tem hoje, morena?
- Hoje tem uva com água de coco e couve.
Ela bebeu o suco, Morena tinha o dom de misturar sabores deliciosos com outros horríveis, e ainda sim fazer tudo ficar gostoso.
- Não sei como você consegue colocar couve em um suco e fazer ficar bom.
- O segredo é o equilíbrio.
Equilíbrio, aquela palavra tão simples, mas tão difícil de obter naquele momento da vida dela.
Seria tão fácil, se as pessoas entendessem o peso das palavras e ações e equilibrassem com suas próprias atitudes. Laura ficou ali divagando sobre tudo isso, enquanto parecia que as risadas e conversas estavam em outro plano, vez ou outra soltava efeitos sonoros como “hurum”, elas sabiam que Laura estava em outro plano, mas agiam normalmente.
Depois de quase três horas ela ainda se perguntava se sairia dali com dreds tingidos de vermelho.
- Demora, mas você só vai precisar retocar a cada 3 ou 4 meses. Pelo menos assim, eu tenho certeza que irei te ver.
Ela olhou pra mãe, estava pronto, respirou fundo, à volta na cadeira enquanto morena ia virando-a para ficar em frente ao espelho demorou quase uma vida. Assim que se olhou, sua mãe levantou e foi caminhando até a cozinha.
- Morena você pode me servir mais um copo do suco?
- Ah sim, te sirvo um pedaço de bolo também.
Laura estava se fitando, se olhando, passou a mão nos cabelos, mais duros que o normal, dessa vez quando ela tirava a mão o cabelo não tinha tanto movimento, era como algo mais forte, mais pesado que ela iria carregar dali pra frente, ela não gostou, mas de certa forma não odiou, era como uma parte dela que ela ainda não tinha sentido, como descobrir uma mancha de nascença quando criança, aquela mancha sempre estará ali e aos poucos você passa a entender que ela faz parte do seu todo, e conforme você se ama, você ama a mancha.
- Laura, aqui estão uns cremes pra você usar e qualquer coisa que você tiver dúvidas pode me ligar.
Ela não conseguiu proferir um elogio, se dirigiu até o carro, enquanto sua mãe insistia em pagar e morena negava. Ficou acordado um almoço, um tutu de feijão que a mãe de Laura fazia muito bem.
- Meu tutu paga tudo pra você, né Morena?
- Esse Tutu é moeda de ouro!
O despertador tocou às 6h00, apesar de a escola ser ao lado da casa de Laura e a aula só começar às 7h30, ela acordava cedo para esquentar a prancha e fazer o ritual matinal do cabelo, como sua mãe chamava, ela se levantou, foi ao banheiro, passou os cremes e viu que não teria mais nada pra fazer além de tomar café. Resolveu preparar um café pra sua mãe. Ludmila acordou com o cheiro do café fresco.
- Bom dia mãe, tem café fresco. Fiz tapioca, não tinha mais pão na prateleira.
- Sim, parece que agora vou poder acordar mais tarde.
- Não era tudo que você queria? Coloca na balança das coisas positivas.