i'll be gone before it happens @pov
Ralph sentou na poltrona, a aeromoça lhe avisando pelo que parecia a milésima vez para apertar o cinto. O garoto não via a necessidade daquilo. Um cinto não podia impedir a sua morte. O seu antecipamento e ansiedade haviam desaparecido. Era como se ele tivesse aceitado, finalmente, o seu destino. O garoto pousou os olhos no encarte sobre Paris à sua frente, dando um pequeno sorriso ao ver os pontos turísticos que o papel recomendava. Ele já havia visitado todos aqueles, até morou perto da torre Effeil por um tempo. Parecia que tinha se passado milênios desde que esteve em sua cidade natal. Ralph jogou o encarte para o lado e suspirou profundamente, relaxando seu corpo. Este seria um natal sangrento. Ao menos, ele estaria preparado para o que viria – estava vestido de Armani dos pés à cabeça, exceto pelo relógio da Ralph Lauren e o perfume da Hugo Boss. Ralph Boss. Uma expressão de contentamento pintou sua face. Ele demorou dezenove anos para perceber o que suas mães fizeram com seu nome. Riu. Mirou seu olhar para a janela. O avião havia decolado há alguns minutos, e as nuvens eram tudo o que podia se ver. Seu relógio apontava para oito da noite. Pela primeira vez desde que embarcara, Ralph sentiu medo, e ter consciência de que não tinha mais como voltar para terra firme fez com que suasse frio. Lembrou do que o seu suposto colega de equipe lhe alertara. O avião iria ter uma falha mecânica às nove da noite. "Ótimo, ainda tenho uma hora", pensou, enquanto chevava seu relógio outra vez. Suas mãos tremiam levemente. Ele não iria desistir agora. Puxou sua carteira do bolso, e retirou duas pequenas gravuras. Guardou a fotografia maior, onde ele e suas mães posavam na frente do museu do Louvre. Segurou a outra foto, de seu pai, com a mão que menos tremia. Talvez pudesse se encontrar com o pai na outra vida. O homem havia falecido há quase um mês, mas Ralph revivia a noite de sua morte de novo e de novo até entrar em seu modo auto-depreciativo no nível mais alto. Ralph nunca teve coragem suficiente para se mutilar, e ficou surpreso consigo mesmo quando se encontrou no meio do quarto, uma enorme poça de sangue embaixo de si, na noite seguinte à morte de Giorgio. Esperou pela morte, mas a morte não veio. Depois da sua primeira tentativa de suicídio, o garoto adotou o destrutivo vício de continuar tentando tirar sua vida toda vez que ia se deitar. Nas noites em que não tinha mais força para tentar um ato contra si mesmo, ficava em prantos. Quando não havia uma poça de sangue, havia uma poça de lágrimas, ou, na maioria das vezes, uma mistura das duas. Tentou suprir o vazio dentro do seu peito com homens em sua cama, mas nenhum deles era suficiente. Iam tão fácil como tinham vindo, e deixavam Ralph pior do que já estava. O garoto meteu a foto para dentro da carteira e a guardou no bolso. Checou o relógio. Faltavam vinte minutos para nove da noite. A simpática senhora que sentou ao seu lado lhe direcionou um lenço. Só agora ele percebeu que uma lágrima brotou e escorreu por todo o seu rosto. Agradeceu e fez bom uso do pano, forçando um sorriso para a mulher. — O que pretende fazer na França? — Ela perguntou, como se nada tivesse acontecido. Ralph se calou. Como iria dizer para ela que eles nunca chegariam na França? Que o avião iria explodir no ar e nenhum dos dois sobreviveriam? Puxou ar para lhe contar uma mentira, mas as palavras não saíram. A mulher fez uma careta, tentando compreender. Ele se deu por vencido. — Estou indo para trabalhar. A mulher pareceu se contentar com aquela informação e voltou a ler uma revista. Ralph poderia perguntar quais eram as últimas palavras dela, mas não queria soar como um lunático. Checou o relógio. Nove da noite. Ralph esperou pela morte. E a morte veio. Em poucos minutos, tudo estava em chamas e o avião tremia de um lado para o outro, como um pássaro flamejante no céu. Uma fênix. Mas, ao contrário da criatura mitológica, Ralph não iria renascer das cinzas. Aquele era seu fim. Apertando a carteira contra o peito, ele fechou os olhos.













