❂ Reaching for something in the distance ❂
Cada ida ao quarto, cada passagem pelo corredor bem arejado, levava mais tempo do que qualquer outra pessoa faria em passos normais. Ileana não se apressava a passar pela grande porta da biblioteca reservada, olhando pelo canto dos olhos se teria a sorte naquele dia. O tempo transcorria mais depressa quando esta estava entreaberta, mostrando papéis e inventos tão magníficos que faziam seus passos interromperam no meio do ato. Eram indizíveis, eram indescritíveis, e faziam seu pobre coração bater tão rápido quanto o dia que tinha pego uma traição carnal na estalagem onde trabalhava. Algumas vezes, com o dobro da coragem, arriscava-se em aproximar e colocar a mão na maçaneta, girando silenciosamente para a fresta se abrir e a cabeça passar. A visão era de encher os olhos, de atiçar a curiosidade infantil e sincera que se recusava a morrer mesmo depois de atingir a idade adulta. Nesse dia de audácia, dos cabelos em tranças rebrilhando na luz do ambiente, foi quase pega no flagra. Nem processou o que fazia ao pular para fora, levantar as saias e sair correndo, aproveitando a calmaria do corredor. Ele tinha visto. Ele só podia ter visto. E as faces queimavam ainda mais por dar uma impressão tão errônea para alguém que parecia ter sido pintado por um artista excêntrico.
Dessa vez dispensou as criadas com um pedido tão doce quando sincera, tirando de suas mãos calejadas a bandeja com a bebida preferida do homem da sala dourada e cheia de fantasia. Elas não seriam punidas garantia a cada poucas frases, sorrindo de tal forma angelical que estas se afastaram aliviadas. Ileana, munida de tal conjunto de chá, avançou pelo mesmo corredor com o porte reto e delicado de uma dama, aproveitando que a mesma já estava aberta em antecipação ao serviço que pedira. A princípio não notou se ele estava ali. O arrebatamento das invenções e dos números e dos projéteis roubando cada nuance e fibra de sua atenção. Os olhos azuis faiscavam com o novo, com o belo, com uma mesa tão atulhada de materiais que, mesmo na bagunça a seus olhos, provocavam uma espécie de admiração silenciosa e vibrante. A dama se aproximou buscando numa mesinha destinada ao chá o apoio da bandeja e de seu disfarce não tão disfarçado. Belo. Belo. Belo. Os olhos não parando em canto nenhum até se verem presos num olhar escuro e desconhecido. Desconhecido de contato pois já o tinha visto antes nos muitos jantares e passeios com a princesa mais nova. Ileana sentiu as faces corarem pelo flagra, mas a cor rosada não evoluiu para o vermelho vivo de cometimento de crime. Não se sentia tão culpada assim, tão errada assim. Ela curvou a cabeça respeitosamente, a mesura tão delicada quanto firme em reconhecimento de sua superioridade. ℘ Milorde, eu trouxe seu… sua bebida. ℘ Refresco era arriscar demais visto que estava mais ansiosa demais para chegar à ele do que examinar o conteúdo da bandeja. A garota sorriu contidamente, esperando… esperando… e lançando olhares fugazes pela biblioteca.
@rajaminkhalil
Raja ainda lembrava-se da primeira vez em que colocou os pés na biblioteca real de Belônia. Encanto era o que via em seus olhos. Livros grossos, livros velhos, livros duros, livros novos. Livros, livros e livros, até onde não houvesse mais vista. Era, com toda a certeza, no mínimo uma dezena de vez maior que a biblioteca do califado de Acre. A admiração pelo local trouxe um sorriso aos seus lábios contínuo a notícia de que aquele seria seu local de trabalho. De certo que uma sala reservada fosse lhe dar mais privacidade e concentração a seus estudos e projetos, mas o espaço e o fácil acesso a informação lhe seriam úteis. Além disso, Raja não demorou a perceber que apesar daqueles mares de páginas, poucos haviam para folheá-las e mergulhar em sua tinta. Muito embora a corte fosse composta de um bom nível de intelectuais, além de claro, os próprios diarcas e suas famílias terem um elevado nível cultural, a maioria daqueles que tinham a condição de ler ou liam pouco, devido a afazeres diversos do dia a dia, ou liam em outros cômodos e espaços daquele imenso palácio, seja para desfrutar do ar livre ou do doce silêncio privado de seus quartos. Assim, o engenheiro viu, sua companhia era escassa. Mas não nula.
