Difícil decifrar os sentimentos a essa altura da vida. Não vivi isso antes, nunca tinha chegado nessa parte de viver as coisas mais sérias de todas — não que as outras não tenham sido, mas agora são mais camadas.
Os sonhos são mais arriscados. Os amores são mais profundos e dolorosos. As conquistas acompanham o medo de não serem sustentadas. A ingenuidade vai deixando de ser bela e torna-se envergonhável. Errar vai deixando de ser uma opção pois nosso contato de emergência é o nosso próprio número. Ninguém vai entrar na nossa frente pra nos defender, então é bom ter armaduras — ou melhor, amarguras.
Ao menor sinal de desencontro, cada um toma seu rumo. E de repente a vida volta a ser solitária como nas fases emotivas de uma puberdade confusa. Entra o vazio de desconhecer uma pessoa antes querida; o desconforto de não saber se aceno ou passo reto; a angústia de perceber não ser mais compatível com aquilo que antes me sustentava.
Perceber as paixões, antes espontâneas, dando lugar às memórias, e tornando-se mecânicas e ritualísticas. Mais por respeito e necessidade mútua, na sobriedade do ato de compartilhar a vida e dividir as dores, do que pelo romantismo em si.
Exercitar-se deixa de ser uma opção ou um hobbie, e vira mais uma tarefa árdua pré ou pós louça. Ser promovido deixa de ser uma recompensa desejada, e passa a ser requisito pra não sufocar-se.
Tenho tido medo do ritmo das coisas. Medo de não só perder a juventude, como também o brilho no olhar. Do meu para com o mundo e vice-versa.
Que apesar de tudo possamos seguir tendo fé na vida. Que possamos brilhar um pro outro, como vagalumes no escuro superando a ameaça de extinção.
— João Pedro Bueno.



















