— Training scene —
Não fazia muito tempo desde que uma pequena chuva houvesse caído nas dependências do Instituto. Ainda que o céu do fim da tarde estivesse límpido como uma tarde veranil, o clima pós-chuva se configurava em todo o cenário; poças de chuva estavam aqui e ali, deixando a grama escorregadia e perigosa; os pássaros cantavam em suas árvores, num instinto animal de saber se seus ninhos estavam bem através do canto; duas figuras empunhadas de armas corriam uma na direção da outra no pátio externo.
— Nosso pai me mandou uma carta — disse ele, se preparando para o próximo golpe de Tormenta. Tinha de ser atento em relação à irmã; sabia que ela gostava de usar todo tipo de conduta, fosse boa ou má, para te colocar sob a sola de seu calçado. Não estavam treinando fazia muito tempo, a dez ou quinze minutos atrás estavam apenas se xingando e disparando injúrias que fariam alguns dos bonum ficarem sem dormir por alguns ciclos lunares. Girou ambas as espadas gêmeas nas mãos, com os ganchos fundidos nas pontas; tinham um bom corte, e eram ótimas para deter o inimigo. — Falou para você enviar alguma carta ou coisa assim. Queria saber se seu machado ainda estava bem afiado.
Ragnar saltou sobre a poça de água, aproximando-se da irmã. Braços erguidos, posição defenso-evasiva. Pronto para atacar ou amparar algum outro ataque dela. Bateu firme as botas na água e alavancou uma perna para cima, para que as gotículas fossem contra o rosto da irmã gêmea.
— Algum assunto bobo para puxar assunto. O velho deve estar se sentindo solitário. — E desceu uma das espadas, na direção do flanco de Tormenta.
Tormenta não era uma figura que alguém descreveria como adorável — E, sem dúvidas, sua imagem não ficava muito melhor enquanto lutava. Com o cabelo preso em um rabo-de-cavalo alto e firme para deixar seu campo de visão livre na direção de Ragnar, o rosto da menina carregava inúmeras linhas finas já esbranquiçadas, lembranças de cicatrizes das mais diferentes origens — de seu próprio uso descontrolado do poder sombrio que carrega, de treinos anteriores ou de uma das “lições” de Malévola durante a instrução da menina.
Instrução essa tão exímia que, até aquele momento, Tormenta não demonstrava qualquer sinal de cansaço ou exaustão durante a luta com Ragnar. Não suava, e seu corpo movimenta-se de maneira precisa e brutal — Cada golpe calculado para ser tão doloroso quanto, mas não o suficiente para ser mortal.
— Talvez eu escreva alguma coisa, mas a babá de Lucian é você. Será que ele gostaria de saber que eu inclui meu machado na lista de instrumentos do clube de tortura?
As palavras carregavam o teor sarcástico que Tormenta conseguia incluir em cada uma das suas palavras, mas sua expressão estava longe de ser debochada ou humorada. O maxilar rígido e os olhos atentos enquanto lutava era uma prova de sua concentração em batalha, e não se permitia abaixar a guarda por um erro tão tosco como distrair-se conversando durante um confronto — Para a malum, tudo era um confronto. E apesar de ser somente um treino improvisado em um pátio qualquer do Instituto contra o irmão, a seriedade que depositava na luta era a mesma.
Sendo assim, quando Ragnar espirrou água contra seu rosto, estava preparada o suficiente para não cair em um truque tão bobo. Com dois passos ágeis para trás, saiu do campo de alcance das gotículas de água, e com a mesma destreza avançou pela direita para tentar fugir do ataque da espada de Ragnar contra seu flanco, mas a lâmina afiada conseguiu alcança-la de raspão e cortar sua pele, rasgando um pedaço de sua camisa e manchando o tecido em volta de um vermelho escuro.
Apesar do ferimento, Tormenta não parou com a fisgada de dor que sentiu e ignorou completamente o sangramento, direcionando sua mão esquerda contra o rosto do irmão gêmeo. As duas mãos de Tormenta estavam revestidas com um protótipo muito semelhante a um soco inglês, totalmente negro e com pontas de estilete afiadas como navalhas nas dobras entre cada dedo. Mirando a lateral da face de Ragnar, na altura de sua orelha em uma linha diagonal até o queixo, depositou força e pressão suficientes no golpe para arrancar-lhe sangue naquela região, traçando o que posteriormente com certeza seria uma cicatriz ali.