Vez ou outra, almas perdidas vinham encontrar seus rumos por entre as páginas dos livros. Estes pouco importavam a Raja, e quando importavam, tiravam-no de seu trabalho apenas por segundos para que o islã se levantasse e cumprimentasse, mas dificilmente mais do que isso, e raramente as figuras voltavam a se encontrar em paredes bibliotecárias. Mas uma silhueta em especial estava sempre entre aquelas paredes -- ou ao menos, parecia querer estar. Grandes olhos azuis curiosos, nariz rosado arrebitado, fios dourados e laranjas confundindo-se uns nos outros enquanto desciam suaves por sua espinha. Uma gata do deserto -- porém muito longe das pedras desérticas da Palestina, e andando sobre duas patas, geralmente cobrindo sua nudez com graciosos vestidos de seda de cores claras; rosa, lilás, turquesa, azul. Raja era um homem focado. Quando começava seu trabalho, mantinha os olhos fixos nos papéis e nos cálculos por horas a fio. Levantava-os apenas quando muito cansado ou travado, precisando espairecer para vencer os números que teimavam em jogar suas (potenciais) construções a baixo. Mas quando os levantava, lá estava a gata; e furtiva como só ela, fugia ao ser flagrada, antes mesmo que houvesse uma tentativa de aproximação ou comunicação. Arisca, mas presente. E essa presença arrancava alguns sorrisos solitários do matemático. Por vezes contava a esposa: “Fiz uma amiga”, com um sorriso bobo. “Uma gata. Por vezes a vejo me espiar na biblioteca, cheia de curiosidade, não sei se pelo que faço ou pelo que há a minha volta. Não se aproxima, contudo. Não sei se é medo ou resguardo. Uma pena. Mas sendo minha única companhia durante meus estudos, a considero como uma pequena e tímida amizade.”
Mas naquele dia, uma surpresa. A gata saíra das sombras. Talvez a quantidade de tempo o observando tenha a mostrado que ele não era nenhuma ameaça; era apenas um estudioso, paciente e calmo. Mas mais surpreendente do que a aproximação fora a maneira que a fizera. Muito polida e educada, como uma boa jovem dama ocidental, ela adentrou na biblioteca, segurando em suas frágeis mãos uma bandeja simples, porém lustrosa. A cena tirara-o de seu trabalho, as réguas e penas sendo pousadas sobre o papel. Com muita paciência e calma, Raja a observou, pela primeira vez de perto e com detalhes, não sendo apenas um borrão alaranjado furtivo. Notou que seus olhares enrubesceram sua face, mas não surpreso, pois sabia que ela era tímida. E então, ela pronunciara-se. Em primeiro momento, ele apenas se levantou, e então negou: “Não sou lorde, senhorita. Me chame de Raja, por favor, pois meu nome é o único título que possuo.” e assim, abriu um pequeno sorriso. Dirigiu-se em direção a mesinha cuidadosamente preparada, com um pequeno bule de chá, xícaras e biscoitinhos. Mimos assim que ele só recebera da esposa, e de algumas criadas do califa, quando muito, nas vezes em que trabalhara no palácio de Acre. Em Belônia, no entanto, era uma novidade. Quando Kaaj ainda era vivo, o homem tinha mais costume de receber criadas com pequenas pausas para seu trabalho. Após sua morte, no entanto, oriental como era, perdera estes privilégios. “É muita gentileza sua me trazer este chá. Agradeço, mas não entendo -- há muito tempo não sou recebido com um pausa como este. Normalmente devo abandonar minhas tarefas e dirigir-me ao cozinha para me servir.” Inclinou-se levemente em direção ao preparado, indicando-o: “Gostaria de sentar-se comigo?” convidou então. Não sabia se ela aceitaria. Algo muito forte, na verdade, lhe dizia que não. Porém ficaria feliz em finalmente ter uma chance de conversar com aquela pequena gata do deserto, tão furtiva, tanto que nem ao menos conhecia seu nome.














