Existem poucas coisas que conseguem fazer jovens criados em grandes centros urbanos perderem o ar. Você cresce no meio do concreto, das sirenes e das pessoas pedindo esmola e se torna duro por necessidade. Eu mesmo sequer lembrava da última situação em que deixei as emoções tornarem a razão coadjuvante. Porém, as coisas andaram mudando do lado de cá do muro. Muito do que eu sempre evitei, se tornou minha rotina. Uma rotina que pela primeira vez eu escolhi ter e me sinto no controle. Sou do tipo que expressa opiniões sobre diversos assuntos. Falo de tudo um pouco. Mas nunca fui de falar sobre mim mesma. Esse lance de deixar alguém me conhecer sempre me assustou muito. Tem um monte de gente por ai que acha que me conhece. Sou do tipo que se mantém perto, porém distante ao mesmo tempo. Nunca fui de saber expressar certos sentimentos, sinto-me meio perdida quando se trata disso. Sou do tipo de pessoa que é completamente avessa a coisas românticas, sou do tipo pessimista, talvez não sempre, mas a maioria das vezes sim. Meu mundo sempre foi muito particular. Nunca gostei de abrir para visitação, até conhecer ele. Ela apareceu. Sim, simplesmente apareceu. Surgiu na minha vida e de repente me senti dentro de um liquidificador ligado na potência mais absurda possível. E no meio desse furacão reencontrei os pedaços de mim que estavam perdidos por aí. A tempestade de incertezas durou pouco e o sol nasceu dentro do meu quarto. E trouxe com eles todas as certezas que eu nunca tive. Ela. E ela me trouxe de volta do lugar no qual eu apenas assistia, em terceira pessoa, meu corpo tropeçar por aí no piloto automático. Voltei a existir. Voltei ao plano espiritual no qual pertenço. Saí do coma. Meus romances nunca deram certo, deveria ser por isso que não acreditava muito no amor. Sempre tive entrada e saída de pessoas em minha vida que nunca me acostumei. Porém, certo dia, um moço bonito dos olhos verdes, inteligente e carismático começou a conversar comigo. Nos conhecemos da forma mais aleatória possível. Daqueles “encontros” que a vida proporciona e que você não coloca muita fé. Mas sabe, assim que eu o vi, alguma coisa em mim mudou. Meu sorriso, meu jeito de mexer no cabelo, minha forma de olhar a vida. Espera ai, logo eu? Eu, que era tão singular, estava prestes a me tornar plural? Sempre fui bom em escrever sobre as coisas que me incomodam. E me limitei durante 20 anos da minha vida a falar sobre apenas elas. Por alguns momentos, levava a tristeza embora compartilhar essas intimidades que, na verdade, são comuns a metade dos jovens do mundo. Mas, junto com a fase mais difícil da juventude, a solidão se foi. E agora o que seriam dos meus contos, das músicas que escrevo pra minha banda, das minhas poesias? Não sabia ainda como seria abrir mão de coisas que sempre foram peças fundamentais e restritas a um mundo solitário que sempre me pertenceu. E agora eu já não estava mais sozinho. A cada noite eu era menos “eu”. Por um tempo temi me desprender de mim, até o momento em que já não tinha mais controle. Numa manhã eu acordei apenas “nós”. Nós escrevemos, nós contamos, nós compomos, nós viramos à noite acordados reclamando do que está errado. Nós. Desde a primeira vez naquela cafeteria até o fim dos dias. Sempre nós. Entre nós dois a conversa sempre fluiu espontânea. Nosso diálogo é sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Não entendo e acho que nunca vou entender essa nossa ligação. Duas pessoas, duas vidas, duas personalidades. Somos ridiculamente opostos e extremamente parecidos. juntos somos melhores. O sorriso se torna mais fácil. Com ele, vou ignorar o prazo de validade estipulado pelos pessimistas. E o nosso laço, jamais vai desatar.
Todo dia, Toda vez.























