bares e mais desaforos
e mares de choros dentro do meu peito

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@rddalmoro
bares e mais desaforos
e mares de choros dentro do meu peito
ela prefere o inverno no verão
e o verão no inverno
considera música uma terapia
sofreu bullying na escola quando criança
tem medo da rejeição
mudou de cidade várias vezes
e aprendeu a gostar da solidão
se apaixonou aos 14
com 15 jurou nunca mais sentir isso de novo
com 16 quebrou a promessa
e se magoou de novo
já fugiu de casa
sente tanta ansiedade que o peito chega a doer
aprendeu a viver com isso
tem medo de nunca ser amada de verdade
saía todo o final de semana
nunca soube como estudar
receia o futuro
ama sua mãe mas ao mesmo tempo não consegue ficar perto dela
não vê a hora de tirar a habilitação
mesmo sabendo que vai ser uma péssima motorista
ama comida, mas odeia comer
só tem um amigo que confia de verdade
nunca aprendeu a cozinhar
ela só existe
e prefere levar a vida como um filme
do que levar a sério
porque ela já leva tudo a sério demais
acredito que todos nós estamos aqui buscando por algo. buscando por alguma coisa.
e eu estou buscando por algo que preencha esse vazio que parece que só cresce dentro de mim.
não sei se esse buraco foi cavado por mim, ou fui empurrada por outras pessoas.
permitimos que outras pessoas nos quebrem porque em algum momento, acreditamos que elas fossem diferentes das outras que já passaram pela nossa vida.
cheguei ao cansaço de tanto procurar e procurar alguma forma de me libertar desse vazio desconcertante que se expande e ao passar dos anos só foi ficando mais escuro e insuportável.
mas aprendi que se algum dia eu encontrar o que busco, será em mim mesma, e não nos outros. não acho que ninguém algum dia conseguirá consertar os danos causados por tantas pessoas ao longo da minha vida, se não for eu mesma.
o que eu escreveria se hoje fosse meu fim;
nunca fui boa com palavras, ou em esportes, ou cantando, nunca fui boa com instrumentos musicais, mas acredito eu, que escrever é a minha forma de me comunicar.
uma vez eu li que talvez as pessoas escrevam tanto porque com palavras ditas não se sentem ouvidas.
e talvez isso seja verdade.
então o que eu escreveria se eu soubesse que hoje tudo acabaria?
talvez que não estou mal, ou no fundo do poço, ou em crise.
mas sinto essa vontade que tudo ao redor pare.
sinto vontade de poder controlar tudo e acho que a vida pode estar inclusa.
a vida e a morte.
mas não sei muito bem o que eu escreveria.
vejo o final como um alivio, pra quem esta muito cansado.
eu estou muito cansada?
talvez.
ou talvez eu só tenha medo de viver.
viver não é facil pra alguem que costuma fugir dos problemas como eu.
acredite ou nao, a vida pode ser um problema.
nao sei o que quero dizer, ou aonde quero chegar
mas tem essa voz que se repete
repete
e repete
na minha cabeça
ou como um autofalante toda vez que algo da errado
pedindo pra eu desistir.
nao me acho digna da vida que eu levo
muito menos do amor que eu recebo
nao me amo e acho que por isso todo amor que recebo parece irreal.
e qual o sentido de viver a vida sem amar?
porque amar sem ser amado de volta dói
e viver com dor nao me parece viver.
sempre foi um fardo que carreguei parece que com o tempo ele só foi ficando mais pesado e
l
o
n
g
o
e não faço ideia do que escreveria se soubesse que é meu fim porque talvez eu acredite que nao seja
ou talvez eu só nao saiba o que dizer
ou talvez tenha tanto pra dizer
que as palavras na minha mente se entrelaçam
e formam um grande nada.
escreveria que foi uma vida interessante
nao interessante num sentido de virar filme mas
interessante porque valeu a pena ser vivida.
e tudo o que é bom tem que se deixar ir alguma hora.
se não se torna vazio.
