Acredito que o diário da introspecção tenha sua beleza. Seja pelo silêncio demasiado ou pelos barulhos em que não se distinguem sons, restando ao solitário lar de si próprio o fardo de si mesmo e o púlpito das verdades que não merecem serem ditas a mais ninguém, mas que ao mesmo tempo não conseguimos esconder de nós mesmo.
Mais que uma origem, cada vez mais a procura é pelo sentido, e todo o resto são distrações a procura da calma que não se sabe se existe. O alimento de algo maior que não se sabe como, mas extrapola as noções físicas de corpo e qualquer outra abstração humana sobre o transcendente. Escrever em diário pode ter seu sentido pragmático a quem entende que escrever é um bem maior que precisa de esmero, mas pode ser uma mera procura de paz.
Existem dias difíceis, difíceis demais.Não pela noção quantitativa de obstáculos, mas simplesmente porque a mente não suporta. A paz e o inferno que se digladiam na mente, o passado que insiste em bater a porta, o futuro que fazemos questão de adiar e o presente que simplesmente não existe, porque a saúde não comporta nada que não seja o tormento.
Andei passando na frente do módulo de tratamento psicológico da faculdade, onde por vezes senti meu corpo gelando por dentro, por vezes a necessidade de entrar lá e descobrir se eu consigo ajuda. Não tive coragem, meu corpo travou com medo do que possa acontecer, das consequências, nem tudo é tão simples, nem sempre o caminho mais fácil é o melhor caminho a se seguir. Ando, então, tentando entender algo que me ajude, procurando melhorar dentro de mim mesmo, e por mais que sofrer calado seja duro, ao menos as palavras me transbordam. Talvez a falta de pessoas que leiam o que eu escrevo, ou a completa falta de conhecimento sobre os poucos que me leem me dê a coragem necessária pra, aqui, falar.
Às vezes me vem lampejos de ideias do que possa me ajudar. Hoje, escrever me veio como um desses lampejos, justamente pela solidão do exercício racional e gramatical daquilo que fica bruto dentro de mim. Ter, quem sabe, uma atitude diferente perante coisas, pessoas e acontecimentos que me rodeiam. Ser, quem sabe, algo que eu realmente queira ser e abraçar algo com a coragem que nunca tive. Achar um hobby.
Na minha cabeça, o passado foi uma parcial perda de tempo, nada que esteja realmente muito claro na minha cabeça, mas a sensação é de que não tinha vida; nem verdade. Bem verdade que, sim, o lugar que eu nasci e cresci me define, define coisas que eu não posso controlar, outras que eu faço questão de guardar.Do berço de minha vida é possível guardar lembranças queridas, pessoas a quem amar, lugares a se visitar novamente, lições a passar adiante, mas também me traz pensamentos dolorosos. A dor da solidão e do vazio que sinto no lar da minha saudade é, sem duvidas, a marca mais forte de uma vida que não vale a pena.
A tortura do tempo em que minha vida entra num limbo novamente me corrói a alma, e me corrói só de pensar que eu vou ter tudo isso novamente.