Dobrou a perna direita e impulsionou-se para frente contra o corpo de Ragnar, para acertar bruscamente o joelho no abdômen do irmão em paralelo ao ataque contra o rosto do menino, para que assim ele não tivesse tempo de reação suficiente.
Respirando ao ritmo do combate, acrescentou:
— Mas é óbvio que eu não gastaria o impecável corte dele em sua sua carne, Ragnar. Meu machado é somente para ocasiões especiais.
Tormenta não podia ser subestimada, Ragnar sabia de maneira íntima e clara em sua mente. Provou um ponto quando citou o nome de seu pai: Tormenta não era o tipo de garota mais emotiva e ligada à família. Mas havia um ponto na mente de Ragnar em que conseguia separar as estratégias de seus movimentos — a luta com sua irmã não era como uma dança mecânica e cruel, era uma sintonia de corpos em que cada movimento te colocava em perigo de rasgar a pele em violência pura ou pior: não duvidava que Tormenta arrancaria uma mão do garoto se pudesse.
E sorriu quando viu que arrancou-lhe sangue, ainda que em pequena quantidade. Girou a espada da esquerda, límpida e prateada, enquanto a da direita buscava avançar de novo contra a pele da irmã... Até ela ir mais rápido.
Muitas pessoas poderiam pensar que aqueles que se portavam de armas de curtíssima distância eram menos perigosos do que aqueles que tinham lâminas mortais e arrebatadoras; estavam enganados. O filho do Lucian Snowbrawl sabia que aquela garota portava as habilidades do pai também; e que qualquer arma em suas mãos era um perigo iminente e periculoso. Não conseguia sequer ver com distinção os ângulos do soco inglês que ela portava; apenas enxergava os pontos negros em suas mãos.
E não queria eles, de maneira nenhuma, banhado no escarlate de seu sangue.
Mas a velocidade de Ragnar não foi o suficiente. Mesmo erguendo a espada para amparar o golpe de Tormenta, as mãos dela foram mais velozes; o soco inglês abriu a pele do rosto do rapaz na altura da maçã do rosto, por pouco não pegando em seu olho, e jogou a cabeça para trás, grunhindo de dor, tendo sido atribuído a um único arranhão no golpe no queixo.
Ela estava em uma posição muito ofensiva. Mas Ragnar estava preparado para isso.
[...]
“Ragnar corria. Seu pai corria atrás dele, portando um machado longo. Haviam histórias em Avgi que o som da lâmina afiada do machado fazia o mesmo som das tormentas no céu quando encontrava sua vítima. Era um treino pesado; Ragnar deveria enfrentar seu inimigo, seu pai. Deveria entender como funcionava a compreensão de uma batalha. Mas Lucian era forte demais.
As árvores passavam como um borrão na visão periférica de Ragnar. Ele pode ouvir o zumbido de uma adaga de prata passando rente à sua orelha, abrindo um pequeno corte, e ficando-se no chão. Lucian estava perto. O mais novo corria... Mas devia montar um plano. Puxou então as espadas da bainha presa às costas, e as alavancou no tronco mais próximo, escalando. Enfrentar Lucian nas alturas poderia ser periculoso, mas era uma vantagem quando seu pai era um combatente exímio em terra.
Estava prestes a chegar em um tronco largo e capaz de se sustentar, quando ouviu o farfalhar das folhas...
Lucian apareceu na lateral, com as pernas projetadas para frente, indo de encontro ao peito de Ragnar. O garoto esticou a espada contra o tronco, e ainda que tivesse sido empurrado para longe, manteve-se suspenso, segurando na arma fincada na madeira.
— Não me viu chegando? — perguntou Lucian com desdém. Ragnar cerrou os olhos; e então tudo que viu foram as faíscas vermelhas e laranjas ao redor.
— Não preferia se manter longe, pai? — E jogou as chamas de si para o homem a sua frente.”
As fagulhas brilharam ao redor do corpo do garoto. Seu tronco era rijo e firme. Sua respiração era compassada, ainda que estivesse levado os danos precisos e perigosos da irmã no rosto. Com um giro de corpo, deixou que a perna de Tormenta passasse reto no ar. Ainda que Tormenta fosse imune ao fogo, a força de uma explosão poderia ser maléfica aos planos dela para com essa batalha.
— Não preferia se manter longe, Tormenta?
E chamas irromperam do corpo de Ragnar, furiosas e selvagens, em uma explosão brilhosa contra a criada de Malévola.