o sentido da vida é ser imprevisível e curta
ambígua e inesperada
(ambígua nao tem nada a ver com a vida, talvez um pouco, mas só escrevi aqui porque gosto da palavra)
mas sou momentânea
assim como tudo é
e percebo quando é hora de partir.
quem sabe, um ate logo,
rafaela dal moro
por anos e anos consecutivos, toda a hora de assoprar as velas e fazer um pedido, eu pedi a mesma coisa: felicidade.
todas as vezes eu pedia pra ser feliz.
e não ter precisado esse ano, apenas agradecer, foi mais que um alívio. foi como respirar depois de passar muito tempo sufocada.
eu sou tão incapaz de ser amada assim?
voce nao gostava de mim.
voce gostava do jeito que eu te olhava, como ninguem jamais te olhou. voce gostava do jeito que eu preenchia um vazio que sempre esteve ali.
voce estava com medo de nunca ser amado e eu te amei, mas voce nao me amou de volta.
entao nao diga que fui seu primeiro amor porque não fui, nunca fui. fui só alguem que tampou seus buracos, era uma companhia pra disfarçar a sua solidão.
mas eu gostava de voce.
eu gostava do jeito que você sorria. me pergunto se voce sequer reparava no meu sorriso.
mas chegou o dia que voce encontrou outra que podia tampar suas feridas, uma que você gostasse. então voce me largou, como se eu fosse nada.
então nao venha falar que fui seu primeiro amor, sendo que você nunca nem sequer gostou de mim.
e então você se fecha.
se torna a falta de luz própria que foi o resultado da sua perspectiva e maneira de ver o mundo, a si mesmo e aos outros. você foi machucado por alguém, e tem medo de abrir seu coração de novo. ou machucou alguém, e se sente indigno de amor. se sente culpado. mas entenda: todos nós somos humanos.
todos nós vamos ferir e ser feridos eventualmente.
e tá tudo bem.
ou de repente você decide que não merece o mínimo. decide não, acredita. a culpa te sabota. você se autosabota. por que? porque você passou grande parte da sua vida ouvindo o que você merece. e não merece. e talvez esse seja o maior erro. deixar que os outros decidam o que você merece.
mas na escuridão, caindo aos pedaços, você lentamente começa a juntar os cacos. tudo é um processo. você entende isso. e aos poucos, sua luz volta a iluminar, ainda mais forte do que antes, e você finalmente percebe a importância de cair aos pedaços.
não há luz sem escuridão.
"às vezes o universo faz questão de levar tudo embora, para que no fim tudo o que reste seja você mesmo."
e se eu morri por dentro e sobrevivi, se sobrevivi a mim mesma, logo posso resistir a tudo.
resiliência.
minha hora chegou.
eu não fui feita pra durar, algumas pessoas não são, e eu estou cansada de adiar meu fim.
estou cansada de tudo na verdade.
vivendo num corpo que não é mais meu, numa mente que não pensa direito mais.
estou cansada de decepcionar e magoar os outros.
e essa é a última vez que eu os faço.
não faz mais sentido. nada faz.
rápido e diretamente.
é assim que me vou.
quando pensarem em mim, pensem em um campo repleto de flores, e em como eu costumava ser.
porque a rafaela de agora não é mais eu.
não vou me dopar de remédio pra ficar dias e dias gogre pra depois voltar pra minha vida cotidiana e fingir que nada estava mal, fingir que eu estou bem.
porque eu não estou, e não vou ficar.
eu perdi as esperanças, aprendi que as esperanças só trazem decepção.
pode parecer egoísmo o que eu estou fazendo, mas não sejam egoistas ao ponto de não pensar no que eu estou passando.
suicidio sempre foi uma opção, pelo menos pra mim.
faz sentido viver sendo que não vivo?
sendo que já morri há muito tempo?
isso não é culpa de ninguem. apenas minha. eu assumo a culpa. me culpem, me odeiem.
eu já vou estar morta de qualquer jeito.
sintam minha falta e sorriam.
chorem.
gritem.
chamem por mim.
mas por favor me deixem ir.
carta escrita por alguém que não vive,
rafa dal moro.
— “Stopping by Woods on a Snowy Evening” by Robert Frost